Brasileiros das classes C, D e E vivem mais tempo, mas chegam à velhice com menos saúde, menor autonomia financeira e proteção social mais frágil do que pessoas de renda mais alta.
A conclusão é do estudo “Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar”, que reuniu dados de mais de 1.800 entrevistados dessas classes sociais, além de entrevistas em profundidade realizadas em territórios periféricos da Grande São Paulo.
As quatro dimensões que compõem o envelhecimento
Para mapear as desigualdades, o estudo propõe analisar o envelhecimento a partir de quatro eixos distintos. O primeiro é o tempo de vida (lifespan), os anos totais de existência. O segundo é o tempo saudável (healthspan), o período vivido sem doenças incapacitantes.
O terceiro é o tempo de trabalho (workspan), a permanência na atividade laboral. O quarto é o tempo de autonomia financeira (moneyspan), a segurança econômica e a proteção social disponível ao longo da vida.
Segundo o levantamento, quem tem renda mais alta costuma encerrar a vida profissional com planejamento prévio e aposentadoria integral garantida, enquanto para pessoas de menor renda esse horizonte costuma ser distante ou inacessível.
“A aposentadoria integral é, muitas vezes, um horizonte distante ou inacessível devido à informalidade e à precarização do trabalho. O indivíduo trabalha enquanto o corpo aguenta”, explicou Juliana Seidl, doutora em Psicologia Social e do Trabalho e idealizadora da consultoria Longeva, especializada em orientação profissional com foco em longevidade.
Os números que expõem a desigualdade
O estudo mostra que 52% dos aposentados da classe D continuam trabalhando após a aposentadoria, e apenas 33,8% desse grupo têm a aposentadoria como fonte de renda principal. Entre pessoas com 50 anos ou mais das classes C e D, 41% trabalham de forma autônoma, muitas vezes para complementar renda insuficiente ou ajudar no sustento da própria família.
O perfil de quem mais sustenta essa realidade também chamou atenção dos pesquisadores: 54,6% das pessoas com 50 anos ou mais nas classes C e D são mulheres, das quais 70% se autodeclaram negras ou pardas.
Dentro desse grupo, 43% ajudam financeiramente filhos e netos, mesmo enfrentando menor renda própria. Os autores do estudo apontam que a mulher negra periférica ocupa papel central na longevidade brasileira ao sustentar lares e cuidar de várias gerações, ao mesmo tempo em que envelhece com menos renda, saúde e proteção social do que outros grupos.
População idosa no Brasil
O crescimento da população idosa é um fenômeno mundial: atualmente cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo têm 60 anos ou mais, segundo a Organização das Nações Unidas.
No Brasil, pessoas com 50 anos ou mais já representam 27% da população total, o equivalente a 59 milhões de brasileiros, um contingente que segundo o IBGE deve continuar crescendo nas próximas décadas.
Os pesquisadores concluem que viver mais tempo é apenas parte da equação: o desafio maior é alinhar os quatro tempos analisados pelo estudo, de forma que o aumento da longevidade se traduza em qualidade de vida igualmente distribuída entre as diferentes classes sociais do país.





