O escritor malaio Tash Aw, finalista do Prêmio Booker, descobriu, ao escrever sua última novela, que a herança familiar mais profunda não está nos bens materiais, mas nos sentimentos invisíveis que atravessam gerações.
Ele reflete sobre como “os medos, os traumas e as inseguranças” moldam nossas vidas muito mais que qualquer objeto herdado.
Tash Aw, finalista do Prêmio Booker: “A verdadeira herança não são os objetos, mas os medos e os traumas”
Aw nasceu em Taiwan em 1971 e cresceu na Malásia, país de seus pais. Sua obra ficcional explora esse desenraizamento familiar com uma honestidade que o próprio autor reconhece ser, em parte, autobiográfica.
Ainda assim, ele prefere contar a história como se fosse de outra pessoa, para transmitir a experiência com mais força do que a realidade permitiria.
Os avós e pais de Aw viveram as consequências da Segunda Guerra Mundial e de conflitos civis no sudeste asiático, carregando uma herança de “pobreza, deslocamento, dor e sacrifício”.
Seu pai começou a trabalhar aos seis anos e cresceu sem sapatos; seu avô experimentou a violência de guerras que raramente eram discutidas abertamente na família.
Essa transmissão de traumas ocorria em silêncio, sem diálogo explícito entre as gerações.
Aw só descobriu na vida adulta que vários familiares morreram por suicídio, e não por doença.
A revelação ilustra como a dor não dita pode se manifestar de formas devastadoras.
Para ele, essa “herança invisível do trauma, do sacrifício e da violência” permanece difícil de superar.
A ficção como ferramenta de libertação
Em sua última novela, Aw escreve que, a partir da adolescência, as pessoas podem “tentar se libertar” dessa herança não escolhida.
Segundo ele, a ficção oferece energia e clareza que a realidade muitas vezes sufoca sob tristeza e autocensura.
Aw, cujas obras foram traduzidas para mais de vinte idiomas, ganhou o Prêmio Whitbread com seu livro de estreia e foi chamado pela revista Time de “Chéjov malasio”.
A trajetória de Aw, de criança na Malásia, sem imaginar que poderia ser escritor, a estudante de Direito no Reino Unido, exemplifica como traumas herdados podem se transformar em reflexão literária sobre identidade, classe e pertencimento.





