A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou nesta segunda-feira (23) um comunicado público alertando que não há comprovação científica de segurança e eficácia da polilaminina para o tratamento de lesão medular em seres humanos.
A entidade, que reúne mais de 5 mil neurologistas no país, destacou que qualquer nova terapia precisa obrigatoriamente passar por etapas rigorosas de pesquisa clínica fases 1, 2 e 3 antes de receber autorização para prescrição médica.
Uso deve ocorrer apenas em protocolos formais
No documento, a ABN reforça que terapias experimentais só podem ser aplicadas dentro de ensaios clínicos estruturados, com metodologia adequada e aprovação de comitês de ética, conforme determina a legislação brasileira.
A Sociedade Brasileira de Neurologia também se manifestou, lembrando que lesões medulares são condições complexas, que exigem abordagem multidisciplinar baseada em protocolos consolidados e evidências robustas.
O posicionamento das entidades se soma a um editorial conjunto da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Academia Brasileira de Ciências, que alertou para o risco de confundir pesquisa experimental com aplicação clínica. As instituições defendem que eventuais questionamentos científicos sejam debatidos com revisão por pares e transparência, evitando judicialização ou exposição midiática antes da consolidação dos dados.
O que é a polilaminina
A substância vem sendo pesquisada pela bióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Tatiana Coelho de Sampaio, que lidera os estudos há quase 30 anos.
A polilaminina é uma molécula derivada da laminina, proteína natural do corpo humano. Segundo a pesquisadora, ela atua como uma espécie de “ponte” ou malha biológica capaz de estimular a regeneração de neurônios e a reconexão nervosa em casos de lesões graves na medula espinhal.
O projeto conta com parceria do Laboratório Cristália para a produção do biofármaco.
Resultados preliminares e debate científico
O debate ganhou força após a divulgação, no ano passado, de um estudo preliminar conduzido pela equipe da UFRJ com oito pacientes. Segundo o trabalho, seis apresentaram algum grau de recuperação motora.
Um dos casos de maior repercussão foi o de Bruno Drummond, primeiro paciente no mundo a receber a substância em uma lesão aguda, menos de 24 horas após o trauma.
No entanto, os resultados ainda não passaram por revisão por pares etapa considerada essencial para validar metodologia, dados e conclusões científicas.
Especialistas lembram ainda que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem apresentar recuperação parcial de movimentos sem uso da substância, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual.
Situação atual da pesquisa
Atualmente, a polilaminina está em fase 1 de estudos clínicos, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, etapa destinada a avaliar a segurança do produto em humanos.
Caso a segurança seja comprovada, os testes precisarão avançar para as fases 2 e 3, que analisam eficácia, dose adequada e possíveis efeitos adversos em grupos maiores de pacientes. Somente após a conclusão dessas etapas poderá ser solicitado o registro sanitário e eventual autorização para comercialização.
Enquanto isso, a ABN reforça que a aplicação fora de protocolos formais de pesquisa não possui respaldo científico consolidado e deve ser tratada com cautela.





