Um grupo dos principais bancos centrais do planeta e mais de 40 grandes instituições financeiras comerciais intensificou os testes de um novo sistema global de pagamentos digitais. Batizado de Projeto Agorá, o programa é liderado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) e reúne autoridades monetárias de economias que concentram a maior parte das transações internacionais.
A iniciativa surge em meio à corrida para modernizar, e disputar protagonismo, na arquitetura financeira global, que hoje ainda depende de sistemas considerados lentos e caros para transferências entre países.
O que é o Projeto Agorá
O Agorá envolve o Federal Reserve de Nova York (Fed), além dos bancos centrais da Europa, Japão, Coreia do Sul e México. O objetivo é criar uma infraestrutura digital capaz de tornar os pagamentos internacionais mais rápidos, baratos e eficientes, especialmente em operações que envolvem múltiplos intermediários.
Atualmente, transferências internacionais passam por uma cadeia de bancos correspondentes, o que pode aumentar custos e prazos, principalmente em transações com moedas de países emergentes.
“Marco importante” para o sistema financeiro
A vice-gerente-geral do BIS, Andréa Maechler, classificou o início da fase de testes com usuários como um avanço decisivo.
“A tokenização está moldando o futuro das finanças globais. A liquidação atômica pode ser um divisor de águas para pagamentos internacionais em uma era digital”, afirmou. O termo se refere à possibilidade de concluir uma transação de forma instantânea e simultânea entre as partes envolvidas, reduzindo riscos e atrasos.
Do papel para a prática
Segundo Tim Adams, diretor do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), o projeto está deixando o campo teórico e começando a ser avaliado em condições mais próximas da realidade.
“A tokenização tem o potencial de remodelar a forma como o valor circula globalmente, mas isso só será possível se houver integração com regras de governança, conformidade e gestão de riscos”, explicou.
O IIF atua como ponte entre os reguladores e os bancos comerciais participantes.
Agorá x outros projetos globais
O Agorá costuma ser comparado ao mBridge, outro sistema de pagamentos internacionais digitais. O BIS chegou a supervisionar o mBridge, mas se retirou do projeto no fim de 2024, deixando a China na liderança da iniciativa.
Apesar das semelhanças, o Agorá não é visto como um concorrente direto, mas como uma alternativa dentro do processo global de modernização dos sistemas financeiros.
Não é uma moeda digital para consumidores
Mesmo com críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à criação de uma versão digital do dólar, o Agorá não é voltado ao público final. O foco está no chamado mercado de “atacado”, ou seja, transferências entre bancos e grandes instituições financeiras, diferente dos pagamentos feitos por consumidores em lojas ou aplicativos.
Próximos passos
A nova etapa de testes deve durar cerca de seis meses. Após esse período, os resultados serão apresentados a autoridades monetárias e formuladores de políticas públicas, que decidirão se o sistema está pronto para avançar rumo a um lançamento formal.
Uma das possibilidades em análise é a ampliação do projeto para incluir novos bancos centrais e moedas que já participam do sistema de Liquidação Contínua Vinculada (CLS), como os dólares canadense, australiano e neozelandês, além de moedas escandinavas.
SWIFT também participa
A rede global de mensagens financeiras SWIFT, responsável por grande parte das transferências internacionais atuais, também integra o grupo envolvido no Agorá. A entidade trabalha paralelamente em soluções baseadas em blockchain, o que indica que o setor financeiro global caminha para uma profunda transformação nos próximos anos.





