Há pouco mais de três meses à frente do Jornal Nacional, César Tralli deixou o estúdio no Rio de Janeiro para apresentar o noticiário diretamente de Juiz de Fora, cidade devastada por um temporal histórico.
A escolha recolocou em evidência um aspecto delicado do jornalismo televisivo: a cobertura de tragédias no local dos acontecimentos.
Juiz de Fora vive dias de tensão após tragédia
A ida de Tralli ao cenário do desastre não contradiz a postura de William Bonner, mas ajuda a entender por que o antigo âncora sempre descreveu esse tipo de trabalho como um dos mais difíceis da carreira.
Em entrevista recente ao falar sobre sua nova fase no Globo Repórter, Bonner foi direto ao explicar o peso emocional da cobertura in loco: “[No Globo Repórter] Eu vou fazer reportagens também. E eu vou poder fazer reportagens sem nenhum compromisso factual, sem a urgência do factual. Eu não quero citar desgraças, mas pense em qualquer tragédia que eu tenha coberto in loco. Aquilo me impõe uma urgência de fazer uma reportagem para aquele dia — e, em geral, é triste, é sofrido”.
A fala deixa claro que o incômodo nunca foi com o jornalismo em si, mas com a pressão de relatar perdas humanas em tempo real. Em Juiz de Fora, Tralli encarou exatamente esse cenário: ruas cobertas de lama, casas soterradas, buscas por desaparecidos e um número de mortos que se atualiza a cada hora.
O temporal de fevereiro bateu recordes de volume de chuva e atingiu áreas antes consideradas seguras em uma cidade marcada pelo relevo acidentado e pela proximidade com o Rio Paraibuna.
Ao levar o JN para o centro da tragédia, Tralli reforçou o papel informativo do telejornal. A experiência de Bonner, por sua vez, ajuda a explicar por que esse tipo de cobertura é vista, nos bastidores, como necessária — mas difícil.





