Especialistas voltaram a reforçar que reduzir o consumo de carne vermelha é essencial para a saúde e para o planeta. Um novo relatório publicado na revista The Lancet indica que a carne deve representar apenas uma pequena parte de uma dieta equilibrada, com forte predominância de alimentos de origem vegetal.
A recomendação está alinhada às diretrizes da Comissão EAT-Lancet e vem acompanhada de um alerta sobre os impactos ambientais e sanitários do consumo excessivo de carne.
Riscos à saúde: o que dizem os estudos
De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), carnes processadas são classificadas como cancerígenas, enquanto a carne vermelha não processada é considerada “provavelmente cancerígena” para humanos.
Além disso, o consumo frequente de carne bovina, suína e cordeiro está relacionado a doenças cardiovasculares, em razão do alto teor de gordura saturada que eleva o colesterol no sangue.
Outros estudos também apontam que reduzir o consumo de carne vermelha pode estar associado a um menor risco de diabetes tipo 2 e demência, reforçando o papel da alimentação vegetal na prevenção de doenças crônicas.
Recomendações dos especialistas
A principal orientação dos pesquisadores é adotar uma dieta predominantemente baseada em vegetais, priorizando frutas, legumes, verduras, grãos integrais, feijões, lentilhas e oleaginosas.
Entre as recomendações estão:
- Substituir carnes por proteínas vegetais, como feijões, ervilhas e lentilhas;
- Consumir carne com moderação, limitando a ingestão a poucas porções por semana;
- Evitar carnes processadas, como bacon, salsicha e presunto;
- Buscar orientação nutricional individualizada, especialmente em transições alimentares.
Segundo o American Institute for Cancer Research, o ideal é limitar o consumo a três porções de carne vermelha por semana, enquanto a EAT-Lancet propõe um limite ainda mais rígido, até 5 kg por ano.
O impacto ambiental do consumo de carne
Os cientistas destacam que o alto consumo de carne vermelha tem efeitos diretos sobre o clima e os recursos naturais. A produção de carne bovina é uma das maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa, além de demandar grandes quantidades de água e terras agrícolas.
Nos Estados Unidos, cada pessoa consome em média 48,5 kg de carne vermelha por ano, quase dez vezes mais do que o recomendado pela Dieta Planetária.
Com a população global projetada para alcançar 10 bilhões até 2050, os pesquisadores alertam que o planeta não suportaria manter esse padrão de consumo.
Mudanças nas diretrizes alimentares dos EUA
As Diretrizes Dietéticas dos Estados Unidos, atualizadas a cada cinco anos, estão sob revisão e podem trazer mudanças significativas. Pela primeira vez, o Comitê Consultivo das Diretrizes Dietéticas sugeriu reduzir o consumo de carnes vermelhas e processadas e priorizar proteínas vegetais.
A proposta prevê que ervilhas, feijões e lentilhas passem da categoria de “vegetais” para “proteínas”, sendo colocadas acima de carnes, aves e ovos como fontes prioritárias de proteína. Produtos de soja, sementes e oleaginosas também ganhariam destaque.
A recomendação, aprovada pela maioria dos especialistas, recebeu apoio de nomes como Angela Odoms-Young, vice-presidente do comitê, que propôs criar uma categoria específica para leguminosas, destacando sua importância nutricional.
Reações e controvérsias
As sugestões geraram forte reação de produtores de carne e consumidores tradicionais. Ethan Lane, vice-presidente da National Cattlemen’s Beef Association, classificou o debate como “elitista e desconectado da realidade”.
Nas redes sociais, a resistência também é grande, um leitor do Wall Street Journal ironizou: “Vão tirar minha carne vermelha só se for da minha mão fria e morta, pingando gordura de hambúrguer ao ponto.”
Mesmo com as críticas, as evidências científicas são claras, a carne vermelha é uma das principais responsáveis pelas emissões do sistema alimentar, respondendo por cerca de um terço dos gases de efeito estufa do setor nos Estados Unidos.
Próximos passos
O comitê já recebeu mais de 10 mil comentários públicos e deve enviar o relatório final ao Departamento de Agricultura e ao Departamento de Saúde dos EUA em dezembro.
Após um período de consulta pública de 60 dias, as novas diretrizes oficiais devem ser publicadas até o fim de 2025.Se aprovadas, representarão um avanço histórico nas políticas de saúde pública e sustentabilidade, aproximando os EUA de países como Alemanha, Áustria e Noruega, que já recomendam dietas mais vegetais e ambientalmente responsáveis.





