O prato-feito pode até existir em todo o Brasil, mas no Rio de Janeiro ele ganhou identidade própria, e um sabor inconfundível. Parte disso vem do feijão preto, considerado por muitos cariocas o “verdadeiro feijão que o carioca come”, em contraste com o feijão marrom conhecido no resto do país como “feijão carioca”. Do galeto de brasa à feijoada, cada esquina guarda uma história que costuma chegar à mesa em forma de um bom PF. Mas onde estão os melhores?
Para responder, O GLOBO reuniu 46 personalidades, entre chefs, jornalistas, artistas e influenciadores, que revelaram seus cinco endereços preferidos. O resultado é uma lista saborosa com os 50 melhores restaurantes de Norte a Sul, celebrando a simplicidade e a tradição da culinária carioca.
O ranking pode ser explorado em uma ferramenta digital onde cada leitor monta seu próprio top 10 e compartilha nas redes.
Bar da Frente lidera a lista
No topo está o Bar da Frente, na Praça da Bandeira, Zona Norte. O espaço é pequeno, mas acolhedor. Numa ensolarada quarta-feira, até turistas da Estônia preferiram o PF a um dia de praia. O engenheiro Kaupo Kulo, morador do Rio há 17 anos, levou os primos para provar:
“Sou praticamente vizinho do bar. Eles vieram provar o arroz de puta pobre. É um prato bem Brasil pra mim”, contou.
O prato combina arroz, linguiça, panceta, cebola, batata palha e ovo frito. Na mesa deles também havia o PF de vaca atolada, com costela e aipim em molho encorpado.
A dona, Mariana Rezende, lembra que o cardápio foi criado ao lado da mãe, já falecida, mas o segredo continua em casa:
“Eu sirvo pros outros a comida que eu gostaria de comer. Eu falo muito isso no meu bar. Somos seres humanos e tem dias e dias. Às vezes um cozinheiro está de mau humor, mas eu falo, ‘cara, olha só, você ia gostar de ser servido assim? Não. Então, vamos fazer o melhor’”, diz Mariana, emocionada ao ver o bar no topo do pódio. “Tem muito PF bom no Rio, e é muito difícil revolucionar, as opções são muito semelhantes. Mas acho que tem que ter fartura, sabor, tempero. O simples bem feito”, defende.
Baixela garante o segundo lugar
Logo atrás vem o Baixela, pertinho do Posto 6, em Copacabana. Um recanto atrás de um portão gradeado, com mesas na calçada e vista para o vai e vem do bairro.
“Eu e o Rodrigo sempre trabalhamos em restaurante. A ideia era fazer um com preço justo e comida de qualidade”, explica João José Holanda, sócio ao lado de Rodrigo Tavares.
O PF mais emblemático é o frango à parmegiana com sobrecoxa desossada e queijo maçaricado, servido com arroz e purê ou fritas (R$ 42). Quem quiser pode acrescentar feijão e farofa sem pagar mais.
Bar do Momo fecha o pódio
Na Tijuca, o Bar do Momo, comandado por Antonio Carlos Laffargue, o Toninho, ficou em terceiro. O ambiente é de bairro: chaveiro, oficina, barraquinha de camelô e nostalgia.
O cardápio tem clássicos como contrafilé com fritas (R$ 50), isca de fígado com purê (R$ 35) e o famoso filé de frango com maionese (R$ 25). A carne guisada, receita de família, é servida toda segunda.
“A gente faz do mesmo jeito que minha mãe fazia. Tem toda segunda-feira”, diz Tonhão, dono do bar e pai do chef Toninho.
Para o sambista Gabriel da Muda, dono do Bar Miudinho, o Momo é referência:
“Quando eu penso em PF, me vem logo o Momo na cabeça. A carne de panela é a que eu mais gosto. Quando vem com a batata bem corada, então…”
Uma história que se mistura à do Brasil
O prato-feito surgiu entre o fim do século 19 e início do 20, nas casas de pasto que serviam refeições rápidas e baratas aos trabalhadores. Com a industrialização entre 1930 e 1950, se consolidou nas grandes cidades.
“Com a industrialização […] cresceu o número de operários, e junto, a demanda por alimentação rápida e acessível fora de casa”, explica Breno Cruz, professor de Gastronomia da UFRJ.
Hoje, o PF é quase um símbolo carioca, como resume o influenciador Marcos Bonder, do blog “Bond Buteco”:
“Sai da praia, pega um PF; depois do futebol, mata um PF antes de ir para casa; vai resolver alguma coisa na rua ou não levou marmita no trabalho, com um PF. É mais prático, despojado, não tem a formalidade de ter a comida toda separada, vem tudo junto.”




