Um achado histórico dentro do Parque Estadual do Utinga Camilo Vianna, em Belém (PA), está chamando a atenção de pesquisadores e curiosos. Durante uma investigação que durou cerca de um ano, vestígios de antigos trilhos ferroviários do início do século XX foram redescobertos, estruturas que permaneceram soterradas e até submersas por décadas, escondendo um importante fragmento da história da capital paraense.
O parque, conhecido por sua riqueza natural e pela gestão dos lagos que garantem 70% da água que abastece Belém, agora também reforça seu papel como guardião da memória da cidade. A busca pelos trilhos envolveu guias de trilha, pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e moradores antigos do bairro Curió-Utinga, que contribuíram com relatos e lembranças.
Foram identificados quatro pontos com estruturas férreas, três delas pertencentes ao sistema Decauville, uma tecnologia francesa de trilhos móveis usada em áreas instáveis. Registros antigos indicam que esse tipo de ferrovia foi utilizado nas obras do Canal Água Preta, projeto do engenheiro Francisco Bolonha, responsável pelo abastecimento de água de Belém.
Depoimentos
O gestor ambiental do Ideflor-Bio, Diego Barros, que também atua como condutor de trilhas, contou que o interesse pela busca surgiu a partir de um documentário sobre a cineasta alemã Pola Brückner, uma das pioneiras na filmografia sobre a Amazônia. “Veio até nós a neta de uma pesquisadora alemã que, nos anos 30, veio para cá e relatou ter andado de trem dentro do Utinga. A neta dela quis refazer o percurso, e foi isso que reacendeu nossa curiosidade”, explica Diego.
A partir daí, o trabalho ganhou força. Com apoio dos pesquisadores Haroldo Baleixe e Fernando Marques, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA, além da comunidade local, o grupo passou a cruzar mapas antigos, fotografias e depoimentos para determinar os locais exatos dos trilhos.
“Mesmo com os documentos históricos, não foi simples. Os trilhos Decauville eram desmontáveis, então a posição atual não bate exatamente com a dos mapas antigos”, detalha Diego. As fotos do engenheiro Paulo Augusto Gadelha Alves, cedidas por sua filha, foram essenciais. Nelas, é possível observar o antigo Canal Yuna, ladeado pelos trilhos, um cenário hoje transformado pelo alagamento causado pela expansão do sistema de abastecimento de água.
Durante um passeio de boia cross, o biólogo e condutor Jefferson Azevedo avistou, sob a água, a silhueta metálica de um dos trilhos. “Mergulhei por curiosidade e, quando toquei, percebi que era ferro. Depois voltei com a equipe e confirmamos que se tratava de um trecho de cerca de oito metros do trilho Decauville”, relata ao Diário do Pará. Mais à frente, outro trecho foi identificado, ainda maior e preservado com dormentes, visível apenas com mergulho.
“Foi uma surpresa enorme, não só pra mim, mas pra toda a equipe. Procuramos por tanto tempo, em lugares distantes, e estava tudo ali, tão perto”, completa Jefferson.
O achado não apenas resgata uma parte esquecida da história de Belém, como também reforça a importância do Parque do Utinga como espaço de memória, cultura e ciência. Agora, pesquisadores estudam formas de preservar e, possivelmente, abrir os vestígios à visitação, tornando o local ainda mais relevante para o turismo histórico e ambiental da capital paraense.





