Em 1991, o cosmonauta soviético Sergei Krikalev partiu para sua segunda missão espacial. Engenheiro mecânico, ele decolou em 18 de maio rumo à estação Mir, da União Soviética, para realizar reparos de rotina. A previsão era de apenas cinco meses em órbita.
Mas o que era para ser uma missão curta acabou se transformando em 312 dias no espaço, tempo suficiente para dar cerca de 5 mil voltas na Terra. Enquanto estava a 400 km de altura, o cosmonauta assistia a um país desaparecer, a URSS se dissolveu durante sua estadia, transformando-o no que ficou conhecido como “o último cidadão soviético”.
O limbo no espaço
A bordo da Mir, Krikalev soube que não poderia voltar no prazo previsto. Faltava quem o substituísse na função de engenheiro de bordo. Ele acabou ficando sozinho na função, enquanto outros cosmonautas chegavam e partiam ao longo do período.
Apesar da incerteza, ganhou notoriedade ao ser o primeiro astronauta a se comunicar com radioamadores da Terra. Todos os dias, pessoas do mundo inteiro acompanhavam suas transmissões. Até sua esposa, Elena Terekhina, que trabalhava como operadora de rádio no programa espacial soviético, chegou a conversar com ele. No entanto, ambos evitavam falar sobre a crise política no país.
“Estava tentando não falar com ele sobre coisas desagradáveis e acho que ele estava tentando fazer o mesmo”, contou Terekhina no documentário da BBC O último cidadão soviético (1993).
Riscos e resgate
Na época, ainda não havia clareza sobre os efeitos de longas estadias no espaço. Hoje se sabe que períodos assim podem causar perda de massa muscular e óssea, exposição à radiação, queda da imunidade e danos à saúde mental.
Seu retorno em 1992 só foi possível graças a uma operação conjunta entre antigas potências rivais da Guerra Fria, um dos primeiros passos rumo à cooperação que mais tarde resultaria na Estação Espacial Internacional (ISS).
Quando finalmente voltou à Rússia, Krikalev precisou da ajuda de quatro homens para se manter de pé. “Apesar da força da gravidade, foi muito agradável voltar, nos libertamos de um fardo psicológico. Não diria que foi um momento de euforia, mas foi muito bom”, declarou ao documentário da BBC.
O homem que voltou mais jovem
Um detalhe curioso marcou sua jornada, por conta da dilatação do tempo causada pela alta velocidade em órbita, Krikalev voltou cerca de 0,02 segundos mais jovem do que alguém que tivesse nascido no mesmo instante que ele.Apesar da experiência extrema, Krikalev não se afastou do espaço. Pelo contrário: seguiu carreira e hoje soma 803 dias, 9 horas e 39 minutos fora da Terra, ocupando o quarto lugar no ranking mundial de astronautas com mais tempo em órbita.





