Com pouco mais de uma semana de operação-piloto em Santos e São Vicente, no litoral paulista, a plataforma chinesa de delivery Keeta já enfrenta críticas de entregadores e um protesto de trabalhadores ocorrido no último sábado.
O aplicativo, controlado pelo grupo chinês Meituan, considerado o maior serviço de delivery do mundo, chegou ao Brasil prometendo investir R$ 5,6 bilhões e “valorizar os entregadores”. Na prática, porém, a estreia foi marcada por baixas remunerações, bloqueios temporários e insatisfação generalizada.
Reclamações por valores baixos e bloqueios
As principais queixas dos entregadores se concentram nos valores pagos por corrida, considerados inferiores às expectativas, e na política de bloqueios de 30 minutos aplicados a quem recusa viagens. Em grupos de WhatsApp, trabalhadores relatam que o aplicativo chegou a oferecer um bônus de lançamento de R$ 5 por entrega, mas que o montante é insuficiente diante do custo de operação.
Mensagens obtidas pela reportagem também mostram que clientes insatisfeitos poderiam solicitar o bloqueio de um entregador, impedindo-o de receber novos pedidos daquele usuário. Em resposta, a Keeta afirmou que o recurso “não está mais disponível” e que era usado em outros países apenas para mitigar incidentes de segurança.
Expectativa frustrada e terceirização contestada
Antes do lançamento, a Keeta havia promovido uma campanha de marketing agressiva, prometendo boas condições de trabalho e pagamentos acima dos concorrentes, como o iFood. No entanto, entregadores relatam ganhos similares ao mercado, com taxas mínimas de R$ 7,50 para motos e R$ 7 para bicicletas, o que gerou frustração na categoria.
Outro foco de insatisfação é o modelo de Operadores Logísticos (OL), intermediárias contratadas para organizar as entregas em novas praças. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), esse formato configura terceirização irregular, já que impõe horários, metas e subordinação sem oferecer direitos trabalhistas.
Entregadores denunciam “pressão” para cumprir turnos e relatam exposição pública de nomes em grupos de mensagens quando não comparecem aos horários combinados. “Eu não tenho vínculo com eles, então não sou obrigado a me conectar às 7h em ponto”, afirmou um trabalhador que preferiu não se identificar ao UOL.
Resposta da empresa
Em nota, a Keeta confirmou as taxas mínimas praticadas e o bônus temporário de R$ 5, afirmando que os valores “estão de acordo com o mercado local”. A empresa disse ainda que 60% dos entregadores atuam de forma independente, sem vínculo com operadores logísticos.
Apesar das promessas de inovação e valorização, a estreia do aplicativo expôs velhos problemas da economia de plataforma no Brasil, baixos ganhos, falta de transparência e relações de trabalho sem proteção formal.





