Uma pesquisa inédita do Instituto Decodifica revelou a gravidade da crise climática enfrentada pelos moradores da Favela de Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro, uma das áreas urbanas mais afetadas por enchentes no país. Segundo o levantamento, 91,2% das famílias afirmam conviver com alagamentos frequentes, número que coloca a comunidade entre os territórios mais vulneráveis do Brasil diante das mudanças climáticas.
O estudo será apresentado nesta terça-feira (18), na Cas’Amazonia Brasil, em Belém, como parte das atividades da COP30, e integra o relatório “Retratos das Enchentes”, que analisou o impacto das chuvas em quatro regiões do Rio de Janeiro e Pernambuco.
Enchentes constantes, danos profundos e pouca ajuda
Com cerca de 29 mil moradores, Acari é cortada pelo Rio Acari e sofre com problemas estruturais históricos, baixa altitude, assoreamento, lixo acumulado e ausência de saneamento básico. Esses fatores tornam o bairro extremamente suscetível a enchentes, e os efeitos são devastadores:
- 91,2% relatam alagamentos recorrentes nas ruas
- 64,1% tiveram suas casas invadidas pela água
- Entre os atingidos, 81,4% registraram água acima de 1 metro dentro do imóvel
- 84,1% perderam móveis ou eletrodomésticos
- 71,7% tiveram danos estruturais, como rachaduras
- 49,1% perderam documentos essenciais
- 35% precisaram de atendimento médico após as enchentes
Em 2024, cerca de 20 mil pessoas tiveram casas invadidas pela água, segundo a associação de moradores.
Moradores adaptam suas casas por conta própria
Com a falta de obras estruturais, a população tem arcado sozinha com as adaptações necessárias para sobreviver às cheias. O levantamento mostra que:
- 52,6% elevaram o nível do chão
- 22,8% construíram um segundo andar
Essas reformas, muitas vezes feitas com recursos escassos, se tornaram a única forma de reduzir perdas materiais frequentes.
Saúde física e emocional em colapso
As enchentes provocam doenças e abalam o bem-estar dos moradores:
- 36,6% relataram dengue
- 12,1% tiveram doenças de pele
- 4,7% contraíram leptospirose
- 48,5% adoecem após enchentes
- 55% têm o sono ou a concentração afetados pelo medo das cheias
- Entre mulheres negras, 35% relatam chorar “frequentemente ou sempre” por causa da situação
A comunidade registrou duas mortes relacionadas às chuvas de 2024.
Serviços essenciais ficam isolados
Os alagamentos também interrompem o funcionamento da cidade para quem vive em Acari:
- Transporte público parou para 56,2%
- Saúde deixou de funcionar para 50,4%
A entrada da comunidade, a área que mais alaga, concentra escolas, postos de saúde e comércios, o que isola milhares de famílias mesmo quando suas casas não foram invadidas.
Avaliação do governo é péssima
Apesar da dimensão da crise, a resposta pública é mal avaliada. No levantamento:
- 35,8% classificam como “péssima” a atuação governamental
- Apenas 24,3% receberam algum auxílio financeiro
Os pesquisadores definem o cenário como “privatização da adaptação climática”: cada morador, sozinho, tenta sobreviver a eventos extremos que se repetem ano após ano.
Rio Acari e obras que nunca se concretizam
O Rio Acari, que nasce em Duque de Caxias e percorre 21 km até desaguar no Rio Meriti, está estrangulado por lixo, vegetação e ocupações irregulares. Especialistas destacam que:
- O rio está “completamente sedimentado”
- Pontes e obras mal planejadas reduzem a vazão
- O reassentamento de famílias nas margens deveria ser prioridade
- Projetos do Novo PAC seguem sem execução
Apesar de a Prefeitura afirmar ter retirado 191 mil toneladas de entulho em 2023, obras mais profundas, como bolsões de contenção, não avançaram.
Outras regiões também sofrem
Além de Acari, a pesquisa analisou Kennedy (RJ), Passarinho (PE) e Dois Carneiros (PE). Em Kennedy, por exemplo:
- 84,9% convivem com alagamentos frequentes
- 58,5% tiveram danos estruturais
- 61,3% perderam bens
- 54,7% avaliam a atuação do governo como “péssima”
Ao todo, 718 famílias foram entrevistadas nos quatro territórios.
Um alerta máximo para milhares de brasileiros
Os dados reforçam o que especialistas já alertam: as mudanças climáticas estão aprofundando desigualdades e colocando populações inteiras em risco permanente. Em Acari, mais de 90% das famílias vivem em alerta constante, e, sem ações públicas efetivas, o cenário tende a piorar.
A pesquisa será ampliada para o Maranhão em 2026.





