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Mais de 90% dos brasileiros que moram nessa região devem ficar em alerta máximo para alagamentos

Por Eduardo Sant’Anna
19/11/2025
Mais de 90% dos brasileiros que moram nessa região devem ficar em alerta máximo para alagamentos

Pixabay/Reprodução - imagem ilustrativa

Uma pesquisa inédita do Instituto Decodifica revelou a gravidade da crise climática enfrentada pelos moradores da Favela de Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro, uma das áreas urbanas mais afetadas por enchentes no país. Segundo o levantamento, 91,2% das famílias afirmam conviver com alagamentos frequentes, número que coloca a comunidade entre os territórios mais vulneráveis do Brasil diante das mudanças climáticas.

O estudo será apresentado nesta terça-feira (18), na Cas’Amazonia Brasil, em Belém, como parte das atividades da COP30, e integra o relatório “Retratos das Enchentes”, que analisou o impacto das chuvas em quatro regiões do Rio de Janeiro e Pernambuco.

Enchentes constantes, danos profundos e pouca ajuda

Com cerca de 29 mil moradores, Acari é cortada pelo Rio Acari e sofre com problemas estruturais históricos, baixa altitude, assoreamento, lixo acumulado e ausência de saneamento básico. Esses fatores tornam o bairro extremamente suscetível a enchentes, e os efeitos são devastadores:

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  • 91,2% relatam alagamentos recorrentes nas ruas
  • 64,1% tiveram suas casas invadidas pela água
  • Entre os atingidos, 81,4% registraram água acima de 1 metro dentro do imóvel
  • 84,1% perderam móveis ou eletrodomésticos
  • 71,7% tiveram danos estruturais, como rachaduras
  • 49,1% perderam documentos essenciais
  • 35% precisaram de atendimento médico após as enchentes

Em 2024, cerca de 20 mil pessoas tiveram casas invadidas pela água, segundo a associação de moradores.

Moradores adaptam suas casas por conta própria

Com a falta de obras estruturais, a população tem arcado sozinha com as adaptações necessárias para sobreviver às cheias. O levantamento mostra que:

  • 52,6% elevaram o nível do chão
  • 22,8% construíram um segundo andar

Essas reformas, muitas vezes feitas com recursos escassos, se tornaram a única forma de reduzir perdas materiais frequentes.

Saúde física e emocional em colapso

As enchentes provocam doenças e abalam o bem-estar dos moradores:

  • 36,6% relataram dengue
  • 12,1% tiveram doenças de pele
  • 4,7% contraíram leptospirose
  • 48,5% adoecem após enchentes
  • 55% têm o sono ou a concentração afetados pelo medo das cheias
  • Entre mulheres negras, 35% relatam chorar “frequentemente ou sempre” por causa da situação

A comunidade registrou duas mortes relacionadas às chuvas de 2024.

Serviços essenciais ficam isolados

Os alagamentos também interrompem o funcionamento da cidade para quem vive em Acari:

  • Transporte público parou para 56,2%
  • Saúde deixou de funcionar para 50,4%

A entrada da comunidade, a área que mais alaga, concentra escolas, postos de saúde e comércios, o que isola milhares de famílias mesmo quando suas casas não foram invadidas.

Avaliação do governo é péssima

Apesar da dimensão da crise, a resposta pública é mal avaliada. No levantamento:

  • 35,8% classificam como “péssima” a atuação governamental
  • Apenas 24,3% receberam algum auxílio financeiro

Os pesquisadores definem o cenário como “privatização da adaptação climática”: cada morador, sozinho, tenta sobreviver a eventos extremos que se repetem ano após ano.

Rio Acari e obras que nunca se concretizam

O Rio Acari, que nasce em Duque de Caxias e percorre 21 km até desaguar no Rio Meriti, está estrangulado por lixo, vegetação e ocupações irregulares. Especialistas destacam que:

  • O rio está “completamente sedimentado”
  • Pontes e obras mal planejadas reduzem a vazão
  • O reassentamento de famílias nas margens deveria ser prioridade
  • Projetos do Novo PAC seguem sem execução

Apesar de a Prefeitura afirmar ter retirado 191 mil toneladas de entulho em 2023, obras mais profundas, como bolsões de contenção, não avançaram.

Outras regiões também sofrem

Além de Acari, a pesquisa analisou Kennedy (RJ), Passarinho (PE) e Dois Carneiros (PE). Em Kennedy, por exemplo:

  • 84,9% convivem com alagamentos frequentes
  • 58,5% tiveram danos estruturais
  • 61,3% perderam bens
  • 54,7% avaliam a atuação do governo como “péssima”

Ao todo, 718 famílias foram entrevistadas nos quatro territórios.

Um alerta máximo para milhares de brasileiros

Os dados reforçam o que especialistas já alertam: as mudanças climáticas estão aprofundando desigualdades e colocando populações inteiras em risco permanente. Em Acari, mais de 90% das famílias vivem em alerta constante, e, sem ações públicas efetivas, o cenário tende a piorar.

A pesquisa será ampliada para o Maranhão em 2026.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Eduardo Sant’Anna

Eduardo Sant’Anna

Jornalista apaixonado por esportes. Experiência em redação, produção de textos e elaboração de pautas.

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