A recente declaração de Donald Trump sobre o interesse dos Estados Unidos em se apoderar da Groenlândia reacendeu debates sobre expansionismo territorial e disputas geopolíticas.
No entanto, essa não seria a primeira vez que Washington tenta ampliar sua área de influência por meio da compra, ou pressão diplomática, sobre territórios estrangeiros. Há mais de um século, no Caribe, os EUA incorporaram ao seu mapa um arquipélago que até então pertencia à Dinamarca, as atuais Ilhas Virgens Americanas.
A nova crise e os ecos do passado
Trump afirmou que a Groenlândia é estratégica para a “segurança nacional” dos Estados Unidos e não descartou o uso da força para garantir o controle da ilha. O discurso gerou reações imediatas na Europa, especialmente após países como Dinamarca e Reino Unido enviarem tropas para a região.
A postura lembra episódios históricos em que os EUA alegaram razões estratégicas para justificar avanços territoriais, como ocorreu no início do século 20 no Caribe.
Onde ficam as Ilhas Virgens Americanas
As Ilhas Virgens Americanas formam um arquipélago localizado a leste de Porto Rico, no mar do Caribe. As principais ilhas são Saint Thomas, Saint John e Saint Croix, além de dezenas de ilhotas e recifes.
Atualmente, o território abriga cerca de 83 mil habitantes e tem sua economia baseada principalmente no turismo. Apesar de os moradores serem cidadãos americanos, eles não possuem direito a voto nas eleições presidenciais.
Por que o território era dinamarquês
Durante os séculos 17 e 18, potências europeias disputaram intensamente o controle do Caribe. A Dinamarca consolidou sua presença nas ilhas em 1684, transformando a região em um polo de produção de açúcar, sustentado pelo trabalho escravizado de africanos.
Esse modelo econômico garantiu lucros por décadas, mas entrou em declínio no século 19, com a queda dos preços do açúcar e sucessivas revoltas de trabalhadores escravizados. Aos poucos, as ilhas passaram a ser vistas como um fardo econômico para o governo dinamarquês.
O interesse estratégico dos Estados Unidos
Após a Guerra Civil, os EUA passaram a investir fortemente na expansão territorial e no fortalecimento naval, guiados pela Doutrina Monroe. O porto natural de Saint Thomas chamou a atenção de estrategistas americanos por sua localização privilegiada, considerada ideal para controlar rotas marítimas no Caribe.
Ao mesmo tempo, a construção do Canal do Panamá, inaugurado em 1914, aumentou ainda mais a importância estratégica da região para Washington, que buscava proteger suas rotas comerciais e militares.
Primeira Guerra Mundial acelera a negociação
O cenário da Primeira Guerra Mundial foi decisivo para a concretização do acordo. Com a Europa mergulhada no conflito, os EUA temiam que a Alemanha ocupasse a Dinamarca e, consequentemente, assumisse o controle das ilhas.
O risco de que submarinos alemães utilizassem o arquipélago como base de ataque fez com que Washington pressionasse Copenhague. Segundo historiadores, a postura americana se aproximava de um ultimato: vender ou enfrentar uma possível invasão.
A compra histórica
Em 1916, Dinamarca e Estados Unidos chegaram a um acordo. O valor negociado foi de US$ 25 milhões em ouro, o equivalente a cerca de US$ 630 milhões em valores atuais. Em troca, os EUA se comprometeram a respeitar os interesses dinamarqueses sobre a Groenlândia, um detalhe que hoje ganha novo peso no debate internacional.
O tratado foi ratificado pelos dois países, e, em 31 de março de 1917, a bandeira americana foi oficialmente hasteada nas ilhas, marcando a transferência definitiva do território.
População ficou fora da decisão
Apesar do referendo realizado na Dinamarca, os habitantes locais das ilhas não foram consultados sobre a mudança de soberania. A decisão ocorreu exclusivamente entre governos, refletindo a lógica colonial da época, em que interesses estratégicos se sobrepunham à vontade das populações afetadas.
Paralelos com o presente
Mais de um século depois, o episódio das Ilhas Virgens Americanas volta ao centro do debate como exemplo histórico de expansão territorial dos Estados Unidos. A diferença, agora, é que a Dinamarca não demonstra qualquer intenção de negociar a Groenlândia.





