A possibilidade de uma nova paralisação nacional dos caminhoneiros reacendeu o alerta no setor de transportes. Especialistas apontam que a combinação entre escassez de profissionais e envelhecimento acelerado da categoria pode desencadear um novo colapso logístico semelhante ao que o país enfrentou em 2018, quando uma greve paralisou estradas, reduziu estoques de alimentos e combustíveis e gerou prejuízos bilionários.
Segundo o pesquisador De Leon Petta, o Brasil já vive um “desequilíbrio estrutural” na oferta de motoristas. Ele explica que mudanças demográficas e econômicas pressionam a rotina dos profissionais, enquanto empresas lutam para manter suas operações diante da queda no número de trabalhadores disponíveis.
O transporte rodoviário é responsável por cerca de 60% de toda a movimentação de mercadorias no país. Apesar disso, o grupo de profissionais que sustenta essa estrutura vem diminuindo de forma acelerada. Dados apresentados por Petta indicam que a idade média dos caminhoneiros é de 45 anos, com crescimento expressivo de motoristas acima dos 60 e redução drástica na entrada de jovens. Em 2024, apenas 4% dos profissionais tinham menos de 30 anos, enquanto aumenta o número de trabalhadores que ultrapassam os 70 anos.
Entre 2014 e 2024, o total de caminhoneiros em atividade caiu cerca de 20%, passando de 5,5 milhões para 4,4 milhões. No mesmo período, a demanda por transporte aumentou impulsionada pelo agronegócio e pelo comércio eletrônico. Como consequência, empresas relatam dificuldade na contratação, maior disputa por profissionais e alta no preço do frete.
Além do envelhecimento da categoria, fatores como alto custo para obtenção da habilitação de carga pesada, investimentos elevados para quem atua como autônomo, falta de pontos de parada adequados e longos períodos longe da família afastam novos motoristas da profissão. Soma-se a isso a crescente sensação de insegurança nas estradas, só em 2024, foram registrados mais de 10 mil roubos de carga.
Histórico recente de paralisações
O Brasil já enfrentou outras paralisações de caminhoneiros que tiveram forte impacto nacional. A mais marcante ocorreu em 2018, quando uma greve de 11 dias provocou desabastecimento de combustíveis, cancelamento de voos, prateleiras vazias e prejuízos estimados em mais de R$ 30 bilhões. Em 2021, novas mobilizações ocorreram em diferentes regiões, embora não tenham alcançado a mesma escala da paralisação anterior.
Agora, especialistas afirmam que a combinação entre escassez de mão de obra, aumento da demanda e deterioração das condições de trabalho cria um cenário propício para novas manifestações. Uma eventual paralisação, alertam, poderia novamente comprometer o abastecimento de alimentos, combustíveis e produtos industriais em todo o país.





