Mas, na maioria dos casos, as relações são seguras e não prejudicam o bebê, que fica protegido dentro do útero. “Não há motivos para alterar a atividade sexual, a menos que aconteça alguma intercorrência”, afirma a ginecologista e sexóloga Cleusa Conceição, membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, em entrevista à CRESCER.
O feto, explica ela, fica protegido dentro do corpo da mãe durante toda a relação sexual. “Há várias barreiras de proteção que mantêm o bebê isolado durante a relação sexual, como o músculo uterino, o colo do útero, o líquido amniótico”, detalha a médica. “Além disso, durante a penetração, o pênis fica no canal vaginal e não consegue atingir o bebê em nenhuma circunstância”, acrescenta.
Outro medo bastante comum envolve o orgasmo. Como ele estimula a liberação de ocitocina, hormônio ligado às contrações uterinas, muitas pessoas acreditam que isso poderia aumentar o risco de aborto ou parto prematuro. Mas não é o que acontece.
Embora o orgasmo possa provocar contrações de treinamento, ele não prejudica a gestação. "Também não aumenta risco de aborto ou parto prematuro”, afirma Cleusa. Pelo contrário: durante o orgasmo, o corpo libera endorfina, hormônio associado à sensação de prazer e bem-estar, que ajuda a melhorar o humor, diminuir a ansiedade, favorecer o sono e fortalecer a intimidade e a conexão emocional do casal.
Em quais fases da gravidez o sexo é mais confortável?
A resposta pode variar bastante de mulher para mulher, mas, em geral, o conforto durante o sexo muda ao longo dos trimestres por causa das transformações físicas e hormonais da gestação. Veja o que costuma acontecer em cada fase:
- Primeiro trimestre: pode ser o mais desafiador.
Nos primeiros meses, o corpo ainda está se adaptando à gravidez. Por isso, sintomas como náuseas, enjoos, sono excessivo, sensibilidade nas mamas e cansaço podem reduzir o desejo e dificultar a disposição para o sexo.
- Segundo trimestre: costuma ser a fase mais confortável.
Para muitas mulheres, esse é o período mais tranquilo da gestação. Os enjoos geralmente diminuem, a energia tende a voltar e a barriga ainda não está tão grande, o que facilita encontrar posições confortáveis. Além disso, algumas grávidas relatam aumento da libido nessa fase.
- Terceiro trimestre: o desconforto pode voltar.
Com o avanço da barriga, o sexo pode exigir mais adaptações. Dores nas costas, câimbras, azia, sensação de peso e dificuldade para mudar de posição são algumas das queixas mais comuns no fim da gravidez. Ainda assim, com conforto, diálogo e posições adequadas, muitas mulheres continuam mantendo a vida sexual normalmente até o final da gestação.
Além das mudanças físicas, os aspectos emocionais e a dinâmica do casal também podem impactar a vida sexual durante a gravidez. Inseguranças, medo de machucar o bebê, alterações na autoestima, ansiedade e até o estresse da nova rotina influenciam diretamente o desejo e o conforto nas relações. “A gente sempre tem de olhar este casal do ponto de vista biopsíquico, sociocultural e relacional”, pontua a especialista.
Qual posição uma grávida não pode fazer na relação?
Não existe uma lista rígida de posições proibidas durante a gravidez. O principal critério, segundo a ginecologista e sexóloga Cleusa Conceição, é o conforto da mulher. “Não existe uma regra rígida, mas é importante que a mulher busque a posição que lhe for mais confortável”, orienta.
Algumas posições, porém, costumam funcionar melhor ao longo da gestação:
- Mulher por cima: tende a ser uma das preferidas, especialmente quando a barriga começa a crescer. “Por cima, há também um controle da profundidade da penetração, do ritmo, do ângulo. Ela fica mais no comando”, explica Cleusa.
- De lado: costuma trazer mais conforto no fim da gravidez, porque reduz a pressão sobre a barriga e a bacia. “Alivia a pressão na barriga e na bacia”, descreve a especialista.
- Quatro apoios, em alguns casos: pode funcionar para alguns casais, embora fique mais desconfortável no terceiro trimestre. “O casal acaba tendo de se adaptar, usando almofadas ou travesseiros, para encontrar um ângulo melhor”, aponta.
Por outro lado, algumas posições podem ser desconfortáveis ou até desaconselhadas no fim da gestação. Ficar deitada de barriga para cima por muito tempo, por exemplo, pode comprimir a veia cava inferior por causa do peso do útero e dificultar a circulação sanguínea. “A mulher pode ter queda de pressão, tontura, falta de ar...”, diz Cleusa.
O mesmo vale para posições em que o parceiro fica pressionando o corpo da gestante. “Também recomendamos evitar posições que exijam movimentos intensos ou bruscos, por conta das limitações físicas”, ressalta. Em qualquer situação, a comunicação entre o casal faz diferença.
Como o bebê fica na barriga quando a mãe está tendo relação?
Essa é uma das dúvidas mais comuns durante a gravidez — e a resposta costuma tranquilizar os futuros pais. “O bebê fica bem protegido e não tem problema nenhum”, reforça Cleusa.
Além do músculo uterino e do colo do útero, o bebê também fica envolvido pelo líquido amniótico, que funciona como uma espécie de amortecedor natural. Ou seja: não existe contato direto durante a relação sexual.
Existem situações em que o sexo não é recomendado?
Apesar de o sexo ser considerado seguro na maior parte das gestações, existem situações em que o obstetra pode orientar abstinência sexual ou restrições específicas. Entre elas:
Placenta prévia
Bolsa rota (rompimento da bolsa)
Risco de parto prematuro
Colo do útero dilatado precocemente
Ameaça de aborto com sangramento
Infecções ou sangramentos sem causa definida
A especialista lembra que é importante entender exatamente qual é a restrição indicada pelo médico. “São níveis diferentes de cuidado. Um casal pode estar proibido de ter relação sexual com penetração, mas não de ter orgasmo em uma masturbação ou em uma relação de sexo oral, por exemplo”, explica.
O sexo pode induzir o parto?
Essa preocupação costuma aparecer principalmente no fim da gravidez. Segundo Cleusa, as contrações podem acontecer por causa da liberação de ocitocina durante o orgasmo ou pelo estímulo natural do útero. Mas isso, em uma gestação saudável, não significa risco de parto prematuro.
“A ocitocina é responsável pelas contrações uterinas, mas, geralmente, no sexo, as contrações são leves, duram pouco e não representam risco para o parto prematuro, em uma gravidez saudável”, afirma. “Além disso, no final da gravidez, o miométrio fica naturalmente mais sensível aos estímulos, mas estudos mostram que as contrações vindas do orgasmo não aumentam a frequência de parto prematuro”, complementa.
As restrições costumam existir apenas em casos específicos, como gravidez de risco, dilatação precoce, placenta prévia ou bolsa rompida.
Quando é importante falar com o médico?
O ideal é que as dúvidas sobre sexo e sexualidade sejam abordadas desde o início do pré-natal. “O casal já deveria pedir orientações em sexualidade desde a primeira consulta”, recomenda Cleusa.
Segundo ela, temas como libido, inseguranças, mitos, posições mais confortáveis e possíveis contraindicações precisam ser discutidos abertamente ao longo da gestação. Também é importante buscar orientação médica em casos de dor, desconforto durante as relações ou sangramentos.
“Todo o tempo da gestação é tempo de se falar sobre sexualidade, porque esta é uma parte fundamental da vida”, completa.