Galileu
Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Neurology nesta segunda-feira (13) revelou que a proporção de adultos com demência aumentou em países da América Latina e do Caribe nas últimas décadas. Os países ricos, por outro lado, têm apresentado um quadro contrário, com quedas das taxas de demência.
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“Quase tudo o que sabíamos sobre a demência (...) vinha de países ricos”, disse Jorge Llibre-Guerra, da Universidade Washington, em comunicado. Somado isso à falta de informações sobre o panorama latino, os pesquisadores decidiram analisar dados de 16.950 adultos com 65 anos ou mais em países Cuba, República Dominicana, México, Peru e Porto Rico. Como resultados, as taxas de demência no México, Peru e Porto Rico aumentaram consideravelmente, enquanto em Cuba e na República Dominicana, permaneceram estáveis.
Embora a população da América Latina esteja envelhecendo mais rápido do que qualquer outra, os avanços tecnológicos que ajudaram a democratizar o acesso à saúde não chegaram para todos. Para Llibre-Guerra, “isso ressalta o quanto o impacto da demência é influenciado pelas condições em que as pessoas vivem”. É o caso dos Estados Unidos, que apesar de ser um país do continente americano, apresenta uma menor prevalência do quadro devido à melhor qualidade de vida existente no país.
Como o estudo foi feito
Idosos de Cuba, República Dominicana, México, Peru e Porto Rico foram consultados, pela primeira vez, entre os anos de 2003 e 2006. O retorno do acompanhamento, por sua vez, veio cerca de duas décadas mais tarde: entre 2016 e 2020. Junto dessa abordagem clínica, os cientistas realizaram testes cognitivos, entrevistas clínicas e entrevistas com pessoas próximas ao participante.
Nos cinco locais, a prevalência aumentou de 10,6% para 16,9% – o que equivale a um comparativo de, antes, um para cada dez idosos e, agora, de um a cada seis. No México, Peru e Porto Rico, os números chamaram mais atenção: de 9,6% para 14,5%, de 7,6% para 11,7% e de 10,7% para 15,7%, nesta ordem.
Em valores absolutos, as análises revelaram que aproximadamente 1,2 milhão de pessoas vivem com algum tipo de degeneração neurológica no México, 416,8 mil no Peru, 133,2 mil em Cuba, 100,4 mil em Porto Rico e 111,2 mil na República Dominicana.
Em Cuba e na República Dominicana, no entanto, as taxas de demência permaneceram estáveis. Segundo Llibre-Guerra, isso pode ter ocorrido porque as populações desses dois países não sofreram o mesmo aumento rápido de obesidade, inatividade física e doenças metabólicas que ocorreram nas demais localidades.
Essa possibilidade torna o quadro das taxas latinoamericanas mais otimista. Afinal, se os casos de demência permaneceram estáveis enquanto os índices de fatores de risco modificáveis são mantidos sob controle, isso quer dizer que o avanço da degeneração neurológica pode ser freado.
Por vezes, esses fatores estão diretamente relacionados às questões sociais de cada país, como educação e saúde. No México e em Porto Rico, no entanto, o aumento nos casos de demência persistiu mesmo depois dos pesquisadores levarem esses aspectos em consideração. Nesses casos, Llibre-Guerra sugeriu que a pobreza ou outros fatores estruturais mais profundos podem estar moldando o risco de demência.
Também está crescendo…
Ana Luisa Sosa, do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia da Cidade do México, disse que os resultados têm evidenciado não apenas as desigualdades globais, mas também os desafios de saúde pública. Isso porque “as tendências de declínio da demência observadas em alguns países de alta renda podem não se replicar globalmente”.
Mas, além da comparação com os países conhecidos como Norte Global, os pesquisadores destacam que é preciso avaliar os demais países da América Latina, com destaque para os Estados mais populosos e ricos, como Brasil, Argentina e Chile. Se estudados, é possível que exista uma vigilância mais rigorosa, investimentos em cuidados com a demência em nível regional.
“Se agirmos agora, há uma oportunidade real de mudar a trajetória da próxima geração de idosos [da América Latina]”, afirmou Llibre-Guerra, já que muitos dos fatores de risco que os cientistas suspeitam estar impulsionando esses aumentos podem ser alterados. “Manter-se fisicamente ativo, controlar a pressão arterial e o açúcar no sangue, não fumar, procurar atendimento médico prontamente ao surgirem sintomas e manter-se socialmente conectado são maneiras comprovadas de reduzir o risco”.
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