Ramana Rech e Géssica Brandino / Folhapress
O El Niño está em curso, afirmou nesta quinta-feira (11) a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos. A expectativa é que ofenômeno se intensifique até o fim deste ano.
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Segundo a agência americana, o fenômeno climático deve se desenvolver para um nível moderado ou forte.
No início deste mês, a secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, disse que o mundo precisa se preparar para os efeitos do fenômeno, que pode elevar o risco de chuvas, enchentes e ondas de calor.
O recente alerta da OMM acerca do El Niño fez as buscas na internet sobre o fenômeno atingirem pico de popularidade, segundo dados do Google Trends.
As pesquisas cresceram seis vezes em comparação com maio de 2024, mês marcado pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul.
O estado gaúcho e Santa Catarina lideram o interesse por informações sobre o fenômeno climático.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou recentemente que o governo federal está preparado para enfrentar os possíveis reflexos do El Niño no país. A gestão planeja ações para mitigar os impactos do fenômeno e evitar que incêndios florestais se espalhem pelo país em um eventual período de seca.
O QUE É O EL NIÑO?
O El Niño consiste no aquecimento maior do que a média das águas do Pacífico que se movem em direção à América do Sul, somado ao enfraquecimento dos ventos alísios, deslocamentos de ar quente e úmido nas zonas equatoriais. A atenuação dos ventos contribui para que a água quente volte para o meio do oceano.
QUAL A ORIGEM DO NOME EL NIÑO?
O nome faz referência ao menino Jesus. O El Niño traz chuva no fim do ano em uma área geralmente mais seca no Peru. Por isso, a chuva foi associada ao Natal e a ser vista como um presente de Deus.
O QUE É O SUPER EL NIÑO?
O climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que o termo super El Niño destaca a intensidade do fenômeno em comparação aos demais, mas não é um termo técnico.
Em geral, o El Niño se caracteriza por águas 0,5°C mais quentes do que a média. Quando essa temperatura fica acima de 2°C ou 2,5°C, o fenômeno é considerado muito forte.
Previsões de um eventual El Niño neste ano realizadas pelo Centro Europeu para Previsões Climáticas de Médio Prazo (ECMWF) indicam que o aumento da temperatura pode ficar acima dos 3°C.
Para o meteorologista Márcio Cataldi, professor do departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF), "as previsões indicam que esse pode ser um El Niño muito forte, mais forte do que o que a gente tem registrado até hoje". Ele lembra, porém, que só há registros confiáveis de El Niño a partir da década de 1980, quando satélites passaram a contribuir com a coleta de dados.
A OMM, em sua atualização mais recente, afirmou que a maioria das previsões sugere que um evento El Niño poderá ser ao menos moderado e, possivelmente, forte.
QUANDO COMEÇA O EL NIÑO?
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, há probabilidade de 80% de que um El Niño se forme entre junho e agosto. No último boletim da OMM, que utilizou dados de meados de maio, consta que as anomalias de temperaturas estavam aumentando no Pacífico equatorial, o que indica um "padrão contínuo de aquecimento que pode favorecer o desenvolvimento do El Niño".
QUANTO TEMPO DURA O EL NIÑO?
O El Niño costuma durar entre 9 e 12 meses, segundo a OMM. Em geral, começa no final do inverno do hemisfério Sul e atinge o pico entre novembro e janeiro. O fenômeno começa a desaparecer a partir do primeiro mês do ano.
QUAIS PODEM SER OS EFEITOS DO EL NIÑO NO BRASIL?
No Brasil, o Norte e o Nordeste devem ficar mais secos e quentes, principalmente durante o verão, que coincide com o ápice do El Niño.
Isso contrasta com o Sul, que passa a receber chuvas mais concentradas e com maior volume. Isso gera problemas como inundações e enxurradas, em especial, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo Aquino.
No Sudeste e no Centro-Oeste, as temperaturas se elevam e as ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e intensas.
QUAL A DIFERENÇA ENTRE EL NIÑO E LA NIÑA?
Se El Niño é o aquecimento das águas do Pacífico somado ao enfraquecimento dos ventos alísios, La Niña se constitui com resfriamento das águas e ventos alísios mais intensos, compara Cataldi.
Os efeitos de La Niña no Brasil também são inversos ao do El Niño, com mais chuva na porção norte do país, em detrimento do sul. O inverno se torna mais frio e o verão, mais ameno.
COMO FOI O EL NIÑO DE 1877?
De 1877 a 1878, um El Niño é associado a morte de lavouras e de peixes, fome e prejuízo. No livro "Late Victorian Holocaust", o autor Mike Davis estima entre 16,1 milhões e 31,3 milhões de mortes de pessoas entre 1876 e 1879 no Brasil, na Índia e na China em razão da fome.
No Brasil, esse El Niño também é lembrado como responsável pela grande seca no Nordeste, que durou até 1879 e que resultou na migração em massa da população sertaneja.
Estatísticas indicam que a seca no Nordeste resultou na morte de entre 200 mil e 500 mil pessoas, segundo artigo publicado na Springer Nature. O número de mortes no Brasil por fome durante o período citado por Davis varia entre 500 mil e 1 milhão de pessoas.
Entretanto, Cataldi ressalta que não é possível comprovar se o que aconteceu naqueles anos foi resultado do El Niño ou de outros fenômenos. "A gente não tinha boia, não tinha medições do oceano e não tinha satélite. Então, é uma interferência."
Aquino acrescenta que comparações do El Niño de 1877 com recentes tendem a ser inviáveis, já que outros fatores também influenciam no impacto dos El Niño.
QUANDO FOI O ÚLTIMO EL NIÑO E QUAIS FORAM SEUS EFEITOS NO BRASIL?
O último El Niño no país ocorreu entre 2023 e 2024, período em que o Rio Grande do Sul foi devastado com a ocorrência de fortes chuvas que contribuíram para enchentes históricas. Já no Amazonas, entre outubro e novembro de 2023, houve a maior estiagem da história, quando o rio Negro chegou a atingir 12,7 metros, o menor nível em mais de um século.
QUAIS OS SETORES GERALMENTE MAIS AFETADOS PELO EL NIÑO?
Os setores mais afetados pelo El Niño costumam ser agricultura, energia e abastecimento de água. Se a chuva não vier nos meses de maior pluviosidade, agricultores precisarão aumentar a irrigação e retirar mais água do lençol freático, o que pode trazer problemas ambientais.
Sem as chuvas, podem surgir também problemas de fornecimento de água e energia. Por isso, na visão de Cataldi, é necessário estocar e limitar o consumo de água mesmo quando os níveis dos reservatórios estão confortáveis. "A gente precisa começar a trabalhar com projeção e tentar já trabalhar com economia de água."
COMO AS CIDADES PODEM SE PREPARAR PARA O EL NIÑO?
A professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, avalia que, no Sudeste e Centro-Oeste, onde há ondas de calor, as cidades precisam do que chama de oásis urbanos.
A proposta dela é espalhar pela cidade, principalmente em áreas ligadas à mobilidade e à coletividade, espaços que possam resfriar a cidade, com sombra, árvores, local de descanso e pontos de hidratação.
Isso também é importante em locais que sofrem com a seca durante o El Niño, já que a combinação entre fonte de água e vegetação torna o ar mais úmido e as temperaturas mais baixas.
Já no Sul, com as chuvas, é importante que a cidade tenha um plano de comportas e bombas em funcionamento. Além disso, em menor escala, é possível trabalhar com cidades-esponjas para aumentar a absorção da água pela cidade.
Márcio Cataldi destaca que a Defesa Civil também deve se preparar para os desastres que costumam ocorrer durante o El Niño.
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