Galileu
A Colossal Biosciences, empresa de biotecnologia e engenharia genética, anunciou nesta semana a devolução à Nova Zelândia de um raro ovo de moa, ave não voadora extinta há séculos. Descoberto em 1966, o exemplar passou cerca de 60 anos em uma coleção particular nos Estados Unidos antes de ser adquirido pela corporação em um leilão realizado no Colorado, em junho.
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De volta ao seu país de origem, a peça será confiada ao professor Te Maire Tau, historiador maori na Universidade de Canterbury e líder tribal, como parte de uma iniciativa que busca unir pesquisa científica, conservação e valorização do patrimônio indígena. Com aproximadamente 22,2 cm de altura e 17,1 cm de diâmetro, o ovo está parcialmente reconstruído, mas ainda possui centenas de fragmentos desencaixados.
Restauração sob orientação indígena
A devolução do ovo pretende garantir que um objeto de importância científica e cultural permaneça sob os cuidados do povo associado à sua história. A Colossal afirma ainda que a liderança indígena orienta seu programa de pesquisa sobre as moas e que os resultados obtidos devem retornar à Nova Zelândia, em parceria com o Centro de Pesquisa Ngāi Tahu e o Museu de Canterbury.
Peter Jackson, diretor da trilogia O Senhor dos Anéis, participa da iniciativa em colaboração com essas instituições. Segundo ele, a restauração deverá elevar o exemplar à categoria de um dos ovos mais bem preservados já identificados: “Provavelmente será apenas o nono ovo de moa quase intacto conhecido”, afirma o cineasta em comunicado reverberado pela Gizmodo.
A diretora científica da Colossal, Beth Shapiro, também destacou o valor científico dos exemplares. “Cada um contém informações que não podemos obter em nenhum outro lugar — às vezes, até mesmo seu DNA”, indica à IFLScience. A decisão sobre a realização de exames e a retirada de amostras deverá ser tomada em conjunto com os pesquisadores Ngāi Tahu, respeitando o conjunto de tradições, princípios e práticas culturais maoris.
Segredos mantidos no interior do ovo
Além de sua importância cultural, o exemplar poderá contribuir para a compreensão da biologia das moas. Fragmentos de cascas encontrados em diferentes locais já permitiram que pesquisadores recuperassem DNA antigo, material genético preservado em restos de organismos que viveram há muito tempo.
Esse tipo de análise pode ajudar a identificar a qual espécie pertencia um ovo, diferenciar linhagens de moas e investigar características relacionadas à reprodução e à construção dos ninhos. No caso do exemplar recém-adquirido, a espécie de origem ainda não foi confirmada.
Dentre as possibilidades consideradas, estão exames de imagem que permitam observar a estrutura interna sem danificar a peça, análises genéticas e estudos isotópicos. Esses últimos investigam variações de elementos químicos presentes em um material e podem fornecer pistas sobre sua origem geográfica.
Nenhuma dessas análises, porém, está automaticamente autorizada. Conforme a Colossal, as próximas etapas dependerão de decisões tomadas em coordenação com os pesquisadores e representantes indígenas da Nova Zelândia.
A própria restauração física também exigirá cuidados. Centenas de fragmentos ainda precisam ser recolocados, e o objetivo é preservar o material e recuperar o máximo possível de informações sem comprometer sua integridade.
Moas desapareceram após a chegada dos humanos
As moas eram aves nativas da Nova Zelândia que não conseguiam voar. O grupo reunia espécies de tamanhos variados, desde animais comparáveis a perus até exemplares gigantes que podiam atingir cerca de 3,6 m de altura com o pescoço estendido e pesar aproximadamente 230 kg.
Essas aves desempenhavam um papel importante nos ecossistemas locais, influenciando a vegetação das florestas e das áreas de campos naturais. Sua extinção é geralmente associada à chegada dos seres humanos às ilhas, por volta do século 13, e à pressão exercida pela caça e por outras mudanças provocadas pela ocupação humana.
No passado, estima-se que até 2,5 milhões de moas tenham habitado as ilhas neozelandesas antes da chegada dos caçadores polinésios. Atualmente, são conhecidos menos de 40 ovos suficientemente preservados para integrar coleções, o que ajuda a explicar a relevância do retorno do novo exemplar.
A legislação neozelandesa estabelecida em 1975 passou a proteger contra a exportação os ovos de moa encontrados no país. Alguns exemplares, entretanto, já haviam deixado a Nova Zelândia antes da entrada em vigor da medida, como ocorreu com o ovo agora adquirido pela Colossal.
Projeto de "desextinção"
A devolução do ovo também está ligada ao interesse da Colossal em desenvolver tecnologias associadas à chamada "desextinção". O termo descreve iniciativas científicas que buscam recuperar características genéticas de espécies desaparecidas, recorrendo a informações do DNA antigo e, em determinadas abordagens, a espécies vivas aparentadas.
Em 2025, a empresa anunciou que incluiria a moa em sua lista de projetos, ao lado de animais como o mamute, o dodô, o tilacino e o lobo-terrível. A proposta envolve identificar características genéticas relevantes das espécies extintas e investigar como elas poderiam ser reproduzidas com o auxílio de parentes vivos.
Tal abordagem não significa necessariamente recriar exatamente a espécie original. O desenvolvimento de animais com características semelhantes às de espécies extintas envolve obstáculos científicos, como a recuperação de informações genéticas suficientes e a reprodução de aspectos da biologia e do desenvolvimento dos animais.
No caso das moas, a reprodução representa um desafio adicional. Isso porque seria necessário desenvolver um sistema capaz de produzir e incubar ovos grandes o suficiente para o desenvolvimento de aves com essas dimensões.
A empresa afirma trabalhar em tecnologias relacionadas a esse objetivo, mas o retorno do ovo, por si só, não representa a recuperação da espécie. Por enquanto, o principal resultado esperado é ampliar o conhecimento sobre essas aves e preservar um artefato de significado cultural para a Nova Zelândia.
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