Equipe relata ameaças ao gravar documentário sobre desaparecidos na Amazônia

Publicado em 11/09/2026, às 13h45
Tatunca Nara em depoimento no documentário Morte e Mistério na Amazônia - Divulgação / HBO Max

Adrielly Souza / Folhapress

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A Amazônia costuma exigir tempo de quem quer atravessá-la. Mas, em uma das noites mais tensas das gravações de "Morte e Mistério na Amazônia", a equipe da nova série documental da HBO Max descobriu que também era preciso saber quando partir.

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No fim de uma entrevista em Barcelos, no Alto Rio Negro, os integrantes da produção começaram a receber avisos de que precisavam deixar o local imediatamente. Não havia espaço para esperar o amanhecer.

Pouco antes, os diretores Tatiana Issa e Guto Barra haviam confrontado Tatunca Nara, personagem central de uma história marcada por expedições, desaparecimentos e pela promessa de uma cidade perdida escondida na floresta.

A conversa havia sido longa e difícil. Agora, segundo os realizadores, a equipe estava sendo ameaçada. "Começamos a ser avisados que precisávamos sair dali naquele minuto. Não era daqui a pouco, não era daqui a uma hora", conta Tatiana em entrevista à Folha de S.Paulo.

A equipe correu para o barco e deixou a cidade ainda durante a madrugada. "Fomos realmente ameaçados por pessoas locais. Tivemos que sair correndo de madrugada, às pressas, para não sofrer alguma consequência, algum atentado que pudesse acontecer", afirma a diretora. "Foi realmente uma loucura, um perigo, uma grande aventura."

O episódio se tornou um dos bastidores mais tensos de "Morte e Mistério na Amazônia", nova produção da dupla responsável por "Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez".

A série parte da história de Akakor, uma suposta civilização perdida que ganhou fama entre aventureiros estrangeiros nas décadas de 1970 e 1980. A promessa de encontrar uma cidade escondida na floresta levou diferentes pessoas à Amazônia --algumas delas jamais voltaram.

No centro dessa história está Tatunca Nara, guia de expedições que durante décadas alimentou relatos sobre a região e acabou ligado a uma sucessão de desaparecimentos. Para os diretores, porém, o interesse pela história não estava em repetir a fantasia.

Tatiana afirma que a dupla queria investigar justamente aquilo que havia permanecido encoberto por décadas. "Sempre que alguém tentava fazer uma reportagem sobre essa história, era por um viés fantástico, que de certa forma acabava dando credibilidade para essa possível existência de uma cidade perdida."

A intenção da série, segundo ela, foi seguir por outro caminho. "Queríamos fazer a maior investigação já feita sobre isso para entender o que tem aqui de verdade e mentira."
Guto Barra conheceu a história há cerca de oito anos, quando Tatiana lhe apresentou o caso.

Mesmo sem conseguirem transformar a ideia imediatamente em uma produção, o diretor diz que nunca conseguiu se livrar da trama. "É uma história tão fantástica e cheia de reviravoltas que ficou na minha cabeça", afirma.

A investigação, no entanto, exigiu que a equipe enfrentasse uma pergunta delicada: como entrevistar alguém apontado como possível responsável por crimes e confrontá-lo sem transformar a série em mais uma plataforma para suas versões?

Segundo Tatiana, a resposta foi chegar à entrevista apenas quando a investigação já estivesse avançada. "Já estávamos com a série bem amarrada, com a maior parte das entrevistas gravadas, e achamos que aquele era o momento de buscar pontos específicos."

A conversa com Tatunca aconteceu em Barcelos e, segundo a diretora, foi construída para pressioná-lo sobre contradições acumuladas ao longo dos anos. "Era necessário peitar, questionar, provocar, querer tirar dele contradições", diz. "As mentiras que ele criava são muito fantasiosas e levaram muitas vítimas."

FLORESTA COMO PERSONAGEM

Antes mesmo de aparecer qualquer pista sobre Akakor, a Amazônia já ajuda a contar a história. "Ela sempre foi esse lugar misterioso que atrai pessoas. Ao mesmo tempo que existe medo, existe uma atração por tudo aquilo que pode estar escondido ali", afirma Tatiana.

A produção fez questão de filmar nos locais ligados à história e refazer parte das expedições. Foram dias navegando pelo Rio Negro, dormindo em redes e transportando equipamentos pesados por regiões de difícil acesso.

"Foi uma jornada, muitas horas dormindo em rede, subindo o Rio Negro, indo a lugares muito difíceis de acessar com câmeras, equipamentos de luz e tudo mais", conta a diretora.

Em alguns momentos, a equipe encontrou cenários inesperados no meio da floresta e decidiu incorporá-los às dramatizações. Uma igreja abandonada, por exemplo, foi usada em uma das sequências que aborda a suposta ligação de Tatunca com militares.

O esforço era fazer com que o público não apenas conhecesse a história, mas tivesse uma noção da experiência enfrentada pelos aventureiros décadas antes. "Foi uma espécie de expedição. A gente viveu um pouco daquilo, só que com câmeras e equipamentos", afirma Tatiana.

Outro desafio foi encontrar a melhor maneira de organizar uma história que se espalha por décadas, diferentes países e várias famílias. A solução foi não seguir uma linha cronológica tradicional.

"Era uma história muito complexa e cheia de detalhes. A melhor forma de contar não era necessariamente cronológica", diz Guto.

O diretor afirma que a escolha também ajuda a preservar a dimensão humana da história. "Você consegue entender a loucura disso e, principalmente, a dor das famílias."

Uma delas passou nove anos sem saber o paradeiro de um parente e sem ter conhecimento de que poderia haver uma pessoa ligada a outros desaparecimentos.

A produção tenta evitar que o mistério transforme as vítimas em personagens secundários de uma grande lenda. "A ideia é buscar algum tipo de reparação, mesmo que seja pela lembrança e pelo não esquecimento", afirma a equipe.

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