Espalhadas pelo ar, partículas de isopor se acumulam em ruas e piscinas de região de Fortaleza

Publicado em 22/08/2026, às 10h05
- Divulgação/Folha de São Paulo

Gabriel Damasceno/Folhapress

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Uma região da cidade de Fortaleza, no Ceará, passou a conviver com partículas de isopor que se espalham pelo ar. Os fragmentos de EPS (partículas de poliestireno expandido) invadem apartamentos, piscinas e meio-fio de ruas próximas à avenida Beira-Mar. Moradores do entorno da avenida dizem que o problema se tornou mais evidente há cinco meses. Segundo eles, a suspeita é que as bolinhas de isopor sejam provenientes de obras de condomínios de alto padrão na área.

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Entre os citados, está o edifício Domo. Em nota, a Reata Arquitetura & Engenharia, que assina a obra, diz que orientou a STO Brasil, responsável pelo revestimento da fachada com placas de EPS, "a reforçar as medidas de contenção, limpeza e monitoramento". A STO Brasil confirmou a dispersão do material e atribui o problema a falhas no processo de execução.

Entre os moradores que se queixam do problema está Tommaso Giarrizzo, professor do Labomar/UFC (Instituto de Ciências Marinhas da Universidade Federal do Ceará) e coordenador do projeto Detetives do Plástico. O bairro Meireles, segundo ele, é um dos mais atingidos.

Giarrizzo apelidou a situação de "nevasca de isopor". Ele diz que passou a observar camadas do material acumuladas nos meios-fios das calçadas e próximas a bueiros, especialmente após chuvas.

"Dentro de casa, a gente limpa tudo e, mesmo assim, fica cheio de isopor. A casa fica suja o tempo todo. O prédio está terrível, a piscina, abarrotada de bolinhas", afirma a personal trainer Gabriela Capdeville, 32.

Para ela, a principal preocupação no dia a dia é com seus pets. "Sempre tem plástico na água das minhas cachorras. Uma delas comeu o isopor, vomitou bastante e tive que dar medicação."

Na construção civil, as placas costumam ser usadas para substituir materiais mais pesados, como o tijolo de barro, o que torna a estrutura do prédio mais leve e reduz o consumo de cimento e aço, segundo Lucas Rozzoline, mestre em desenvolvimento sustentável e ex-presidente do CAU-CE (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará). O descarte, no entanto, precisa ser feito com cuidado.

A situação observada na região da avenida Beira-Mar é um sinal de alerta, diz Giarrizzo. "O que vejo como mais preocupante é a toxicidade dos aditivos químicos, que são poluentes orgânicos persistentes [POPs] altamente tóxicos. Não somente para o oceano, mas também para a gente."

Em nota, a Seuma (Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente) afirma que as obras do edifício Domo cumpriram todas as etapas previstas no processo de licenciamento e que obtiveram a devida autorização para a construção.

A Agefis (Agência de Fiscalização de Fortaleza), órgão da prefeitura responsável pela fiscalização de obras e construções, diz que realizou no último dia 12 uma vistoria no Domo.

A fiscalização constatou que a obra não tinha no local a licença de execução, as cópias dos projetos licenciados e a placa indicativa, em desacordo com o Código da Cidade de Fortaleza (Lei Complementar nº 270/2019). Por se tratar de infração leve, a construtora recebeu advertência para regularização.

Sobre a dispersão do EPS, o órgão afirma que a vistoria não identificou elementos objetivos que permitissem mensurar a quantidade de material disperso ou estabelecer responsabilidade pela presença do isopor em outros pontos da região.

A agência diz que segue acompanhando a situação e pode adotar novas medidas administrativas caso identifique outras irregularidades de sua competência.

Denúncias de problemas podem ser feitas pelo telefone 156, pelo portal Denúncia Agefis e pelo aplicativo Fiscalize Fortaleza, disponível para Android e iOS.

Procurada, a STO Brasil atribui o problema a falhas no processo de execução. Segundo a empresa, o projeto previa, desde o início, medidas para evitar a geração de resíduos durante o corte e o nivelamento das placas, como o uso de ferramentas elétricas com sistema de sucção e o envelopamento da torre com tela de fechamento.

A STO afirma que essas medidas não foram adotadas de forma integral e que reforçou com suas equipes a obrigatoriedade das práticas. As correções, diz ela, já foram implementadas na obra.

A empresa afirma ainda lamentar os transtornos causados à vizinhança e que seguirá acompanhando a obra até a normalização completa do processo.

Em nota, a Reata reconhece a emissão do plástico no ar e afirma que adota práticas de contenção dos resíduos, como o isolamento da fachada com telas de proteção. Mas, segundo a construtora, a altura do edifício, de 44 andares, as características do sistema construtivo e a intensidade dos ventos na região dificultam o processo.

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