Estado de São Paulo é responsabilizado por morte de alagoano executado por PMs

Publicado em 01/09/2025, às 10h53
- Reprodução

Pedro Acioli*

A Justiça de São Paulo responsabilizou o estado de São Paulo pela morte do alagoano Jeferson de Souza, que vivia em situação de rua, executado durante uma abordagem policial, em junho deste ano. A decisão 11ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, assinada no último dia 29 de agosto, é considerada inédita e determina que o estado providencie ou arque com o translado do corpo para o município de Craíbas, no Agreste de Alagoas. 

LEIA TAMBÉM

A juíza Renata Yuri Tukahara Koga aplicou na decisão o artigo 37, §6º, da Constituição Federal, que prevê a responsabilidade objetiva da administração pública na modalidade de risco administrativo.

Segundo a juíza, não houve nada que pudesse tirar a responsabilidade do estado e, por isso, na decisão, ela diz que não seria importante analisar se a ação policial foi proposital ou por descuido, é necessário apenas avaliar o dano causado, já que não ocorreu uma fatalidade, ou culpa apenas da vítima. 

Os policiais militares alegaram que o jovem teria tentado tomar a arma de um dos agentes, justificando os disparos. No entanto, os vídeos mostram que a vítima estava desarmada, acuada e chorando, com as mãos para trás, quando foi morta com tiros na cabeça, no tórax e no braço. Dois PMs estão presos pelo crime.

Custo do translado 

Quase três meses depois, a família de Jeferson ainda espera o translado do corpo, avaliado em cerca de R$15 mil. No momento, o corpo segue no Instituto Médico Legal (IML) paulista. Após a decisão, pela primeira vez, o estado será responsável pela operação de levar o corpo até Alagoas. 

A juíza utilizou como base o artigo 948 do Código Civil, que fala sobre a reparação com despesas de funeral e luto. Com isso, entendeu que poderia ser incluído o custeio do transado. 

Agora, a defensora pública Fernanda Balera, autora da ação, terá 30 dias para complementar a petição inicial, com o pedido de indenização. O estado ainda poderá apresentar contestação.

Quem era Jeferson 

O jovem havia deixado para trás a cidade de Craíbas, no Agreste alagoano, com o desejo de procurar a felicidade na capital paulista. Órfão após a morte da mãe, vítima de câncer, e o assassinato do pai, Jeferson se manteve firme em tentar algo melhor. 

A vontade dele era de jogar futebol profissionalmente, mas antes de tentar impressionar olheiros em campeonatos de várzea, ele teve que buscar trabalho. Foi aí que uma oportunidade apareceu e ele foi contratado por um dono de pizzaria. Depois, um novo desafio, no mesmo ramo alimentício, e a luta continuava para poder se sustentar. 

Segundo a irmã dele, Micaele de Souza, diante das dificuldades, e também por estar abalado psicologicamente devido à saudade de familiares, Jeferson não resistiu ao consumo das drogas e se entregou ao vício, que o levou às ruas de São Paulo.

"Creio que ele não teve o psicológico suficiente para aguentar tanta coisa acontecendo".

O caso

Imagens de câmeras corporais revelaram que o alagoano Jeferson de Souza, que vivia em situação de rua, foi executado durante uma abordagem policial em São Paulo. O crime aconteceu no dia 13 de junho, sob o Viaduto 25 de Março, e expôs a ação violenta praticada pelos dois policiais militares da Força Tática.

Jeferson chegou a ser levado para trás de uma pilastra, onde permaneceu sentado, enquanto era interrogado. Em determinado momento, o soldado encobriu a lente da câmera corporal, e segundos depois Jeferson aparece morto. A cena desmente totalmente a versão apresentada pelos policiais. Confira o vídeo: 

Desde julho, os dois agentes estão presos no Presídio Militar Romão Gomes e respondem por homicídio doloso, falsidade ideológica e obstrução de Justiça. Para o Ministério Público, o crime foi cometido com “motivo torpe” e em “absoluto desprezo pelo ser humano e pela condição da vítima, pessoa em situação de vulnerabilidade social”.

*Com informações do G1

 

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Fachin supende sessão do STF que analisaria relatório sobre Mendonça Gilmar critica exposição de Gonet no caso Master por Mendonça Fachin suspende sessão no STF com ministros rachados e sem decidir sobre análise de casos Moraes e Mendonça Kassio Nunes e Dias Tofolli se declaram impedidos em julgamento sobre Moraes; entenda