Famílias de vítimas do voo da Chape vão à Justiça na Bolívia, Colômbia e EUA

Publicado em 28/11/2018, às 17h29
Zanone Fraissat / Folhapress -

Alex Sabino e Luiz Cosenzo / Folhapress

Dois anos após a queda do avião que levava a Chapecoense a Medellín, na Colômbia, que matou 71 pessoas, clube e familiares das vítimas não chegaram a um consenso sobre quem seriam os responsáveis por pagar as indenizações. Para os familiares, o próprio clube tem culpa, o que os dirigentes discordam.

LEIA TAMBÉM

Para evitar o risco de prescrição dos pedidos de indenização, Luiz Fernando Pereira e Fernando Vernalha Guimarães, advogados da família do técnico Caio Júnior, um dos mortos, entraram com pedido na Vara Cível de Curitiba para que fosse interrompido o prazo processual e que todas as partes fossem citadas. Entre elas, a Conmebol, que também afirma não ter responsabilidade pelo acidente.

Em 28 de novembro de 2016, o voo 2933 da LaMia caiu nos arredores de Medellín. Este levava a Chapeconse, dirigentes e jornalistas para a final da Copa Sul-Americana daquele ano, contra o Atlético Nacional. Após o acidente, a equipe brasileira foi nomeada campeã.

Nas últimas semanas, a reportagem conversou com advogados envolvidos nos processos, familiares das vítimas e dirigentes da Chapecoense. Eles não têm opinião unânime sobre os caminhos a serem seguidos.

Há processos com pedidos de indenização no Brasil, Bolívia, Colômbia e Estados Unidos. Neste último, a ação foi aberta pelo escritório Podhurst Orseck, com sede em Miami, especializado em acidentes aéreos. A maioria das famílias deu procuração para os advogados americanos entrarem com processos porque o contrato do voo foi feito na Flórida pelos sócios da LaMia com residência no país. Há outro documento redigido no país: o do abastecimento da aeronave. O fator principal para a queda foi uma pane seca. A bateria da asa, de fabricação nos EUA, também não funcionou.

A Podhurst Orseck prometeu investigar aspectos do acidente que ainda não estão esclarecidos para familiares, como se alguém pressionou a Chapecoense para a contratação da LaMia para o transporte da delegação e que papel teve a Conmebol na transação. Segundo advogados ouvidos pela reportagem, nos EUA é mais provável conseguir a indenização e de forma mais rápida. O escritório ainda busca avaliar o valor que poderia ser pago aos familiares das vítimas e como obtê-lo.

A Chapecoense não quis fazer parte deste processo. "Não foi discutida essa questão", respondeu Tullo Cavalazzi, um dos advogados do clube.

Para a Chapecoense, o principal caminho é processo contra a LaMia, os órgãos bolivianos de controle aéreo e a Biza Seguros e Resseguros, companhia responsável pela apólice que deveria cobrir o voo.

O processo contra as partes bolivianas do acidente, se é esperança do clube, causa descrença nos advogados de familiares.

Como forma de tentar resolver a questão dos processos cíveis contra a Chapecoense, os dirigentes afirmam que em caso de vitória na Justiça, 40% do dinheiro arrecadado será dividido entre as famílias.

O consenso entre os representantes legais envolvidos no caso é que se trata de uma promessa vazia. A LaMia não tem bens registrados e o governo boliviano, mesmo se perder, não vai fazer o pagamento.

"Consultamos vários escritórios de advogados na Bolívia e todos disseram a mesma coisa", afirma Fernando Guimarães.

"De fato, a gente acha que a LaMia tem dificuldades, embora ela tenha de responder civil e criminalmente e seja importante essa condenação. A partir do momento em que ela é responsabilizada seus sócios poderão ser também. Aí talvez poderemos encontrar patrimônios desses sócios", defende Cavalazzi.

Há o plano de um processo também na Colômbia (onde o prazo de prescrição é maior) contra as autoridades aeronáuticas do país, que teriam a obrigação de não permitir o voo por causa da apólice de seguros, "que tinha manifestas incompatibilidades com as operações realizadas pela LaMia", segundo texto de protesto judicial aberto por famílias das vítimas, ao qual a reportagem teve acesso.

A Chapecoense também promete dar às famílias 40% do que for arrecadado, em caso de vitória na Colômbia. Este processo é considerado mais viável porque há seguro vigente que cobriria os custos da indenização.

A equipe catarinense faz as promessas para tentar frear as ações trabalhistas e cíveis que recebeu por causa do acidente. São 54 no total. Foram feitos apenas oito acordos.

A proposta padrão apresentada pela Chapecoense foi de R$ 1,2 milhão, paga em parcelas mensais de R$ 10 mil.

"Estamos conversando porque entendemos que não somos culpados. Temos que trazer a LaMia, o governo da Bolívia e o da Colômbia para o processo. Eles autorizaram o voo naquela tragédia", se queixa Cesair Bartolomei, vice-presidente jurídico da Chapecoense.

Em agosto deste ano, em reunião em Chapecó, ficou definido que os acordos em andamentos seriam suspensos até que a situação da Chapecoense no Brasileiro fosse definida.

A uma rodada do fim do torneio, a equipe está em 16º, apenas uma posição à frente da zona de rebaixamento.

"Se ficarmos na Série A, podemos conversar de novo com as famílias que se propõem a aceitar a nossa proposta. Se cairmos, não temos como pagar", afirma Bartolomei.

Com a ajuda da Chapecoense, foi criada também a Fundação Vidas, para tentar arrecadar recursos com empresas e doações para os parentes das vítimas. Mas o clube não pretender dar nenhum dinheiro para a organização, presidida por Fabienne Belle, viúva do fisiologista Cezinha.

Ela também é responsável pela AFAV-C (Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense), uma das duas organizações que reúnem famílias dos mortos. A outra é a Abravic (Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense). Como a fundação precisava de algum bem para ser criada, o clube cedeu uma sala comercial em Chapecó.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Jô tem prisão mantida pela Justiça após audiência de custódia Palmeiras rescinde contrato de promessa da base, que assina com o Ceará Polícia apura denúncia de estupro de criança de 4 anos em sede do Palmeiras CBF demite Cintra e coloca Sandro Meira Ricci no comando da arbitragem