Revista Crescer
Aos 17 anos, idade em que a maioria dos jovens ainda está terminando o ensino médio, a gaúcha Stella Zorzo, de Caxias do Sul (RS), já é formada em Biomedicina, projetando-se como a mais jovem do país a concluir a graduação na área, cursa o 3º ano de Medicina e tem uma pós em Neurociência em andamento, com médias acima de 90 nas duas faculdades. Mas, antes de todos esses feitos, houve uma menina que só sabia que era "diferente", sem entender por quê. A história dela começa, como tantas, dentro da sala de aula.
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"Quando eu tinha uns 9, 10 anos, eu ia muito bem em todas as provas, e isso começou a chamar a atenção da minha família. Eu não estudava todos os dias, estudava pouco e, mesmo assim, ia muito bem. O que chamou mais atenção foi quando teve uma prova em que a turma inteira foi mal e eu gabaritei", relembra.
Na época, a escola atribuiu o desempenho a uma simples "facilidade", e a desconfiança ficou em suspenso. Veio a pandemia, e o assunto esfriou de vez. Até que, no 8º ano, um sintoma começou a gritar mais alto: o tédio.
O diagnóstico que explicou tudo
"No oitavo ano, eu tinha muita facilidade, mas comecei a ficar muito entediada com as aulas, porque o conteúdo era muito repetitivo e eu já sabia tudo. Foi aí que a minha mãe perguntou se eu não tinha alguma coisa", conta Stella. A escola encaminhou a menina a uma neuropsicóloga para investigar o amplo espectro da neurodivergência. O resultado trouxe a peça que faltava no quebra-cabeça. "Fiz os testes e tive o laudo de alto QI e também de altas habilidades, os dois. A partir disso, a escola, junto com a minha família e comigo, pensou no avanço de ano", explica.
Antes do diagnóstico, aos 12 anos, esse "ser diferente" cobrava um preço alto. "Até os 12 anos, para mim, eu era estranha. Depois eu fui descobrir que tinha superdotação. Eu sofri bastante bullying, porque tinha muitas coisas que eu pensava diferente, falava diferente, e o pessoal não entendia. Eu também não", relata. Longe dos clichês de filme, a superdotação, para ela, convivia com a solidão de não encontrar pares.
Cinco séries em menos de um ano
Com o laudo em mãos, veio a decisão que mudaria sua trajetória: o avanço de ano, ou "pulo de ano". E não foi um salto tímido. "Foram oitavo, nono, primeiro, segundo e terceiro, todos em um ano. Entre agosto de 2022 e o finalzinho de 2023. Tirando as férias, foram uns oito, nove meses no total, e eu fiz muitas provas", resume.
O volume de avaliações era colossal: ela prestava todas as provas de um ano inteiro e, se passasse, pulava para o próximo, até chegar ao vestibular e ao ENEM.
O mais curioso é que esse caminho não existia como regra na escola, e acabou sendo desenhado a partir do caso dela. "Na época, ainda não existia um protocolo, então, ele acabou sendo criado a partir do meu caso. Hoje, outros estudantes superdotados usam, mas foi ajustado com o tempo", conta.
Ela faz questão de explicar por que, no seu caso, atividades extracurriculares não bastavam. "O pular de ano é mais uma questão de você já saber o conteúdo do que de ter facilidade. Eu já sabia o conteúdo do nono ano, por exemplo. Para mim, era a única possibilidade, porque, além do tédio, eu também sofria bullying."
Entrar na faculdade aos 14 anos, cercada de colegas adultos, exigiu jogo de cintura, mas correu melhor do que a própria escola. "Eu tinha 12, 13 anos no oitavo e pulei para o segundo, então meus colegas tinham 17. No começo, foi um pouco complicado pela diferença de idade, mas eu sabia me comunicar bem. Com 14 anos eu já entrei na faculdade, e meus amigos tinham 22, 23, 26 anos", diz. O "susto" dos novos colegas ao descobrir sua idade virou rotina, mas nunca barreira.
Os dois tipos de tédio
Para entender a mente de uma pessoa superdotada, Stella oferece uma distinção que ela mesma formulou. "Eu descreveria dois tipos de tédio. O de hoje é positivo: não tenho muito o que fazer, então vou ler um livro, inventar alguma coisa, fazer uma receita. O da escola era negativo: eu já sabia tudo o que estava ali e tinha que aguentar, rever tudo de novo", explica.
Para ilustrar a angústia da repetição, ela recorre a uma metáfora certeira. "É a mesma sensação de ter que ver um filme que você já viu várias vezes, quando você queria um filme novo. Para o superdotado, o principal é ter desafio, uma coisa diferente que desafie a mente."
Esse tédio positivo, aliás, já rendeu invenções. Entre um livro difícil em outra língua e um poema antigo para interpretar, ela conta, naturalmente, que certa vez construiu "um robozinho para limpar a mesa" só porque estava entediada.
Biomedicina, Medicina e um currículo de dar inveja
A busca incessante por desafio explica por que, formada em Biomedicina, Stella não parou. "Eu sempre achei que medicina e biomedicina se complementam. A biomedicina vai complementar a medicina, o conhecimento fica mais abrangente, e eu sempre busco desafio. É algo que eu vou conseguir trabalhar no futuro, principalmente em pesquisa", afirma.
Já no meio acadêmico, ela teve um trabalho aprovado no XIV Congresso de Pesquisa e Extensão da FSG. "Eu apresentei um trabalho sobre o triptofano e a sua influência na ansiedade e na depressão. É o metabolismo do intestino e como ele influencia nessas condições", detalha.
O repertório vai muito além das salas de aula. Aprovada na Mensa, a organização internacional para pessoas de alto QI, Stella é fluente em múltiplos idiomas, toca piano, violino e flauta e já foi medalhista regional em badminton, ginástica olímpica e vôlei.
Soma medalhas na OBMEP e, na última semana, uma boa pontuação na primeira etapa da OMED, a Olimpíada Nacional de Medicina 2026, cuja segunda fase acontece em São Paulo, em 28 de novembro.
Agora, prepara a documentação para submeter a trajetória ao RankBrasil e ao Guinness Book. Engajada em causas sociais desde os 10 anos, ela atuou no auxílio às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul em 2025 e integrou debates sobre proteção às mulheres e combate ao bullying no Senado Federal e na Assembleia gaúcha.
O futuro: entender o "porquê" das pessoa
Apesar do currículo que impressiona, Stella recusa qualquer rótulo de superioridade. "Eu não me considero melhor do que ninguém, porque, para mim, são só histórias diferentes e gostos diferentes. Além de ser superdotado, tem que gostar também. Todas as pessoas têm as suas próprias habilidades e as suas próprias histórias", pondera. É essa curiosidade pelo outro que aponta seu norte profissional: a saúde mental, somada às políticas públicas.
"Com certeza, vou seguir para a saúde mental, porque gosto da pesquisa nessa área, mas também gosto de políticas públicas. Às vezes, a gente pensa em atender no consultório, e a gente precisa de muito médico no consultório, mas e se eu criasse um protocolo? Será que eu não estaria ajudando várias pessoas ao mesmo tempo?", reflete.
Por trás disso, há uma menina que sempre quis entender o funcionamento das pessoas. "Sempre fui muito observadora. Em vez de pensar só na atitude final, eu penso no que levou a pessoa a fazer aquilo. No caso da ansiedade, por exemplo, não penso só no diagnóstico, mas no que levou aquela pessoa a ter ansiedade. É isso que me interessa na saúde mental: entender o porquê das coisas."
O recado para as mães: a superdotação não é óbvia
Para as famílias que, como a dela, podem demorar a perceber os sinais, Stella deixa um conselho baseado na própria experiência. "A superdotação não é óbvia. Não é só 'meu filho é bom em matemática, logo é superdotado'. Ela pode ser para o esporte, para a leitura, para a arte. A minha dica é prestar atenção nas pequenas diferenças e fazer o teste, porque ele não é o diagnóstico de uma doença, é o diagnóstico de uma condição. E quanto mais cedo descobrir, melhor", orienta.
Ela reforça a importância de abandonar os estereótipos. "Superdotado não é aquele nerd que não sabe o que está fazendo, como nos filmes. É uma pessoa que tem muita facilidade em uma ou em várias áreas e que, muitas vezes, acaba ficando escondida."
Nada disso teria sido possível, segundo ela, sem o alicerce em casa. A mãe, que precisou confiar para deixar a filha de 13 anos avançar rumo à faculdade, é descrita com carinho. "A minha mãe é maravilhosa. Ela sempre me acompanhou na minha trajetória, é aquela pessoa que fica na plateia com o lencinho chorando. Ela tinha os medos normais de mãe, mas confiava em mim de verdade, porque sabia que eu tinha maturidade e capacidade para enfrentar os desafios", diz.
Uma confiança, aliás, que foi até documentada. "Antes de eu pular de ano, foi exigido um comprovante de maturidade, porque eu tinha 13 anos. Fiz com uma psicóloga, e a minha mãe soube que eu já tinha a maturidade de uma pessoa de quase 20 anos."
Sem dúvidas, o maior feito dessa jovem prodígio talvez não esteja nos diplomas precoces, mas na certeza de para onde quer levar tudo isso: cuidar da mente das pessoas e entender, sempre, o porquê delas.
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