Mortes de policiais civis e prisão de agente: veja o que se sabe sobre o caso que chocou Alagoas

Publicado em 21/05/2026, às 07h15
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João Victor Souza

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As mortes de dois policiais civis dentro de um veículo em Delmiro Gouveia chocaram todo o estado de Alagoas nessa quarta-feira (20). Yago Gomes Pereira, 33, e Denivaldo Jardel Lira Moraes, 47, foram baleados na cabeça pelo colega de farda Gildate Góes Moraes Sobrinho, 61, preso momentos depois na residência da companheira na cidade sertaneja. O caso está sob investigação.

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Abaixo, veja o que se sabe até o momento:

VERSÃO DO POLICIAL PRESO

Em depoimento logo depois da detenção, Gildate Góes disse que ele e os outros dois policiais estavam em serviço no município de Piranhas e depois pararam em um estabelecimento para consumir bebidas alcoolicas após convite de Yago Gomes. Os três teriam pedido seis rodadas de um chopp artesanal com alto teor de álcool. Depois, os colegas decidiram retornar para Delmiro Gouveia.

Gildate Góes alegou que não estava em condições de assumir o volante e pediu para Yago Gomes dirigir o veículo. O policial disse que sentou no banco traseiro, atrás do banco do carona, e os colegas ficaram na parte da frente. Depois, ele contou que não se recorda do momento em que efetuou disparos contra os dois, apenas disse que tem a lembrança de ter andado a pé por ruas da cidade de Delmiro até chegar a Igreja Matriz, onde conseguiu se situar e ir ao endereço onde passaria a noite.

SAÍDA DE CENA E PRISÃO

Gildate Góes admitiu em depoimento que desembarcou do carro onde as duas mortes aconteceram e seguiu a pé até a casa da companheira, no bairro Palmeirão, onde dormiria. Ele foi capturado durante a madrugada, enquanto estava deitado em um dos quartos da residência.

Na ocasião, o policial civil foi perguntado sobre a arma da corporação e apresentou aparente estado de embriaguez, com dificuldades para se expressar de forma clara, estando ainda com um tênis e uma meia na mão, sendo que o calçado apresentava marcas semelhantes a sangue. Ele repetia que não sabia o que estava acontecendo e, ao ser questionado sobre as vítimas, afirmou não ter conhecimento dos fatos.

Gildate Góes declarou que, como de costume, colocou a arma, uma pistola calibre .40, por cima de um guarda-roupa. Em seguida, ele disse ter sido surpreendido pela ação da Polícia Militar, que entrou no imóvel e lhe deu voz de prisão. 

PRISÃO CONVERTIDA EM PREVENTIVA PELA JUSTIÇA

O policial teve a prisão em flagrante convertida em preventiva pela Justiça ainda nessa quarta-feira (20). A decisão trouxe que a imposição de medidas cautelares seria “insuficiente”. Também foi determinado que o autuado permanecesse detido em uma cela separada dos demais detentos, por ser agente de segurança pública.

Além disso, o juiz também determinou que sejam cumpridas diligências como realização do exame toxicológico nas vítimas e no suspeito; perícia no celular do autuado; levantamento e análise de imagens de câmeras de vigilância da região; oitiva de testemunhas que possam ter presenciado os fatos; e uma investigação no estabelecimento comercial onde as bebidas foram consumidas pelos agentes de segurança.

EXAMES TOXICOLÓGICOS

Gildate Góes foi encaminhado para a capital alagoana, onde passou por exame cautelar na sede do Instituo de Médico Legal (IML). Foram coletadas amostras biológicas de urina e sangue do policial para exames toxicológicos. O resultado deve ser divulgado no prazo de 10 dias.

Também foram coletadas amostras biológicas de Yago Gomes e Denivaldo Jardel. Os corpos já foram liberados para sepultamento.

QUEM ERAM AS VÍTIMAS

As vítimas foram identificadas como Yago Gomes Pereira, de 33 anos, natural de Aracaju, em Sergipe, e Denivaldo Jardel Lira Moraes, de 47 anos, nascido em Pernambuco. Os dois agentes atuavam na 1ª Delegacia Regional de Delmiro Gouveia.

Segundo a polícia, o relacionamento do trio não tinha desavenças e era bom. Inclusive, Denivaldo era considerado um 'amigo irmão' de Gildate.

VÍTIMA APROVADA EM CONCURSO PARA DELEGADO

Yago Gomes havia passado na primeira fase de um concurso para delegado em Brasília (DF), e iria realizar a segunda etapa do certame, para tentar assumir o cargo.

Nascido em Aracaju, o policial deixou uma filha, que vai completar cinco anos de idade no final deste mês de maio, sem a presença do pai.

TIO DE VÍTIMA DENUNCIA EXECUÇÃO 

O delegado da Polícia Civil de Sergipe, Luciano Cardoso, tio de Yago Gomes, afirmou que houve execução por parte do também policial Gildate Góes. Para ele, a versão de que o colega de farda do sobrinho atirou durante um suposto surto não condiz com as evidências.

"Chamo atenção das autoridades de Alagoas, a Polícia Judiciária, o Ministério Público de Alagoas, para que tomem providências urgentes. Eu acabei de ver que o Yago Gomes foi assassinado. Ele foi executado com um tiro na têmpora, fatal. É assim que os assassinos matam, é assim que as pessoas que têm a coragem e a decisão de suicídio fazem. O tiro foi encostado. Se foi surto, porque ele não deu o tiro na cabeça dele?" questionou.

"O tiro da têmpora é aquele tiro de misericórdia. Os assassinos fazem, os executores fazem, pessoas quando querem se suicidar fazem, ou seja, na têmpora é fatal, não tem volta, a chance é zero [de sobrevivência]", explicou Luciano Cardoso após visualizar o corpo do sobrinho.

Ainda na entrevista à TV Pajuçara, o delegado sergipano contou que esses não seriam os primeiros crimes de Gildate. "A informação que eu tenho é que ele já matou um colega há anos atrás, executou um preso dentro da viatura e que recentemente matou um cachorro. Será que a Corregedoria da Polícia Civil de Alagoas não tinha conhecimento desses fatos, porque que estava na ativa se era louco? Pelo que vi aqui, ele assassinou um policial [Denivaldo Jardel Lira Moraes] e Yago não concordando com a situação, ele foi lá e matou Yago para não ter testemunhas", enfatizou o tio de Yago Gomes.

POLÍCIA REBATE ACUSAÇÃO DE TIO

Durante coletiva de imprensa, a Polícia Civil de Alagoas rebateu as acusações do delegado de Sergipe, de que Gildate teria cometido “outras execuções”, incluindo casos envolvendo um preso e um animal. De acordo com o delegado Sidney Tenório, integrante da comissão composta para investigar o caso, foi feito um levantamento, juntamente à corregedoria, e o policial civil preso responde a quatro procedimentos administrativos durante todo histórico, de mais de 30 anos atrás. Tenório reforçou que nenhum desses procedimentos tem relação com homicídio ou crimes violentos contra animais.

Existem casos, inclusive, uma falta de trabalho. Teve uma situação mais grave que é uma agressão física, mas a terceiros, assim como outras questões também que são simples. Todos foram arquivados pela corregedoria. Foi feito um amplo levantamento em um sistema policial mais antigo e não foram encontrados procedimentos da Polícia Civil contra ele, assim como no novo sistema e também não consta nada no esaj [plataforma do Poder Judiciário]. Essas informações foram veiculadas, mas nas nossas pesquisas não encontramos nada, nem judicialmente, nem administrativamente”, declarou.

Agora a comissão de delegados quer saber o motivo do crime e afirma que a alegação de um possível "surto" do policial, conforme foi cogitada inicialmente, não é oficial.

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