Nide Lins
Pela primeira vez, vou indicar um lugar onde a culinária não é a estrela, mas onde a gente come felicidade, e de monte. É assim no O Salão (@omacumba), o bar cultural da Ilha do Ferro. Ali, o cardápio principal é feito de encontros. Tem forró, cerveja gelada, uma cachacinha, conversa boa e aquela alegria que parece morar na beira do Rio São Francisco. O Salão já foi cenário de festas que entraram para a história da Ilha, como os 80 anos de Carmen Dantas, além dos aniversários de tanta gente que escolhe esse cantinho para celebrar um novo ciclo.
Quem comanda tudo é André Dantas, o famoso Macumba. Alagoano, ele morou um tempo em Nova York, mas preferiu trocar a chamada capital do mundo para viver e construir sua própria história no seu mundo: a Ilha do Ferro, às margens do Velho Chico. E talvez aí esteja a maior beleza do Salão: ele é o cantinho da comunidade. Os ribeirinhos são os donos da casa; nós, turistas, somos os convidados. Chegamos para dançar forró, beber uma cerveja, tomar uma pinga, conversar e simplesmente viver a Ilha.
Tem arte por todo canto. Basta olhar ao redor para encontrar trabalhos de Roxinha, Zé Crente, Aberaldo , e tantos outros talento da cultura popular. Também o acervo das viagens do próprio André. O Salão é bar, ponto de encontro e uma pequena galeria da criatividade que brota naquele pedaço tão especial de Alagoas.
Outra curiosidade: no Salão não tem garçom. André é quem comanda o balcão. Quer uma cerveja? Pede, paga, pega e pronto. Sem cerimônia. Depois é só voltar para o forró e continuar vivendo a Ilha do Ferro, esse grande ateliê a céu aberto do artesanato brasileiro.
Agora, o próprio Salão tem motivo para festejar: são cinco anos de história, comemorados como manda a tradição da casa — com três dias de festa. Porque no Salão a gente entende uma coisa: nem toda felicidade precisa chegar à mesa em forma de comida. Às vezes, ela vem em forma de música, arte, encontro, cerveja gelada e um forró na beira do São Francisco.
Novidades da Ilha do Ferro: tem muito sabor chegando por lá
Antes ou depois de saborear a felicidade no Salão, vale conhecer os novos endereços que estão movimentando a Ilha do Ferro. Entre arte, artesanato e a beleza do Rio São Francisco, a Ilha também está ganhando novos sabores. E eu fui conferir alguns deles.
Mais que Massa: Ana Nery agitou a Ilha
O restaurante Mais que Massa (@maisquemassailhadoferro) da chef Ana Nery deu uma agitada saborosa na Ilha do Ferro. Mas fique ligado: o almoço é somente com reserva. Amei o pappardelle de carneiro, com a carne bem temperada e cheia de sabor. Mas a grata surpresa veio do prato vegano: arroz de abóbora preparado no caldo de legumes.
E sobremesa? O Pudim Sertanejo de Ana Nery me conquistou. É uma verdadeira obra de arte: pudim de queijo coalho com calda artesanal de rapadura, crocante de castanha-de-caju e, para finalizar, um detalhe cheio de memória afetiva, o vidro feito com o tradicional pirulito da feira de Pão de Açúcar.
A história de Ana também combina com a Ilha. Alagoana, ela morou na Espanha, onde estudou Gastronomia, e sempre trabalhou na cozinha. Até que, durante uma visita à Ilha do Ferro, aconteceu aquele encantamento que muita gente conhece: resolveu ficar. Mudou-se para a comunidade e decidiu empreender por lá. Para nossa felicidade. Telefone: 82 98785-8285
Encarnado: arte, sabores e uma varanda para o Velho Chico
O Encarnado (@encarnadoilha), do arquiteto Lúcio Moura, reúne arte, galeria e gastronomia em um mesmo endereço. E ainda guarda um presente: uma varanda linda de frente para o Rio São Francisco. Por lá, provei os sorvetes artesanais e me apaixonei pelo de umbu. É daqueles lugares onde a gente pede alguma coisa para comer, mas acaba também alimentando os olhos com a paisagem e a arte. Telefone: 82 98231-2624
Estabelê: cinema, artesanato e carne louca
O Estabelê (@estabele.ilhadoferro) é uma casa cheia de charme, com cartazes do cinema brasileiro e artesanato espalhados pelos ambientes. Um daqueles lugares em que dá vontade de olhar cada cantinho. Tem um chá-mate delicioso, mas meu destaque vai para a baguetinha de carne louca: carne cozida, cortada finamente e marinada em azeite e vinagre, com cebola, cebolinha e temperos aromáticos. O sanduíche é servido frio e ainda leva tomate confit e coalhada seca. Uma combinação daquelas! A casa também serve café da manhã, mas é preciso fazer reserva. Telefone- 82 98103-4131
Café da Ilha: café, bolo e artesanato na mesma mesa
Nos finais de semana, tem mais um motivo para aproveitar a Ilha sem pressa. No Café da Ilha (@cafedailhadoferro), o programa pode ser simples e delicioso: bolinho de cenoura com chocolate e café.E até a louça conta uma história. As peças são da artesã Camila, que também é dona da cafeteria. É a cara da Ilha do Ferro: por ali, até a xícara aproxima a gente de quem faz a arte do lugar. Telefone- (79)99642-9882
A Trilha da Cachoeira, idealizada pelos artistas plásticos Maria Amélia, Dalton e Joana. Atualmente são 2 quilômetros em meio à Caatinga preservada, com obras dos artesãos do povoado da Ilha do Ferro, Mata da Onça e Riacho Grande, além de obras próprios artistas Maria Amélia e Dalton. É a primeira trilha de arte de Alagoas. Para fazer a trilha com guia da comunidade é R$ 30,00. Moradores da comunidade e povoados vizinhos não pagam para fazer a trilha. Reserva pelo 82 99999-8743 @casasilhadoferro
No fim das contas, visitar a Ilha do Ferro é muito mais do que cumprir um roteiro. É entrar, mesmo que por algumas horas, no mundo de quem vive às margens do Velho Chico. Tem arte para olhar, histórias para ouvir, sabores para provar e felicidade para comer de monte.
E talvez seja por isso que a gente chega à Ilha para conhecer, e vai embora já pensando em quando voltar para dançar um forrozinho no Salão.
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