Diego Felix e Júlia Moura / Folhapress
Investigações da PF (Polícia Federal) concluíram que o BRB (Banco de Brasília) transferiu cerca de R$ 17 bilhões ao Banco Master no âmbito da compra de carteiras de crédito, segundo documentos do caso tornados públicos pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na última semana. Porém, a maior parte desses repasses, cerca de R$ 12,2 bilhões, eram títulos falsos, ou seja, sem valor.
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Segundo a PF, a fraude se dava pela venda de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) falsas, derivadas de créditos consignados inexistentes gerados pela Tirreno, empresa de fachada criada em dezembro de 2024, e controlada pela Cartos (Sociedade de Crédito Direto).
"O exame pelo Banco Central, dos títulos de crédito emitidos pelo Banco Master, oriundas dos consignados da Cartos mostraram inconsistências grotescas", diz petição endereçada ao ministro André Mendonça (STF) em fevereiro.
Conversas extraídas pela PF dos celulares do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor de finanças, Dário Oswaldo Garcia Junior, feitas ao longo de novembro de 2024, mostram que uma carteira Credcesta chegou ao BRB com valor contábil de R$ 179,6 milhões. Desse montante, apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos para compra.
Os investigadores afirmam que havia clara intenção de Paulo Henrique Costa em salvar o Master. A documentação recebida do banco de Vorcaro já indicava manipulação, ausência de lastro adequado e movimentação atípica de créditos entre fundos de investimento.
"Além dos chats, os documentos apreendidos estampam a completa displicência da diretoria do BRB em insistir na compra de ativos, consoante anotações de diretoria, o presidente ordenava a compra mesmo com pareceres jurídicos contrários desde o mês de abril/2025", diz a PF no relatório.
Nas conversas entre o ex-presidente do BRB e o então diretor de finanças, Paulo Henrique Costa demonstra dúvidas sobre a forma como o Master operava suas carteiras, principalmente as que circulavam entre fundos de investimento.
"Não entendo quando dizem que não há carteira e aparece uma nova", escreveu Costa em 26 de novembro de 2024. "Nem eu", respondeu Garcia.
Três dias após essa troca de mensagens, Dario Garcia diz a Paulo Henrique Costa que o Master submeteria, para assinatura imediata, um contrato de cessão de R$ 400 milhões em créditos, com liquidação prevista para a sexta-feira seguinte --exatamente uma semana depois.
De acordo com a PF, a operação foi concluída em ritmo atípico e incompatível com os procedimentos de análise padrão em bancos, o que evidencia uma "pressão indevida e aceleração deliberada do processo".
As investigações mostram que os primeiros contratos relativos a essa operação foram enviados pelo Master ao BRB, assinados pela equipe do banco público, e depois cancelados pelo próprio Master, que enviou novas versões alteradas no mesmo dia.
Próximo do horário de fechamento do sistema bancário, que acontece às 17h30, a equipe do BRB assinou três contratos sucessivos em um intervalo de poucos minutos, sem análise técnica, segundo a PF.
"A insistência para que o pagamento fosse priorizado e concluído no mesmo dia, apesar da ausência de documentação consistente, confirma que a operação tinha finalidade contábil imediata e não fundamento econômico legítimo", diz a Polícia Federal.
As investigações apontam que a liquidação das operações de compra de ativos era feita sempre de forma acelerada, com baixa preocupação com os riscos envolvidos e, muitas vezes, dedicadas a flexibilizar os limites de governança do BRB.
Um desses exemplos de flexibilização envolvia a ampliação dos limites de inadimplência das carteiras de 4% para 5% --ajudando a viabilizar a entrada de ativos que já chegavam com problemas. Em outros casos, os diretores encontravam formas de aprovar operações sem realizar o circuito de aprovação padrão, fatiando contratos com a liberação em tranches.
Em fevereiro de 2025, o BRB assinou um TAC (termo de ajustamento de conduta) com o Banco Central após a identificação de falhas concretas na atuação do banco estatal. Auditorias da autoridade monetária apontavam falhas na avaliação de créditos comprados do Credcesta pelo BRB, falhas no envio de documentos, dados e informações ao BC e a necessidade de uma contratação de auditoria independente para acompanhar as operações.
Porém, mesmo após a assinatura do TAC, o BRB continuou com a aquisição desses créditos, comprando mais R$ 4 bilhões. Isso mostra, segundo a PF, que a diretoria do BRB tinha conhecimento e responsabilidade sobre as compras de créditos falsos mesmo após apontamento do Banco Central.
De acordo com os documentos, em maio de 2025, o banco regional seguiu "com apetite elevado" pelos ativos do Master, comprando novas carteiras e empenhando mais recursos no banco de Vorcaro, que até então já havia vendido R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios.
"O BRB admite ter comprado carteiras sobre as quais era impossível fazer auditoria por falta de documentos, com transferência de R$ 12,2 bilhões", diz a PF.
O documento enviado ao ministro André Mendonça reproduz anotações manuscritas de uma reunião da diretoria do BRB, feita em 11 de julho de 2025, na qual o presidente do banco teria afirmado que era necessário efetivar as compras de carteiras de crédito, mesmo com pareceres jurídicos contrários de abril daquele ano.
Em nota divulgada na noite de sábado (12), o BRB diz que a publicidade da investigação "é uma oportunidade para todos conhecerem o que aconteceu com a instituição, vítima de atos criminosos, e as medidas adotadas pela nova gestão".
O banco estatal também afirma que removeu integralmente a diretoria executiva que comandava a instituição à época dos negócios com o Master.
"O BRB, por meio de sua atual gestão, reforça que os ex-dirigentes não devem ser confundidos com a instituição", diz o banco.
"O Banco seguirá adotando todas as medidas cabíveis para a proteção de seu patrimônio, o ressarcimento de eventuais prejuízos e o aprimoramento contínuo de sua estrutura de governança e controles", completa.
MOVIMENTAÇÕES NO MASTER
Da parte do Master, a Polícia Federal atribuiu a Augusto Lima a elaboração de carteiras fraudulentas repassadas pelo Master ao BRB. Mensagens extraídas do celular de Lima apontam sua participação direta nas negociações entre Master e BRB.
O empresário é conhecido como o criador do Credcesta, um cartão de benefício consignado, com desconto das parcelas do empréstimo na folha de pagamento. Lançado para servidores públicos da Bahia em 2018, foi disseminado pelo Master, chegando a 24 estados e 176 municípios.
Lima foi preso em novembro dentro da Operação Compliance Zero, com Vorcaro e outros executivos das instituições por suspeita de envolvimento nas fraudes de carteiras. Solto 11 dias depois, passou a usar tornozeleira eletrônica.
Segundo a petição da PF, a partir de janeiro de 2025, as carteiras passaram a ser elaboradas pelo próprio Augusto Lima. As investigações se baseiam na troca de mensagens entre Lima e Henrique Peretto, controlador e dono da Tirreno, e entre Lima e Daniel Vorcaro, que recorria pessoalmente ao diretor para conseguir recursos no BRB.
As mensagens mostram que Vorcaro cobrava contratos e CCBs imediatamente, reclamava da equipe quando os documentos atrasavam, e chegava a comemorar quando conseguia fechar prazos apertados junto ao banco público.
Em maio de 2025, as conversas entre Vorcaro e Augusto Lima mostram a organização em tempo real do envio de contratos da Tirreno e assinaturas das CCBs para não perder a janela de liquidação do dia. Esse cenário ilustra exatamente o que aconteceu na assinatura do contrato de R$ 400 milhões realizado seis meses antes.
Para sustentar essas operações junto à fiscalização, o Master criou lastros documentais a partir de extratos e documentos que comprovassem a existência de créditos já vendidos ao BRB.
Em uma conversa do grupo intitulado "INFO-BRB", criado em maio e restrito a Vorcaro, o tesoureiro do Master Alberto Félix, e o diretor Ângelo Ribeiro, o ex-banqueiro pede que o saldo de um extrato da Tirreno seja alterado. O valor saiu de R$ 6,4 milhões para R$ 7,2 milhões e depois para um terceiro valor sem correspondência com os anteriores.
A justificava usada era a de que faltava incluir a remuneração equivalente ao CDB do banco. Segundo a PF, os funcionários do Master tinham conhecimento de que os créditos eram inexistentes, a ponto de reconhecerem entre si a dificuldade de averbá-los junto aos órgãos pagadores.
Em nota à Folha, Lima rechaçou o conteúdo da petição. Disse que as informações e insinuações mencionadas reproduzem alegações formuladas no início da investigação e que, passados dez meses de apuração, não se sustentam diante dos elementos já reunidos.
Lima nega proximidade com o BRB e a negociação de carteiras. Segundo a defesa do empresário, a Polícia Federal já afastou, em relatório, a alegação envolvendo as associações ao caso.
Além disso, ele diz ter deixado a sociedade e direção do Master em maio de 2024, 1 ano e meio após a primeira fase da Operação Compliance Zero.
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