Reinaldo José Lopes / Folhapress
Cientistas usaram um termômetro molecular para estimar a temperatura corporal de dois exemplares de Tyrannosaurus rex. Os números que eles obtiveram sugerem que o superpredador da Era dos Dinossauros tinha "sangue quente", como as aves e os mamíferos de hoje.
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Pelos cálculos da equipe, a temperatura corporal média dos carnívoros de 12 metros de comprimento era de 36,3°C (com margem de erro de 2,5 graus para mais ou para menos). É um valor equivalente ao de mamíferos de grande porte atuais, como os elefantes, e também se assemelha, é claro, à temperatura normal da nossa espécie.
Os resultados estão em artigo na revista especializada Science Advances. O trabalho foi coordenado por Randon Flores e Robert Eagle, ambos da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
Flores, Eagle e seus colaboradores trabalharam com três dentes de T. rex (dois deles de um mesmo indivíduo) encontrados numa das mais importantes jazidas fossilíferas dos EUA, a formação Hell Creek, em Montana.
Também de Montana, de uma camada geológica similar, vieram cinco dentes de crocodilianos -ou seja, parentes dos atuais jacarés e crocodilos. Esses animais podiam servir como uma baliza interessante porque, apesar de também serem répteis de grande porte, como os dinossauros, todas as formas atuais do grupo têm "sangue frio", ou seja, seu organismo não regula de forma ativa a temperatura corporal.
Por um lado, é claro que os números obtidos pelos pesquisadores da Califórnia não são a única pista que temos sobre esse aspecto da biologia dos dinos. Diversos outros aspectos desses animais já apontavam para a presença de algum tipo de manutenção constante da temperatura, a começar pelo fato de que as aves atuais, que são homeotérmicas (de "sangue quente"), correspondem ao único ramo sobrevivente dos dinossauros carnívoros. Trata-se do mesmo grande grupo ao qual pertencia o T. rex.
Além disso, análises sobre a estrutura celular e o padrão de crescimento de diversos dinossauros (algo que é possível fazer mesmo dispondo apenas dos ossos deles) sugerem que os bichos chegavam com relativa rapidez ao tamanho adulto e contavam com um metabolismo acelerado, coisas que são típicas das espécies de sangue quente.
Por fim, embora eles vivessem num planeta que costumava ser alguns graus mais quente que a Terra de hoje, muitos grupos desses animais ocupavam regiões polares, como o Alasca e a Antártida, que já eram bastante frios antes de 65 milhões de anos atrás, incluindo invernos muito longos e escuros e a presença de neve.
O único senão nesse raciocínio é o próprio tamanho descomunal de muitos dinossauros, entre os quais saurópodes (herbívoros quadrúpedes, de pescoço e cauda extremamente longos) que foram os maiores animais terrestres de todos os tempos. Bichos desse tamanho teriam, em tese, dificuldade para dissipar seu calor corporal e evitar o superaquecimento do organismo. Cogita-se, nesses casos, que tais dinos teriam uma espécie de calor "inercial" do corpo, pelo simples tamanho, sem precisar gerenciar ativamente a temperatura interna do organismo.
A análise dos dentes dos T. rex de Montana não resolve diretamente essas dúvidas, mas aponta para um calor do corpo que é compatível com o de grandes animais de hoje. Para chegar a essa conclusão, a equipe se valeu de um método desenvolvido pelo próprio Robert Eagle, que leva em conta a presença de ligações entre variantes de dois elementos químicos, o carbono e o oxigênio.
Ambos são essenciais para a composição das moléculas que, por sua vez, perfazem o organismo dos seres vivos. O detalhe é que existem versões -isótopos- mais leves ou mais pesadas de ambos (e dos demais elementos químicos). As formas mais pesadas que a equipe estudou, o oxigênio-18 e o carbono-13, tendem a andar juntas, formando ligações químicas.
E existe uma correlação direta entre a proporção dessas conexões entre elas e a temperatura corporal do organismo do ser vivo onde se encontram. Grosso modo, quanto mais alta essa temperatura, menor a proporção de isótopos pesados juntos. Em espécies atuais, é possível construir uma correlação bastante precisa entre temperatura corporal e presença do "casal" oxigênio-18/carbono-13. Bastou, portanto, aplicar essa mesma lógica à composição química dos fósseis.
Depois de usar métodos que permitiram concluir que essa composição correspondia mais ou menos ao que estava presente nos dentes dos animais vivos, os pesquisadores conseguiram estimar a temperatura corporal dos T. rex dentro da faixa de 36,3°C. O mais significativo é que as temperaturas verificadas para os crocodilianos eram mais variáveis e com média mais baixa (30,9°C) -o que, de novo, é o esperado considerando o metabolismo dos parentes mais próximos ainda vivos de ambos os bichos.
Com base nesses dados, os pesquisadores estimam que o superpredador teria sido capaz de colonizar praticamente todos os ambientes da América do Norte, inclusive o Alasca, já que conseguiria se manter aquecido em condições polares.
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