A transformação do universo de um jovem autista
de 23 anos ao se tornar microempreendedor
06 de MAIO DE 2026
Netinho e seu planeta particular que virou negócio (Foto: TNH1)
Muitos empreendem por necessidade, outros por oportunidade, mas Leila Tenório diz que empreendeu por amor. Este, aliás, é o nome do grupo do qual ela faz parte junto com outras mães atípicas da capital alagoana.
Na terceira e última reportagem da série "Empreendedores no Espectro", você conhece a história de Dilson Tenório Neto, o "Netinho", filho de Leila, que há um ano viu no empreendedorismo o melhor caminho para dar mais autonomia e sociabilidade ao filho. Nascia assim o Planeta Netinho, um pequeno negócio responsável por criar renda e inclusão na vida desse jovem de 23 anos. Juntos, eles percorrem eventos, feiras de empreendedorismo e inovação, comercializando brinquedos pedagógicos.
Leila divide a vida com o filho em um apartamento simples no Conjunto José Tenório, parte alta de Maceió. È de onde eles partem para empreender em feiras e eventos. O pequeno negócio se tornou uma ideia gigante para o jovem de 23 anos, autista, nível de suporte dois, e com um quadro de depressão.
"Tudo começou após uma depressão que ele teve. Não tinha amigos, não socializava e ficava muito triste. No grupo de mães atípicas de que participo, concluímos que faltavam brinquedos em eventos e feiras. E aí eu decidi criar esse pequeno negócio para ele, e tem dado muito certo".
E o "muito certo" de Leila é fácil de perceber quando conversamos com o próprio Netinho.
"Eu vivia depressivo, sem amigos. Hoje estou muito feliz e realizado, pois vamos a feiras, eventos onde conheço gente, faço amigos. Foi algo muito importante, pois as pessoas têm preconceito conosco, autistas, e nesses lugares que vamos eu converso, explico", conta Netinho, inicialmente apreensivo, mas logo se mostrando uma pessoa bem articulada.
"Faço amigos e ainda ganho dinheiro", conclui.
Mãe, amiga e "estagiária"
O talento empreendedor de Netinho é comentado por todos, diante de sua facilidade em atrair clientela.
Não por acaso é chamado de "chefe" por outros jovens empreendedores nas feiras e eventos, por conta de seu talento para comandar os negócios.
"Eu chamo ela [a mãe] de estagiária. E todos me chamam de chefe, poderoso chefinho, pois onde chego eu faço amizades e organizo as coisas", conta ele, sorridente.
Assim como para os demais entrevistados nesta série, para Netinho o mercado de trabalho tradicional se mantém de portas fechadas, ainda mais para ele, que tem nível de suporte 2 de autismo, quando é necessária ajuda substancial e há desafios maiores na comunicação e interação social. Leila conhece bem os talentos do filho e o preconceito do mercado de trabalho.
"Ele [Netinho] tem questões muito pessoais que exigem paciência. Teve um dia em que nos organizamos para ir a um evento, mas ele acordou e disse que não queria participar, que naquele dia queria ficar em casa. São comportamentos que as empresas não entendem, não aceitam. Há muito preconceito e falta de compreensão. Já vi casos de autistas em que a pessoa tinha uma crise e ninguém na empresa tomava uma providência", conta Leila.
Ela conta que alguns médicos resumiam Netinho a um caso de retardo mental. "Mas eu percebia que ele tinha talentos, tinha coisas em que ele era muito inteligente para ser apenas isso. A ideia de empreender foi justamente para que ele se encaixasse, se sentisse produtivo, ganhasse autonomia. E funcionou, pois ele é cheio de amigos, muitos clientes viraram amigos, e ele sabe fazer a propaganda do negócio melhor que eu", brinca Leila.
"Empreender não é terapia, mas é terapêutico", enfatiza a mãe de Netinho.
Canal de YouTube - A criatividade de Netinho não fica só no empreendedorismo. Há cinco anos eles têm um canal no YouTube, onde são publicadas animações feitas por ele mesmo e dubladas por amigos.
"Gosto muito de internet. Tem um livro que quero escrever, que é em HQ, com personagens jovens, adolescentes. E no canal eu faço muitos vídeos, geralmente um por semana", comemora. O canal tem mais de mil seguidores e pode ser conhecido aqui.
"Empreender não é terapia, mas é terapêutico"
Leila Tenório
Leila viu no empreendedorismo um caminho para o filho sair de uma depressão e se sentir mais produtivo.
Netinho em evento na Rua Fechada, na orla de Maceió, trabalhando com o que gosta e se divertindo.
Em cada feira ou evento, uma oportunidade para fazer negócios e claro, novos amigos.
O autismo entrou na pauta do dia porém ainda é rara a produção científica a respeito da inserção de pessoas com TEA nas organizações brasileiras. Daí a importância do trabalho da pesquisadora Clarice Carvalho, com quem o TNH1 conversou com exclusividade.
O livro "Empreendedores no espectro - um estudo sobre o empreendedorismo da pessoa com Transtorno do Espectro do Autista", disponibilizado para download gratuito nesta reportagem, traz um estudo recente, sensível e aprofundado sobre o tema. Clarice, que é autista, assina a obra com a professora Andressa Schaurich.
"Durante anos, fui uma profissional de alta produtividade, mas enfrentava dificuldades de saúde que eu não compreendia. O diagnóstico de TEA veio de forma tardia. Ao me descobrir como uma mulher neurodivergente, percebi que havia pouca informação sobre empreendedores no espectro e como eles geriam seus negócios. Usei meu hiperfoco e minha formação em gestão e engenharia para transformar essa busca em uma pesquisa científica, criando um guia para que outras pessoas neurodivergentes compreendam suas possibilidades no mercado".
Por meio de entrevistas com 27 empreendedores autistas, o estudo investiga motivações, desafios, estratégias e potenciais individuais que caracterizam o percurso desses sujeitos no mundo dos negócios.
"Como não existe uma base de dados oficial, busquei esses empreendedores em redes sociais. Consegui reunir 27 pessoas de diversos setores. A pesquisa foi feita de forma online, por formulários ou conversas por escrito, respeitando a preferência de comunicação de cada um. Perguntei sobre as motivações para abrir um negócio, como utilizam o hiperfoco no trabalho, quais são as barreiras sensoriais enfrentadas e quais métodos práticos criaram para gerir suas empresas", explica Clarice Carvalho.
A obra parte da constatação de que o mercado de trabalho tradicional ainda impõe barreiras relevantes à inclusão de pessoas com TEA, seja por preconceito, desconhecimento ou ausência de adaptações adequadas.
"O ambiente empresarial ainda é focado em cumprir cotas de contratação. Falta compreensão sobre as adaptações de ambiente e de comunicação que permitiriam que profissionais neurodivergentes entregassem seu potencial máximo. Atualmente, o mercado perde talentos qualificados por manter modelos de trabalho rígidos que não consideram a diversidade cerebral", diz.
FALTAM POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ADULTOS AUTISTAS
Uma outra conclusão do estudo é a ausência de políticas públicas que possam estimular e dar suporte ao autista adulto, assim como todos os demais inseridos legalmente na parcela de Pessoas com Deficiência (PcD).
"Faltam políticas voltadas especificamente para o adulto autista. São necessárias linhas de crédito para empreendedores PCD, treinamentos de gestão que considerem a neurodivergência e incentivos para a formalização desses negócios", avalia.
"O suporte público não pode ser interrompido após a fase escolar; ele precisa incentivar a independência profissional na vida adulta".
A falta de políticas públicas adequadas para pessoas com autismo foi uma motivação para que alguns entrevistados pelas pesquisadoras começassem a empreender. Enfrentar dificuldades em empregos anteriores devido a questões relacionadas ao autismo, como sobrecarga sensorial e multitarefa, também foi um fator motivador.
"Trabalhei em um local com atendimento ao público e passei por muitas dificuldades, como, por exemplo: tenho dificuldade em realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo, passar horas em um local com muitos estímulos sensoriais, como luz, sons, entre outros", afirma uma das entrevistadas na pesquisa.
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"O autista adulto não busca apenas aceitação; ele busca o direito de gerir sua própria carreira e garantir sua independência financeira".
Clarice Carvalho
Assim como características tidas como essenciais para qualquer empreendedor, há habilidades próprias da pessoa com TEA que podem ser vantajosas na hora de empreender.
"Na pesquisa para o livro, me surpreendeu a eficiência das estratégias de adaptação. Uma das entrevistadas, por exemplo, utiliza um nome comercial diferente para fazer atendimentos e agendamentos por escrito, o que reduz o estresse da interação social direta. Isso prova que o autista pode executar tarefas comerciais desde que utilize ferramentas que respeitem seu funcionamento", observa a pesquisadora Clarice.
As estratégias são práticas, continua a pesquisadora: "priorizar o atendimento digital (escrito), utilizar roteiros claros de comunicação para vendas e estabelecer parcerias com sócios ou prestadores de serviço que executem as tarefas de maior demanda social. O uso de processos automatizados também reduz a necessidade de negociações constantes, permitindo que o empreendedor foque na parte técnica do negócio", afirma.
A psicóloga Mariana Monteiro endossa o pensamento da pesquisadora. "Todos nós temos o nosso ritmo, temos o horário que funcionamos melhor, isso para a pessoa que tem autismo é vivenciado e sentido de uma maneira mais intensa, então o ambiente autônomo também favorece esse respeito ao relógio biológico, ao melhor período de maior clareza mental, de energia que aquela pessoa possa ter, ou seja, a gente compreende que esse ambiente deixa de ser uma fonte constante de estresse, preservando melhor a saúde mental e emocional", explica.
"O empreendedorismo, quando ele é bem estruturado, vale salientar, pode promover essa segurança psicológica, permitindo que a pessoa utilize os seus talentos cognitivos de forma plena, sem ter que sacrificar sua identidade, seu bem-estar, para caber em alguns padrões que a gente sabe que é bem presente no ambiente de trabalho", afirma a especialista.
FAKE NEWS PROMETEM ATÉ FALSAS CURAS
Obras como o livro da pesquisadora Clarice Carvalho preenchem não apenas um vácuo da escassez de estudos, mas servem também para disseminar informações precisas e de cunho científico sobre o autismo. E em tempos de fake news e deep fakes isso ganha uma importância gigantesca. Informações falsas e equivocadas sobre o autistmo reforçam estigmas e preconceitos e são compartilhadas diariamente, principalmente nas redes sociais.
Um levantamento conduzido pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV), em parceria com a associação Autistas Brasil, revelou que o volume de desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista nas comunidades digitais da América Latina e do Caribe cresceu mais de 15.000% entre 2019 e 2024. O Brasil, infelizmente, aparece como líder no continente em publicações conspiratórias sobre o tema.
A pesquisa analisou mais de 60 milhões de mensagens públicas no Telegram, com a participação de cerca de 5 milhões de usuários em 19 países. Foram identificadas 150 falsas causas e 150 falsas curas relacionadas ao autismo. Entre os conteúdos mais alarmantes estão alegações infundadas que atribuem o autismo a fatores como consumo de salgadinhos industrializados, radiação 5G e vacinas, além da promoção de "curas" perigosas, como o uso de substâncias tóxicas (como dióxido de cloro), terapias com eletrochoque e ingestão de prata coloidal.
Fake news podem ser reflexo da visibilidade
A pesquisadora Clarice Carvalho classifica o dado da FGV como alarmante, mas acredita que pode ser um reflexo do fato de o tema ter entrado na ondem do dia, o que acaba gerando incômodo.
"Acredito que esse crescimento de 15.000% na desinformação, embora negativo, é também um reflexo de que nós, autistas, estamos finalmente ganhando espaços de visibilidade que antes nos eram negados. Esse protagonismo causa um incômodo em uma sociedade que, por não saber lidar com a neurodivergência, tenta 'combater esse mal' através de narrativas de cura milagrosa e desinformação", avalia.
"Nesse cenário, o livro 'Empreendedores no Espectro' surge como uma ferramenta de resistência necessária: ele retira o autista do lugar de "vítima de uma condição" e o coloca como um profissional capaz, com direitos e autonomia financeira. É o nosso papel substituir o discurso perigoso das 'seitas digitais' pela realidade concreta da nossa competência e independência".
Para incentivar a inclusão dos autistas no mercado, nada melhor do que fortalecer a divulgação. O TNH1, por meio da Gerência Comercial e Marketing do Pajuçara Sistema de Comunicação (PSCOM), vai promover, sem custos, um espaço publicitário no portal para os três empreendedores entrevistados nesta série de reportagens.
Os anúncios, no formato de publieditorial, vão ser veiculados na home do portal durante 24 horas, ficando disponíveis no acervo do site, mostrando produtos e/ou serviços com todos os contatos, endereços físicos e eletrônicos de cada um empreendedores mostrados na série: João Felipe Torreiro, Milla Pasan e Dilson Neto.
"Para o PSCOM, iniciativas como esta reforçam o nosso papel de ir além da informação, contribuindo também para a formação de uma sociedade mais consciente. Ao dar visibilidade a histórias de pessoas no espectro autista que constroem seus próprios caminhos no empreendedorismo, ampliamos o debate sobre inclusão. È uma pauta que educa, inspira e, sobretudo, ajuda a mostrar que diversidade é um valor que gera impacto real, social e econômico", afirma Klaus Silva, Gerente Comercial e Marketing do PSCOM.