Atividades práticas e hábitos simples ajudam crianças a desenvolver consumo consciente e responsabilidade em casa e na escola
Tudo começa com pequenas escolhas. Aprender a importância de uma alimentação saudável, evitar o desperdício de água, comida e energia, cuidar dos materiais escolares e compartilhar com outras pessoas aquilo que já não é mais utilizado, mas que ainda está em bom estado de conservação, são atitudes simples que ajudam a desenvolver consciência, cidadania e senso de compromisso desde cedo.
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Situações que parecem comuns à infância são, na verdade, os primeiros passos para desenvolver responsabilidade sobre o consumo em casa. E não é de hoje que a educação financeira vem ganhando espaço também dentro das escolas. Uma das estratégias é aproximar o tema da realidade dos estudantes de forma prática e acessível, especialmente durante o Ensino Fundamental.
A proposta é mostrar que aprender sobre escolhas financeiras faz parte da formação cidadã. A iniciativa deve estar pautada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No documento, que orienta a organização da Educação Básica em todo o país, a educação financeira está entre os Temas Contemporâneos Transversais. Na prática, isso significa que o assunto pode ser trabalhado em diferentes componentes curriculares e contextos, indo muito além da Matemática e estimulando reflexões sobre consumo, organização e tomada de decisões.
“Na infância, a educação financeira começa a ser desenvolvida em situações muito simples do dia a dia, como aprender a cuidar dos próprios brinquedos, fazer escolhas e até mesmo no planejamento cotidiano, como em uma lista de compras, quando possível. Ao desenvolver esse olhar desde cedo, há mais chance de a criança construir uma relação de equilíbrio com o consumo e com o planejamento”, explica Luana Baier, editora de conteúdo de Matemática da Aprende Brasil Educação.
As atividades voltadas ao Ensino Fundamental precisam ser pensadas para dialogar com a faixa etária dos estudantes. Nos anos iniciais, os conteúdos aparecem em histórias, atividades lúdicas e projetos temáticos que ajudam as crianças a diferenciar desejos e necessidades. Conforme a idade escolar avança, os estudantes passam a discutir planejamento, cooperação, organização e hábitos de consumo mais conscientes.
A aprendizagem sobre educação financeira pode ser fortalecida com a participação da família, especialmente por meio de situações vivenciadas no dia a dia. Conversas durante as compras do mês, o uso consciente dos recursos financeiros, a definição de pequenas metas ou até decisões relacionadas ao reaproveitamento de materiais ajudam crianças e adolescentes a compreender que o dinheiro está diretamente ligado a escolhas, prioridades e consequências.
Luana Baier dá alguns exemplos de atividades para aplicar os princípios da educação financeira em casa:
Saber diferenciar o que precisamos do que apenas queremos é uma das bases para uma relação equilibrada com o dinheiro. E essa distinção pode — e deve — ser ensinada desde cedo, em situações cotidianas simples.
“Quando for às compras com a criança, em vez de apenas colocar os produtos no carrinho, dê a ela uma missão. Antes de sair, façam juntos uma lista dos itens que precisam ser comprados. Então, quando ela pedir algo extra, pergunte: ‘Isso é uma necessidade? Ou isso é um desejo e queremos apenas por prazer?'”, explica a especialista. Essa é uma forma de aplicar o pilar do consumo consciente, que ensina a criança a priorizar o que é uma necessidade e entender que o recurso é finito, nesse caso, o dinheiro.

Uma das prerrogativas da educação financeira é incentivar o planejamento. Então, em vez de apenas dar dinheiro à criança, sem falar sobre destino ou objetivo, procure conversar com ela e identificar objetivos de curto prazo, como um brinquedo, um livro ou um passeio. Cole uma foto desse objetivo no pote ou no cofrinho que será usado para guardar o dinheiro. “Isso ensina a espera gratificada e o planejamento financeiro. A criança aprende que poupar é uma ferramenta para realizar escolhas futuras”, explica Luana Baier.
Luana Baier lembra que as crianças precisam exercitar a autonomia, mas com algum tipo de supervisão. “Dê autonomia para a criança em situações controladas. Diga a ela, por exemplo: ‘temos R$ 30,00 para escolher o lanche do piquenique de hoje. O que compensa mais comprar?’. E, então, deixe que ela compare sozinha preços e marcas”, aconselha.
Situações como essa trabalham a tomada de decisão e a responsabilidade. Ao errar — por exemplo, comprando algo caro que acaba rápido —, os pequenos aprendem as consequências das escolhas que fazem em um ambiente seguro, desenvolvendo autonomia crítica.
A especialista reforça, no entanto, que a educação financeira vai muito além do aprendizado relacionado ao dinheiro. Esse é um tema que envolve o desenvolvimento de hábitos, valores e competências que contribuem para escolhas mais conscientes e responsáveis ao longo da vida. Com crianças de até dez anos, isso pode ser trabalhado por meio de experiências simples e significativas, como o reaproveitamento de alimentos em receitas – utilizando cascas de frutas para preparar geleias, bolos e outras receitas.
Com crianças e adolescentes de dez a 14 anos, é possível ampliar essa discussão por meio da construção de composteiras, da criação de hortas em casa ou nas comunidades, da análise de rótulos de produtos e da reflexão sobre temas que relacionam saúde, consumo e sustentabilidade, por exemplo.
Essa perspectiva está alinhada ao conceito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A educação financeira é o processo pelo qual indivíduos e sociedades desenvolvem conhecimentos, valores e competências que lhes permitem compreender oportunidades e riscos, tomar decisões informadas, buscar orientação quando necessário e adotar práticas que contribuam para seu bem-estar e para a construção de uma sociedade mais responsável e comprometida com o futuro. Dessa forma, ela não se limita à gestão de recursos monetários, mas abrange também o consumo consciente, o uso responsável dos recursos naturais, a valorização da saúde e o desenvolvimento da cidadania.
Por Caroline Giotti dos Anjos