Alemanha cria mecanismo de busca para saber se ancestrais eram nazistas

Publicado em 15/04/2026, às 23h52
Christian Rainer, da Áustria, disse à BBC que encontrou o nome de seu avô, Franz Rainer (1886-1961), "em poucos segundos" - Christian Rainer/BBC News Brasil
Christian Rainer, da Áustria, disse à BBC que encontrou o nome de seu avô, Franz Rainer (1886-1961), "em poucos segundos" - Christian Rainer/BBC News Brasil

Por Terra

Um novo mecanismo de busca online na Alemanha permite que indivíduos descubram se seus antepassados foram membros do Partido Nazista, revelando informações sobre a filiação de milhões de pessoas entre 1925 e 1945, o que pode impactar a percepção familiar sobre o passado. Christian Rainer, por exemplo, encontrou rapidamente o nome de seu avô como membro do partido, o que trouxe à tona questões sobre a história familiar e a responsabilidade individual.

Cerca de 10,2 milhões de alemães se tornaram membros do Partido Nazista, e as fichas de filiação, que quase foram destruídas no final da Segunda Guerra Mundial, foram salvas e posteriormente transferidas para arquivos na Alemanha e nos Estados Unidos. A disponibilização dessas informações online, que antes exigia pedidos formais, democratiza o acesso e permite que mais pessoas investiguem suas raízes familiares.

Desde seu lançamento em abril, a ferramenta foi amplamente acessada e compartilhada, com muitos usuários relatando descobertas impactantes sobre seus antepassados. O jornal Die Zeit, responsável pela criação do mecanismo, destacou a resposta avassaladora do público, refletindo um crescente interesse em entender a história familiar em um contexto mais amplo de responsabilidade histórica.

Resumo gerado por IA

Um novo mecanismo de busca online alemão está ajudando as pessoas a descobrir se seus antepassados foram membros do Partido Nazista, organização de direita radical que governou a Alemanha sob Adolf Hitler entre 1933 e 1945.

Christian Rainer, da Áustria, disse à BBC que encontrou o nome de seu avô "em poucos segundos".

"Descobri que ele se tornou membro do Partido Nazista por volta de 21 de abril de 1938, apenas alguns dias após o Anschluss", quando Adolf Hitler anexou a Áustria à Alemanha, afirmou.

A ferramenta online permite que as pessoas pesquisem várias milhões de fichas de filiação do Partido Nazista, as "NSDAP-Mitgliederkartei".

"Ele solicitou a filiação ao Partido Nazista (NSDAP, sigla em alemão de Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, ou Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães) apenas cinco dias depois de isso se tornar legal na Áustria", disse Rainer, ex-editor da revista austríaca Profil.

A ferramenta de busca foi criada pelo jornal alemão Die Zeit, em cooperação com arquivos na Alemanha e nos Estados Unidos.

Rainer nunca conheceu o seu avô, que morreu pouco antes de seu nascimento, em 1961.

"Eu sempre soube que ele era próximo dos nazistas, mas me surpreendeu o fato de ter levado apenas cinco dias" para se juntar a eles, afirmou.

"Ele era um acadêmico", acrescentou Rainer. "Em 1938, ele deveria saber quem eram os nazistas."

O mecanismo de busca foi importante, disse Rainer, não apenas pelo que lhe revelou sobre o seu avô, mas também porque ajudou a inocentar outros membros de sua família, incluindo seu pai.

"Fiquei feliz por não encontrar mais ninguém da minha família, especialmente meu pai. Nunca suspeitei que ele fosse nazista. Ele foi convocado [para Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista] em 1941 e ficou ferido algumas vezes", afirmou.

O jornal alemão Die Zeit afirmou que a resposta ao mecanismo de busca foi "avassaladora".

Desde o lançamento, no início de abril, a ferramenta foi "acessada milhões de vezes e compartilhada milhares de vezes", disse Judith Busch, porta-voz do Die Zeit.

Um usuário escreveu no site do Die Zeit: "Já encontrei dois parentes próximos, o que destrói o mito de que ninguém na nossa família esteve envolvido. Ter minha perspectiva transformada aos 71 anos é um choque amargo."

Cerca de 10,2 milhões de alemães se tornaram membros do partido entre 1925 e 1945.

As fichas de filiação, que estavam armazenadas na sede nazista em Munique, quase foram destruídas nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O Die Zeit afirmou que, com o Reich de Adolf Hitler em ruínas, foram dadas ordens para que os registros fossem triturados, mas eles foram salvos por Hanns Huber, diretor de uma fábrica de papel próxima, que posteriormente os entregou aos americanos.

As fichas, que ajudaram a identificar pessoas, tiveram papel fundamental no processo de desnazificação na Alemanha do pós-guerra.

Por quase meio século, as fichas foram mantidas pelos americanos no centro de documentação de Berlim. Em 1994, foram transferidas para o Arquivo Federal Alemão, e cópias em microfilme foram enviadas ao Arquivo Nacional dos EUA, em Washington D.C.

Até recentemente, só era possível fazer consultas por meio de um pedido formal ao Arquivo Federal Alemão. Em março deste ano, o arquivo dos EUA passou a disponibilizar seus registros online.

O jornal Die Zeit afirmou que obteve os dados e "copiou os documentos para torná-los facilmente pesquisáveis".

Christian Rainer disse que as informações ainda têm grande repercussão.

Anteriormente, as pesquisas se concentravam em "pessoas de alto escalão que mais tarde se tornaram políticos, juízes ou médicos", disse à BBC. "Agora muitas pessoas estão pesquisando familiares, então isso se tornou algo muito individual."

E concluiu: "Oito décadas após o fim da guerra, ainda é possível descobrir verdades que você não conhecia antes".

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