A Anvisa decidiu apreender todos os lotes de produtos à base de berberina que não possuem registro, impedindo sua fabricação e comercialização, em resposta ao aumento da popularidade da substância como alternativa ao Ozempic, um medicamento para emagrecimento.
Embora a berberina seja utilizada na medicina tradicional e tenha mostrado potencial em estudos preliminares, especialistas alertam que as evidências sobre sua eficácia para perda de peso são limitadas e que a substância pode interagir com outros medicamentos, aumentando riscos de efeitos colaterais.
Além da berberina, a Anvisa também determinou a apreensão de lotes de outros produtos, como o Soll*Q e o cloridrato de dobutamina, devido a problemas de qualidade e alegações terapêuticas não comprovadas, além de suspender a propaganda de produtos manipulados da marca Pharmes.
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou, na última sexta-feira (11), a apreensão de todos os lotes de produtos à base de berberina comercializados sem registro, notificação ou cadastro na agência. A medida impede que os produtos sejam fabricados, importados, distribuídos, divulgados, comercializados ou utilizados.
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Vendida e divulgada como "Ozempic natural", a berberina é um composto encontrado em plantas como Hydrastis canadensis e espécies do gênero Berberis. A substância é utilizada na medicina tradicional asiática há séculos e, mais recentemente, passou a ser estudada por seus possíveis efeitos sobre a glicemia, o colesterol e outros parâmetros metabólicos.
Segundo o jornal The New York Times, existem estudos sugerindo efeitos da berberina sobre o metabolismo, mas as pesquisas sobre sua capacidade de provocar perda de peso ainda são limitadas.
Melinda Ring, especialista em medicina integrativa da Northwestern Medicine, disse ao jornal americano que a substância tem evidências que justificam esses estudos, mas que o entusiasmo nas redes sociais sobre seu potencial para emagrecimento é "exagerado".
Craig Hopp, vice-diretor de uma divisão do Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, também afirmou que há alguma plausibilidade para um efeito sobre o peso, baseada sobretudo em estudos preliminares e em modelos animais, mas faltam ensaios clínicos robustos em humanos.
A comparação entre berberina e Ozempic ganhou força nas redes sociais principalmente por causa da busca por alternativas aos medicamentos que se tornaram populares para perda de peso. O Ozempic, fabricado pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, contém semaglutida, uma substância que pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1 e atua na regulação da glicose e do apetite.
A berberina tem mecanismos de ação diferentes e não é uma versão natural da semaglutida, disseram Ring e Hopp ao The New York Times. Embora alguns estudos tenham observado possível redução de peso entre pessoas que utilizaram a substância, as evidências disponíveis ainda são insuficientes para estabelecer um efeito de emagrecimento comparável ao dos medicamentos dessa classe.
A substância também pode interagir com medicamentos. Segundo Hopp, a berberina pode alterar a concentração de determinados remédios no sangue. A combinação com a metformina, utilizada no tratamento do diabetes tipo 2, por exemplo, pode potencializar o efeito do medicamento e aumentar o risco de hipoglicemia.
Yufang Lin, especialista em medicina integrativa na Cleveland Clinic, também alertou ao jornal que a ideia de que uma substância é necessariamente segura por ser "natural" pode levar pacientes a subestimar seus riscos e possíveis interações com medicamentos.
Além dos produtos à base de berberina, a mesma resolução da Anvisa determinou medidas contra outros produtos.
A agência determinou a apreensão de todos os lotes do Soll*Q 75, nas apresentações de 180, 360 e 720 cápsulas, com concentrações de 300 mg e 150 mg, fabricado pela empresa Métodos Quantumbio Distribuidora e Serviços como item da Medicina Tradicional Chinesa (MTC).
Segundo a Anvisa, o produto era vendido diretamente ao consumidor sem exigência de prescrição e dispensação por profissional habilitado. A agência também afirmou ter identificado a divulgação de alegações de finalidade terapêutica para o produto.
Na mesma resolução, a Anvisa determinou o recolhimento de lotes do medicamento cloridrato de dobutamina, produzido pela Hypofarma, após a confirmação de um desvio de qualidade. Foram identificados precipitados, partículas suspensas, cristalização e alterações de cor em ampolas íntegras e/ou depois da diluição.
A resolução também determinou a suspensão da propaganda de todos os produtos manipulados divulgados no site da marca Pharmes, da empresa Lupatini e Pinheiro Instituto de Manipulação Ltda.