Especialistas explicam como o fazer artístico contribui para o bem-estar emocional
Comemorado em 15 de abril, o Dia Mundial da Arte chama atenção para a relevância das manifestações artísticas no cotidiano e para seus efeitos no bem-estar. Além da expressão criativa, a arte vem sendo reconhecida como uma importante aliada no cuidado emocional, contribuindo para aliviar tensões e favorecer o equilíbrio mental. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), atividades como música, dança e visitas a espaços culturais podem gerar impactos positivos duradouros, estimulando a autoestima e a qualidade de vida.
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No Brasil, o uso da arte como ferramenta terapêutica tem raízes importantes. Na década de 1940, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira revolucionou sua área de atuação ao substituir tratamentos agressivos, como eletrochoques e intervenções exclusivamente medicamentosas, por atividades artísticas voltadas à expressão das emoções de seus pacientes. A iniciativa marcou uma mudança de paradigma no cuidado em saúde mental, priorizando abordagens mais humanizadas.
A chamada arteterapia se expandiu, se popularizou e passou por um processo de profissionalização. Hoje, é utilizada não apenas em tratamentos psiquiátricos, mas também em processos de desenvolvimento pessoal, reabilitação e promoção do bem-estar físico e mental. A prática é reconhecida pela OMS como uma estratégia válida de cuidado e, no Brasil, integra o conjunto de práticas integrativas e complementares oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
No campo da regulamentação, a profissão de arteterapeuta também avança no país. Um projeto aprovado pela Comissão de Educação do Senado prevê que, para atuar na área, será necessária formação específica, em nível de graduação ou especialização, ou comprovação de experiência prática por, no mínimo, quatro anos.
Segundo o Dr. Luis Bochenek, médico e professor de psiquiatria da Afya Goiânia, o reconhecimento institucional da arteterapia reforça sua relevância clínica. “A arteterapia não substitui tratamentos convencionais, como medicação ou psicoterapia. Atua como complemento, potencializando os resultados ao ampliar formas de expressão e ajudar na redução de sintomas como ansiedade e estresse, além de fortalecer vínculos e promover o bem-estar”, afirma.
Para a Dra. Mariana Ramos, professora de psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a arte vai além da expressão estética e se consolida como um recurso terapêutico relevante. “Nem sempre conseguimos nomear o que sentimos, e a arte permite expressar emoções e conflitos de forma simbólica, o que facilita o contato com conteúdos internos e amplia a possibilidade de elaboração emocional”, explica.

Segundo a psicóloga Mariana Ramos, o processo criativo pode atuar tanto no campo psicológico quanto no fisiológico. “Há evidências de que atividades artísticas ajudam a reduzir o estresse e favorecem estados de maior equilíbrio emocional, independentemente de experiência prévia com arte”, afirma. Ela também destaca que o valor terapêutico não está no resultado final, mas na experiência. “O foco não é produzir algo bonito, mas permitir que o sujeito se envolva no processo, o que contribui para autoconhecimento e regulação emocional“, completa.
Além do contexto clínico, o contato com ambientes culturais também desempenha um papel importante. Museus, exposições e apresentações artísticas podem funcionar como pausas no cotidiano acelerado, estimulando reflexão, conexão e organização emocional.
O Dr. Luis Bochenek acrescenta que esse impacto positivo da arte também pode ser compreendido do ponto de vista neurobiológico. “Atividades artísticas estimulam a liberação de neurotransmissores como dopamina e serotonina, substâncias diretamente associadas às sensações de prazer e bem-estar“, explica. Segundo ele, esses neurotransmissores não atuam apenas no cérebro, mas têm efeitos sistêmicos e estão envolvidos na regulação do humor, do sono, do apetite e do comportamento.
O especialista destaca ainda que o fazer artístico pode favorecer a plasticidade cerebral e otimizar o uso desses neurotransmissores pelo organismo, o que ajuda a entender a redução de sintomas de ansiedade e depressão. “A arteterapia amplia essa atividade neurobiológica de forma benéfica e se torna uma importante aliada no cuidado em saúde mental”, completa. O Dr. Luis Bochenek ressalta também os benefícios do uso integrado a outras abordagens terapêuticas, especialmente em contextos psiquiátricos.
A seguir, os especialistas destacam como as práticas artísticas contribuem para o equilíbrio emocional e o bem-estar:
Por Beatriz Felicio
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