Contextualizando

As verdades de Milei que estavam engasgadas em muitos brasileiros

Em 30 de Julho de 2026 às 18:00

Na sua recente estada no Brasil o presidente da Argentina, Javier Milei, pretendia fazer uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiliciar.

Foi proibido de fazer a visita por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Porém, o argentino não ficou calado, como explica o jornalista José Fucs:

"O presidente da Argentina, Javier Milei, pode ter sido agressivo, grosseiro e antidiplomático, ao chamar o presidente Lula de 'ladrão' e 'presidiário' e o ministro Alexandre de Moraes de 'lixo careca', durante a convenção nacional do PL que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, no último sábado, em São Paulo, da qual participou como convidado de honra.
Sua fala pode ter sido 'incompatível com a civilidade', como disse o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, na nota oficial que divulgou sobre a questão. Pode ter levado o Itamaraty a convocar o embaixador da Argentina no país, para transmitir a 'repulsa' do governo Lula a seu comportamento 'infamante', e a chamar de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, sem data prevista de retorno.
Pode também ter levado o PT a afirmar que ele 'não está à altura do cargo que ocupa' e a entrar com uma representação na PGR (Procuradoria-Geral da República) pedindo uma investigação sobre o eventual uso de recursos públicos no custeio de sua viagem ao Brasil e uma suposta ingerência externa nas eleições brasileiras.
Por suas declarações, Milei pode ainda ser considerado um 'energúmeno', como disse o peronista Alberto Fernández, ex-presidente da Argentina, um 'palhaço', como o chamou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ou uma 'caricatura patética' e um 'puxa-saco de Donald Trump', como afirmou o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. No limite, ele pode até ser considerado 'persona non grata' e impedido de entrar no país, como defendeu um analista do ecossistema petista na mídia.
Agora, uma coisa não dá para negar, em meio à onda de indignação gerada por Milei, propagada por apoiadores de Lula e de Xandão nas redes sociais e fora delas: ele falou o que estava engasgado em muitos brasileiros, que hoje se sentem alijados do jogo político, sob a constante ameaça de sofrer um processo judicial sumário e ir parar no xilindró, por dizer o que pensam sobre o presidente, Moraes e outras autoridades do país.
Independentemente do julgamento que se faça sobre a fala de Milei e dos desdobramentos diplomáticos que ela possa ter, a verdade —admitam ou não os seus críticos e desafetos— é que ele expressou, ao seu modo, o pensamento de metade ou de quase metade da população do país em relação a Lula e ao STF, como mostram as pesquisas sobre a rejeição ao presidente e sobre a imagem e a confiança da população na Corte e em seus ministros.
Foi ovacionado na convenção do PL e provavelmente foi apoiado por muito mais gente que, em silêncio e a distância, deu aval às suas palavras, ao tomar conhecimento de seu discurso.
Como um dos principais líderes da direita mundial e como showman que é, sem papas na língua e protegido de certa forma pelo cargo que ocupa, Milei roubou a cena no evento. Chacoalhou as placas tectônicas da política nacional e criou um fato novo na campanha eleitoral, que ainda deve render muita discussão daqui para a frente, com todos os envolvidos na disputa.
Ele se referiu a Moraes como 'lixo careca' ao criticar duramente o ministro do STF por não ter autorizado sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por sua participação na alegada tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, hoje cumprindo prisão domiciliar em Brasília.
'Nem sequer me permitiram visitar meu amigo, injustamente encarcerado, quando sei que Lula se cansou de receber inúmeras lideranças estrangeiras durante o período em que esteve preso, entre elas o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández', afirmou Milei. 'Isso nada mais é do que uma demonstração clara da injustiça de sua prisão e de seu evidente caráter vingativo. Meu estimado Jair, envio-lhe um abraço à distância', acrescentou.
Além de traçar um quadro detalhado do estrago causado pelos peronistas na Argentina e expressar seu apoio a Flávio para enfrentar o 'risco Lula' e engrossar a 'onda azul' que está varrendo a América Latina, o presidente argentino deu sua visão sobre o impacto da ação da esquerda no Brasil e na região como um todo.
'O socialismo do século 21 criou raízes profundas neste país. O infame Foro de São Paulo, fundado por Lula da Silva e Fidel Castro, foi uma rede transnacional fundamental para a disseminação do comunismo no continente', declarou Milei —um crítico contundente da esquerda e dos chamados 'progressistas', que, em sua visão, condenam os países que governam ao atraso.
'Eles não podem permitir que suas populações experimentem uma vida próspera e livre, sem depender da esmola dos políticos, nem podem aceitar que exista, ao lado deles, alguém desfrutando dos frutos da liberdade humana. Por isso, hoje o socialismo latino-americano está sendo derrotado eleição após eleição: Argentina, Colômbia, Peru, Chile, Equador e, esperamos que, em outubro, também teremos um Brasil liberal.'
Milei lembrou que, nas eleições argentinas que o levaram à Casa Rosada, Lula fez campanha aberta para o candidato peronista, Sergio Massa, ex-ministro da Economia do país. Depois, em 2025, ele visitou a ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar de seis anos por corrupção, e ainda tirou fotografia segurando um cartaz com os dizeres 'Cristina libre', sem que a Justiça local o tivesse impedido de fazê-lo, como aconteceu aqui com Bolsonaro no Brasil, por decisão de Moraes.
'Quando chegamos ao poder, nosso país caminhava para uma nova hiperinflação, a terceira de sua história. Os argentinos haviam sido seduzidos pelo canto da sereia do socialismo do século 21', disse. 'Foram levados a acreditar, por meio da propaganda, que o déficit fiscal não importava ou que, inclusive, era algo positivo; que regulações sem fim existiam para nos proteger; que o Estado poderia substituir o espírito empreendedor de todo um país; que a riqueza poderia ser distribuída antes mesmo de ser criada.'
Diante das acusações de que sua participação na convenção do PL poderia caracterizar uma 'interferência externa' nas eleições brasileiras, Milei fez uma publicação nas redes sociais em que dizia: 'Nunca vamos esquecer. Tchau!'. O post acompanhava uma publicação que trazia um print de uma reportagem do jornal La Nación, com o título 'Estrategistas enviados por Lula da Silva ajudam Massa e tentam impedir vitória de Milei no primeiro turno na Argentina'.
Ele compartilhou também no X, sem comentários, um post que afirmava o seguinte: 'Por que Lula é ladrão? Porque foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro e nunca conseguiu provar sua inocência'.
Apesar de o lulopetismo e muitos integrantes da social-democracia e do chamado 'centro democrático' detestarem Milei e apesar de seu discurso na convenção do PL ter gerado uma reação indignada da turma, ele é exaltado e admirado pela direita e boa parte da centro-direita no Brasil e pelo mundo afora, pelo que faz e pelo que diz, sem se preocupar em ser gentil e 'politicamente correto'.
Talvez, se a fala de Milei tivesse sido feita por Lula, teria sido considerada como uma 'gafe', um 'deslize' ou um 'mal-entendido', como aconteceu quando ele disse que a vitória de Donald Trump nas eleições americanas de 2024 representaria 'a volta do fascismo' no mundo e quando chamou o o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de 'genocida'.
M
as, como partiu de Milei, foi tratada como uma questão de Estado e vista como um pecado imperdoável.
Por isso, embora a impressão que se tenha pelo noticiário seja de que a rejeição ao discurso de Milei foi uma unanimidade nacional, talvez seja prudente considerar um cenário que extrapole a bolha da esquerda, no qual o respaldo que ele recebeu de um número considerável de brasileiros possa ter um impacto eleitoral positivo para Flávio Bolsonaro. Isso, porém, só as próximas pesquisas vão nos mostrar com precisão."

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