Mundo

Ataque do Azerbaijão fere 4 repórteres em território disputado com a Armênia

Igor Gielow / Folhapress | 01/10/20 - 23h13

Quatro jornalistas, dois franceses e dois armênios, foram feridos nesta quinta (1º) durante um ataque com artilharia do Azerbaijão à cidade de Martuni, em Nagorno-Karabakh.

O encrave autônomo armênio no Azerbaijão é foco de conflito desde os anos 1990. No domingo passado, um grande embate militar na região começou, ainda sem perspectiva de terminar.

Segundo relatos da agência France Presse, o estado de saúde da dupla de repórter e fotógrafo franceses é grave. Eles trabalham para o jornal Le Monde, e participavam com outros repórteres de entrevistas com vítimas de um ataque anterior na região.

Não se sabe ainda a condição do câmera da Armenia TV e de um repórter da Armenian 24News. Um jornalista que estava com eles, da TV independente russa Dojd, conseguiu escapar e chegar a um abrigo antibombas.

O presidente francês, Emmanuel Macron, disse estava trabalhando para repatriar seus cidadãos feridos o mais rapidamente possível.

As condições de trabalho no conflito são difíceis, e colaboram para o grande blecaute informativo sobre o que de fato está ocorrendo em solo.

A Armênia permite o trabalho de jornalistas estrangeiros e estimula sua ida até a área sob controle do governo armênio étnico de Nagorno-Karabakh, mas chegar lá não é fácil. Nesses dias, qualquer veículo pode ser alvo de bombadeiro, especialmente pelos drones que são abundantes nas mãos dos azeris.

Há vários órgão independentes no país, além da onipresente TV estatal, mas mesmo seus relatos têm de ser tomados com cuidado porque a militância em torno da independência de Nagorno-Karabakh é uma causa unificadora nacional.

Muito do que é divulgado é fortemente impregnado pelo tom propagandístico.

No Azerbaijão a questão é a mesma, mas lá o Estado tem forte controle sobre a mídia. Os poucos sites em inglês disponíveis, como o Trend, são praticamente Diários Oficiais do governo de Ilham Aliyev.

O país não permite cobertura internacional na sua linha de frente. Assim, causou estranhamento uma reação ao ataque que feriu os repórteres numa conta de Twitter ligada à chancelaria de Baku no fim da tarde de quinta (meio do dia no Brasil).

Um vídeo mostrava bombadeios atingindo a cidade azeri de Terter. Segundo a postagem, "Repórteres locais e internacionais estão sob ataque pelas Forças Armadas da Armênia". Internautas ironizaram que os supostos estrangeiros talvez fossem turcos, dado o apoio de Ancara à ofensiva azeri.

Há profusão de relatos em contas de redes sociais em ambos os países, contudo. Só que a quantidade de imagens antigas sendo recicladas como provas irrefutáveis de algum dos lados da narrativa torna bastante difícil a aferição mais calibrada da realidade.

Isso sempre foi assim em guerras, desde que os primeiros correspondentes trabalharam no conflito entre a Rússia e a Turquia, aliada a potências europeias, na Crimeia entre 1853 e 1856.

Passados 164 anos, mais um embate numa região de fratura de interesses de russos e turcos se coloca, agora à luz da era da chamada guerra de narrativas.

Aqui, os armênios têm levado vantagem devido à amplitude de sua diáspora –mais da metade dos talvez 7 milhões de armênios moram fora do país.

Na Rússia, há cerca de 1,1 milhão de armênios. Nos EUA, há 500 mil armênios. Na França, são talvez 600 mil, entre armênios e descendentes. No Brasil, um décimo disso, numa comunidade bastante ativa.

Já os azeris se concentram, no exterior, no Irã, onde compõem etnicamente 25% da população –até o líder supremo, Ali Khamenei, tinha pai azeri étnico. São 20 milhões, o dobro da população do Azerbaijão de orgiem.

Só que isso gera temor secessionista na liderança, então Teerã apoia tacitamente Ierevan na disputa para não empoderar regionalmente Baku e os turcos, rivais diretos dos iranianos.