Do jornal "O Estado de São Paulo":
"É preciso ter uma certa dose de cinismo ou muita ingenuidade para acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva somente agora tenha se dado conta da infinidade de problemas causados pelas bets. Trata-se, por óbvio, de puro cálculo eleitoreiro do marqueteiro extraoficial de sua campanha e ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que, a nove dias do primeiro turno das eleições presidenciais, vislumbrou na proibição às apostas e jogos online uma oportunidade de limpar a imagem do petista e arranjar um punhado de votos que melhorem suas chances de reeleição.
Lula, a bem da verdade, não foi o responsável pela liberação da atividade no País, mas foi durante seu mandato que ela foi regulamentada e, principalmente, tributada – e é essa a razão pela qual boa parte da população associa o governo do petista à jogatina. Embora a exploração de jogos de azar seja proibida no País desde 1941 e jamais tenha sido revogada, as apostas de cota fixa, feitas com base em eventos reais, como partidas de futebol, foram criadas em 2018. Foram os parlamentares que incluíram a emenda em uma Medida Provisória (MP) que originalmente visava a direcionar recursos de loterias para a segurança pública.
Pode-se alegar que torrar dinheiro no jogo do tigrinho não é exatamente o mesmo que fazer uma aposta esportiva sobre o resultado de um jogo do Campeonato Brasileiro, mas as empresas por trás dessas atividades são as mesmas e, para os viciados, não faz a menor diferença. O fato é que esse arremedo de lei abriu a porteira para que as bets se tornassem onipresentes nas propagandas de rádio e TV, no patrocínio a equipes de futebol e, sobretudo, nos telefones celulares de milhões de brasileiros.
Michel Temer era o presidente e poderia ter vetado a proposta, mas não o fez. Seu sucessor, Jair Bolsonaro, lavou as mãos, pois o vespeiro opunha a ala econômica e a evangélica de seu governo. Lula, por sua vez, viu na regulamentação uma possibilidade de arrecadar impostos para sustentar seu malfadado arcabouço fiscal, menosprezando consequências muito palpáveis na vida de milhões de brasileiros.
Ciente desses riscos, este jornal nunca apoiou qualquer iniciativa que liberasse jogos de azar ou cassinos. Não há empregos suficientes nem arrecadação bilionária que compense a ruína de famílias destruídas por dívidas ou pelo vício, que já não poupa nem crianças e adolescentes. Como se isso não bastasse, não faltam indícios de que as bets se tornaram um dos meios preferidos pelo crime organizado para lavar dinheiro.
Não se sabe se Lula pessoalmente é contra as bets, como apregoa, mas é inegável que compactuou com elas. Logo, chega a ser irônico que somente agora – a dias do primeiro turno, quase quatro anos depois de assumir o cargo – recorra a uma medida provisória para resolver um problema que assola a sociedade há anos. Não é para isso que servem MPs, que, em tese, deveriam ser usadas apenas em situações excepcionais e cumprir os pressupostos constitucionais de relevância e urgência para serem editadas.
O fato é que as medidas provisórias têm força de lei e vigência imediata, tudo que Lula precisa para ganhar a simpatia das famílias arruinadas pela jogatina. Embora as bets tenham investido na construção de uma bancada parlamentar poderosa no Congresso, a ponto de terem conseguido barrar a aprovação do relatório final de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado, os parlamentares certamente não comprarão briga neste momento.
O que deputados e senadores farão dessa proposta após as eleições é uma incógnita, mas, para Lula, parece que tanto faz. Sua guerra contra as bets é meramente simbólica e provavelmente temporária. A jogatina não começou ontem, e proibir as apostas esportivas e os jogos online não fará com que essa epidemia acabe amanhã.
A questão é que, agora, as bets são o vilão ideal para quem precisa recuperar popularidade, e essa é a única razão para Lula bani-las neste momento. Mas, aclamado ou derrotado pelas urnas, ele terá a chance de trabalhar para aprovar a medida provisória no Congresso e fazer o que era o certo desde o princípio."