Baixa autoestima, ansiedade, isolamento social e dificuldades nos relacionamentos estão entre os impactos que podem acompanhar vítimas por anos
Há tempos, o bullying deixou de ser tratado apenas como uma brincadeira de mau gosto entre crianças e adolescentes. Situações recorrentes de humilhação, intimidação, exclusão e exposição passaram a ser observadas também pelos efeitos que podem produzir na formação emocional de quem é alvo dessas agressões. Em alguns casos, as consequências não desaparecem quando termina a escola e podem continuar presentes na vida adulta.
LEIA TAMBÉM
Para o psicanalista Alexandre Maduenho, doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “A Van – Adolescência em Fuga”, a adolescência representa um período especialmente sensível para a construção da identidade, da autoestima e da maneira como o indivíduo passa a se perceber nas relações com os outros.
Quando a experiência cotidiana é marcada por rejeição, ridicularização ou ataques constantes, a vítima pode começar a incorporar a imagem negativa que recebe do grupo. O problema não está apenas no episódio isolado, mas na repetição e na sensação de que não existe um ambiente seguro no qual aquele adolescente consiga se proteger ou ser reconhecido de outra forma.
“A maneira como somos vistos pelo olhar do outro participa da constituição da nossa subjetividade ao longo de toda a vida, mas ganha uma importância particular na adolescência, quando a imagem que temos de nós mesmos está em intensa reorganização. Quando alguém é repetidamente colocado em uma posição de inferioridade, vergonha ou inadequação, isso pode afetar profundamente a maneira como ele se percebe e desestabilizar uma noção de si frente ao mundo”, explica Alexandre Maduenho.
Entre as consequências mais frequentes do bullying estão a queda da autoestima, o medo da exposição, o isolamento e a dificuldade de confiar nas outras pessoas. O adolescente pode evitar determinados ambientes, afastar-se de grupos e até modificar comportamentos para diminuir as chances de voltar a ser alvo. A ansiedade também pode aparecer associada à expectativa permanente de uma nova agressão. Ir à escola, entrar em uma sala, falar em público ou simplesmente circular por determinados espaços pode se transformar em uma experiência de tensão.
Alexandre Maduenho observa que nem sempre o sofrimento aparece de forma evidente ou é relacionado pelo próprio adolescente ao bullying. Alguns jovens demonstram tristeza ou medo, enquanto outros reagem com irritabilidade, silêncio, queda no rendimento escolar ou mudanças bruscas de comportamento.
“Existe uma tendência de esperar que a vítima diga claramente que está sofrendo. Nem sempre um adolescente consegue transformar seu sofrimento em um relato coeso. Pode haver medo de um acolhimento inadequado dos pais, mas também vergonha. Ao contar que está sendo diminuído ou humilhado, o adolescente pode temer que esse relato altere a forma como ele é visto em casa. O sofrimento, então, pode aparecer lateralmente, por meio do afastamento, da insegurança ou de uma mudança na forma de se relacionar com o mundo”, afirma.
Por isso, familiares e educadores precisam estar atentos, principalmente às alterações persistentes de comportamento, evitando minimizar relatos ou tratar a agressão como algo natural da idade.

Os efeitos do bullying também podem reaparecer anos depois. Uma pessoa que passou boa parte da adolescência sendo ridicularizada por sua aparência, comportamento, origem ou modo de se expressar pode chegar à vida adulta carregando inseguranças que interferem nas relações afetivas, profissionais e sociais.
Segundo Alexandre Maduenho, isso não significa que toda vítima de bullying necessariamente desenvolverá dificuldades emocionais duradouras. A forma como cada indivíduo atravessa a experiência depende de fatores como o apoio recebido, a possibilidade de falar sobre o que aconteceu e a existência de relações capazes de oferecer segurança e reconhecimento.
Ainda assim, experiências prolongadas de humilhação podem contribuir para formas de relacionamento marcadas pela antecipação da rejeição ou pelo receio constante do julgamento do outro, mesmo quando as cenas de bullying já pertencem ao passado.
“O ponto fundamental é quebrar a lógica pela qual o silenciamento do adolescente que sofre o bullying se opera. Quando ele é escutado e encontra adultos capazes de reconhecer a gravidade do que vive, já existe uma mudança importante. O bullying não deve ser naturalizado como parte inevitável do crescimento. Algumas experiências passam, mas outras podem permanecer silenciosas, alterando a maneira como a pessoa se percebe frente a si mesma e ao mundo por muitos anos”, conclui.
Por Guilherme Souza
Ative as notificações para receber os conteúdos do TNH1 em tempo real!