Jornalista Nathalia Fontes:
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“Estou triste. Não apenas por causa do tema que nos traz aqui, mas porque este Supremo Tribunal Federal, guarda da nossa Constituição, provocou, acho, um mal-estar cívico em todos os cidadãos brasileiros nos últimos dias.”
A declaração da ministra Cármen Lúcia durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) , na terça-feira (15), sintetizou o ambiente de tensão que tomou conta da Corte. Em outro momento, ela também afirmou estar 'envergonhada' com a situação e disse que o Judiciário deveria tranquilizar a população, e não provocar intranquilidade.
O episódio ocorre a poucas semanas das eleições de 2026, quando o embate entre ministros do STF passou a ocupar também o debate político. A crise envolve, entre outros pontos, as investigações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mensagens encontradas no celular dele, o ministro Alexandre de Moraes e o relator do caso Banco Master , André Mendonça.
Para dois cientistas políticos ouvidos pelo iG, o episódio ultrapassou a disputa jurídica e passou a representar um problema de confiança nas instituições. Contudo, as avaliações divergem sobre a intensidade do impacto eleitoral e sobre a forma como partidos e candidatos podem explorar o desgaste.
A sessão de terça-feira analisou um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes . O material inclui conversas que, segundo os investigadores, indicariam uma relação próxima entre o ex-banqueiro e o ministro.
Moraes nega irregularidades e questiona a forma como as informações foram utilizadas. A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, pediu a anulação do relatório por considerar que houve irregularidades na sua produção.
A análise sobre a abertura de uma investigação contra Moraes foi interrompida depois que o ministro Flávio Dino pediu vista. Com isso, o julgamento não foi concluído. Ao mesmo tempo, existe uma discussão sobre a possibilidade de os casos envolvendo Moraes e Mendonça serem analisados conjuntamente.
Mendonça também está no centro da crise. O ministro determinou a retirada do sigilo de documentos relacionados às investigações do Banco Master e passou a ser alvo de questionamentos de outros integrantes da Corte. Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça.
A crise ganhou uma dimensão ainda mais eleitoral porque o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, também é investigado em um dos desdobramentos do caso.
Mendonça determinou a abertura de inquérito para investigar a participação de Flávio no financiamento do filme 'Dark Horse', produção sobre Jair Bolsonaro. A investigação apura o repasse de R$ 61 milhões por Vorcaro e possíveis crimes relacionados à origem, circulação e destinação dos recursos. A PGR deu aval à abertura do inquérito.
Documentos divulgados pela PF também apontaram que Flávio negociou recursos com Vorcaro para o filme. O senador afirma que não há irregularidade na captação de recursos privados e já declarou que o dinheiro foi destinado à produção. A própria PF informou que ainda precisava esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores.
Há ainda outro elemento político, já que André Mendonça chegou ao STF por indicação do então presidente Jair Bolsonaro, em 2021. A indicação foi submetida ao Senado e aprovada antes da nomeação.
Essa combinação do ministro Moraes associado ao embate com o bolsonarismo e Mendonça indicado por Bolsonaro e responsável por decisões no caso Master contribuiu para que a crise da Corte passasse a ser interpretada também pela lógica da polarização política.
A atuação de Alexandre de Moraes nos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023 é um dos elementos que alimentam a disputa política em torno do ministro.
Entre apoiadores do bolsonarismo, Moraes, indicado por Michel Temer, há anos é alvo de críticas e acusações de abuso de poder. O ministro, por outro lado, tornou-se uma das principais autoridades responsáveis pelos processos relacionados à tentativa de ruptura institucional após a derrota de Jair Bolsonaro na eleição de 2022.
Agora, com as investigações envolvendo Vorcaro, críticas ao ministro passaram a aparecer novamente com força nas redes sociais. Levantamento feito pelo iG sobre as repercussões digitais após a sessão de terça-feira apontou que Moraes foi inicialmente o ministro mais criticado, embora o desgaste tenha se distribuído posteriormente para a própria Corte.
É nesse ambiente que circulam publicações de eleitores dizendo que não votariam em Lula por causa da atuação de Moraes e que escolheriam Flávio Bolsonaro. Essas manifestações existem, mas não podem ser tratadas, isoladamente, como evidência de uma mudança ampla do eleitorado.
O candidato do PL, por sua vez, passou a utilizar a crise do STF em sua comunicação eleitoral. Em propaganda exibida na terça-feira, Flávio criticou Moraes e falou em 'desequilíbrio institucional, associando a situação do Supremo ao governo Lula.
Na avaliação de Lucas Zandona, mestre em ciência política e professor do Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, o problema é maior do que o STF.
Para ele, o episódio representa uma crise de confiança nas instituições brasileiras. Zandona afirma que parte da população passou a enxergar o Supremo de maneira diferente da função institucional prevista para a Corte.
'O Supremo, que deveria ser o guardião dos direitos e garantias, passa a ser visto por uma parcela da sociedade como um antro de corrupção', afirmou.
O professor ressalta, porém, que acusações envolvendo ministros e autoridades precisam ser investigadas pelos órgãos competentes, com respeito ao devido processo legal.
Na avaliação dele, a sucessão de episódios envolvendo ministros e as disputas públicas entre integrantes do STF aumentam a percepção de falta de transparência.
'Quando você vê ministros da Suprema Corte brigando publicamente, isso demonstra que o clima dentro do Supremo está seriamente comprometido', disse.
Zandona também considera que a crise pode ser utilizada eleitoralmente por diferentes grupos. Segundo ele, candidatos de espectros distintos passaram a atacar o STF e seus ministros, o que pode tornar a Corte um dos temas da campanha.
No entanto, para o cientista político, o principal efeito não necessariamente seria um aumento expressivo dos votos brancos e nulos. Ele avalia que esse comportamento deve permanecer próximo dos níveis historicamente observados e aponta como consequência mais provável uma radicalização do discurso político.
A cientista política Clarisse Gurgel, professora da Faculdade de Ciências Sociais da Unirio, também considera que o episódio ultrapassa os limites do Supremo.
Na avaliação dela, a crise atual precisa ser compreendida dentro de um processo mais longo de desgaste da confiança nas instituições democráticas. Clarisse relaciona esse processo às manifestações de junho de 2013 e a acontecimentos políticos posteriores, mas sua interpretação sobre esses episódios é uma leitura política e histórica, não um consenso entre pesquisadores.
'Quando começou aquelas mobilizações mais volumosas e que culminou, inclusive, no golpe que derrubou a presidenta Dilma, a palavra de ordem, aquilo que começou movimentar o que a gente vai chamar de opinião pública ou atmosfera política é a contestação justamente das instituições democráticas', explica a professora.
Para ela, as revelações relacionadas a Vorcaro levantaram questionamentos sobre a fronteira entre relações privadas e atuação pública.
Clarisse afirma que as mensagens divulgadas no caso Master criaram uma percepção de proximidade entre empresários e integrantes de instituições que deveriam atuar de maneira impessoal.
'Você tem uma apropriação privada de uma instituição pública', disse a cientista política ao analisar o episódio.
Ela também chama atenção para o risco de a crise ser utilizada para fortalecer discursos de descrédito generalizado.
Segundo Clarisse, quando problemas reais das instituições são apresentados como prova de que todo o sistema democrático é ilegítimo, abre-se espaço para discursos autoritários. Por isso, ela considera fundamental diferenciar a investigação de possíveis irregularidades da tentativa de transformar o caso em instrumento de disputa política.
A crise também reforça uma divisão que já marca a política brasileira.
De um lado, setores da direita utilizam a atuação de Moraes e do STF em processos contra Jair Bolsonaro e seus aliados para sustentar críticas à Corte. De outro, setores da esquerda defendem a atuação do Supremo nos processos relacionados aos ataques de 8 de janeiro e à responsabilização de envolvidos na tentativa de ruptura institucional.
Entretanto, com as novas revelações do caso Master a divisão ficou mais complexa. O mesmo conjunto de investigações envolve Moraes, um dos principais alvos históricos do bolsonarismo, e Flávio Bolsonaro, candidato presidencial que passou a ser investigado em um desdobramento relacionado aos recursos de Vorcaro.
Para Zandona, isso ajuda a explicar por que o STF se transformou em uma espécie de 'vidraça' política.
'Hoje, a polarização que estava concentrada no eleitorado e no Legislativo também chegou ao Judiciário', afirmou.
Clarisse concorda que diferentes grupos políticos podem se apropriar da crise, mas destaca que o resultado dependerá da narrativa construída por cada campanha e da capacidade de os eleitores separarem denúncias, investigações, decisões judiciais e disputas eleitorais.
Os dois especialistas não tratam o episódio como um fator isolado capaz de explicar o comportamento eleitoral.
A avaliação de ambos é que o impacto dependerá da combinação entre a crise do STF, a polarização já existente, a forma como candidatos explorarem o tema e a importância que os próprios eleitores atribuírem ao assunto.
Para Zandona, o principal risco está na radicalização do discurso e no aumento da descrença institucional. Ele avalia que candidatos que defendem medidas mais duras contra ministros ou questionam decisões da Corte podem encontrar espaço entre eleitores insatisfeitos.
Clarisse, por sua vez, alerta para outro efeito, com a transformação de problemas institucionais específicos em argumento contra a própria democracia.
Nesse cenário, a disputa eleitoral de 2026 passa a ter uma particularidade, uma vez que o Supremo não aparece apenas como árbitro de questões jurídicas e constitucionais. A própria atuação da Corte tornou-se objeto de disputa entre candidatos e grupos políticos.
A fala de Cármen Lúcia resume a dimensão institucional do problema. Ao afirmar que o STF provocou um 'mal-estar cívico', a ministra reconheceu publicamente que o conflito entre os integrantes da Corte deixou de ser percebido apenas como uma questão interna do Judiciário.
A poucos dias do início da reta final da disputa eleitoral, a crise agora também faz parte da conversa sobre confiança nas instituições, polarização e escolha dos eleitores, sem que as manifestações nas redes, por si só, permitam concluir qual será seu efeito sobre o resultado das urnas em outubro.”
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