Empresária morta: irmã relata tragédia horas após cirurgias plásticas em Goiânia

Publicado em 23/08/2026, às 13h59
TV Anhanguera
TV Anhanguera

Por CNN Brasil

A empresária Andreia Vieira morreu poucas horas após realizar cirurgias plásticas na região do rosto e do pescoço em um hospital em Goiânia, em Goiás, segundo relato de Djiane Vieira, irmã de Andreia, que acompanhou Andreia no dia dos procedimentos, à CNN Brasil.

Segundo a irmã, Andreia permaneceu por cerca de oito horas no centro cirúrgico e apresentou complicações após o procedimento. A representação criminal apresentada pela família ao Ministério Público de Goiás registra que as cirurgias começaram na manhã de 11 de agosto e terminaram às 16h20. O óbito foi formalmente declarado às 4h15 do dia seguinte.

À CNN Brasil, Djiane contou que a irmã morava havia cinco anos na Espanha e que havia juntado dinheiro durante dois anos para realizar as cirurgias plásticas. "Era o sonho dela", contou.

No dia das cirurgias, 11 de agosto, Andreia e Djiane chegaram ao hospital por volta das 6h. Os procedimentos foram realizados sob anestesia geral e incluíram cirurgias no rosto e procedimentos de contorno corporal. Segundo a representação, a intervenção ocorreu das 7h45 às 16h20, com indução anestésica às 8h10.

Entre os procedimentos realizados estavam ritidoplastia facial profunda, frontoplastia com redução de testa, mentoplastia óssea e blefaroplastia superior, combinadas a lipoaspiração e nanofat — técnica que utiliza a própria gordura do corpo da paciente. Ao todo, eles custaram R$ 118 mil.

A irmã de Andreia disse que foi informada de que as cirurgias durariam por volta de seis horas, porém, depois desse prazo, começou a se preocupar. Quando a paciente saiu do centro cirúrgico, Djiane afirmou que a irmã não conseguia fechar a boca porque a língua estava inchada. Segundo ela, o médico explicou que esse seria um processo normal do pós-operatório.

No entanto, ela lembra da irmã piorar e de relatar falta de ar e dor na região do pescoço.

"Mana, estou morrendo", foi o que Andreia teria dito à irmã antes de morrer, segundo Djiane.

Durante o período em que as duas ficaram no quarto, Djiane contou que a irmã não foi atendida conforme a piora do estado de saúde. "O que houve com a Andreia foi negligência", destacou.

Pré-operatório e negligência

Andreia e o médico nunca teriam se encontrado pessoalmente em uma consulta antes da cirurgia, segundo Djiane. A primeira vez teria ocorrido no dia dos procedimentos. Ela teria conhecido o trabalho do cirurgião por meio das redes sociais.

De acordo com Djiane, durante o pré-operatório, foi criado um grupo da equipe do hospital com a paciente e com ela, que era acompanhante, em um aplicativo de mensagens para se comunicarem em relação ao quadro de saúde de Andreia.

A defesa da família da vítima, representada pelo advogado Fábio Ricardo, apresentou documentos que apontam que Andreia realizou exames pré-operatórios na Espanha em 18 de junho. Os resultados indicaram sorologia com anticorpos IgM reagentes para Borrelia burgdorferi, bactéria associada à Doença de Lyme, e Brucella. Os exames foram encaminhados à equipe médica em 23 de julho.

Segundo a representação, a sorologia indicava processo inflamatório ou infeccioso ativo ou recente. A peça afirma ainda que a equipe médica não teria realizado investigação complementar sobre as infecções ou relacionado os resultados a outros fatores de risco antes da cirurgia.

Djiane relatou que o médico responsável pela operação teria dito que os diagnósticos não seriam um problema no curso cirúrgico.

A representação também aponta que Andreia havia retornado de uma viagem transatlântica entre Madrid e o Brasil apenas oito dias antes da cirurgia. A viagem ao exterior constava no prontuário e no questionário de triagem hospitalar.

Pós-operatório e complicações

Após a cirurgia, Andreia foi encaminhada para a Sala de Recuperação Pós-Anestésica e, às 17h40, transferida para um quarto de internação comum. Segundo a representação apresentada pela família, ela apresentava edema facial severo e aumento expressivo do volume da língua, além de estar suja de sangue e secreções. O documento afirma que imagens registraram a situação.

Ainda conforme a representação, o cirurgião compareceu ao quarto por volta das 20h e afirmou que o procedimento havia sido um sucesso. Segundo o documento, ele teria dito que o "inchaço acentuado" e a "sensação de agonia" eram reações comuns no pós-operatório.

Djiane lembra da irmã relatar muita falta de ar e permanecer agonizando por várias horas. Segundo ela, ao acionar a equipe médica, era alertada de que aqueles sintomas eram normais. "A queixa foi sistematicamente desvalorizada pela equipe de enfermagem", disse a defesa.

A representação relata que, durante a noite, Andreia passou a apresentar dificuldade respiratória progressiva, sensação de afogamento e secreção nas vias aéreas. Segundo o documento, a paciente pediu: "mana, mana, chama um médico" e afirmou que "sentia algo anormal em sua glote". A peça também afirma que profissionais de enfermagem teriam dito que estava "tudo normal".

Ainda conforme a representação, as profissionais teriam tratado os sintomas como "nervosismo" e dito que as queixas eram "frescura" e que Andreia estaria "dando piti". O documento afirma que gravações em vídeo registraram parte da conduta e que as próprias profissionais teriam relatado que os médicos não atendiam aos chamados durante a noite.

Por volta das 22h, segundo a peça, Andreia teria passado a pedir socorro aos gritos: "Eu estou morrendo, chama o médico, chama o médico".

Às 0h50 do dia 12 de agosto, uma médica plantonista compareceu ao quarto após chamados. Segundo a representação, ela registrou no prontuário a queixa de "desconforto cervical anterior" e prescreveu analgésico e oxigenoterapia por cateter nasal a 2 litros por minuto. A família questiona a conduta adotada diante da evolução do quadro respiratório.

Durante a piora de Andreia, a irmã tentou contato com os médicos por meio do grupo que possuía com a equipe profissional, mas, segundo ela, ninguém a respondeu.

Por volta das 2h15, a paciente sofreu uma queda abrupta da saturação e entrou em parada cardiorrespiratória em assistolia. Às 2h28, a acompanhante enviou uma mensagem de áudio no grupo de WhatsApp da clínica: "A minha irmã tá morrendo, pelo amor de Deus. Vocês ninguém atende, ninguém aparece, pelo amor de Deus.".

O cirurgião chegou ao hospital entre 2h20 e 2h45, segundo a representação, quando Andreia já estava em assistolia e sob manobras de ressuscitação cardiopulmonar realizadas pela médica plantonista e pela equipe de enfermagem. Após as tentativas de reanimação, o óbito foi formalmente declarado às 4h15.

Necrópsia e causa da morte

Após a morte, o corpo de Andreia foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia. A representação apresentada pela família questiona a atuação durante o exame necroscópico e afirma que o cirurgião teria acompanhado o procedimento no SVO.

De acordo com a peça, o exame do SVO registrou presença de secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares nas bases pulmonares e trombose coronariana aguda no tronco da artéria coronária esquerda. A defesa afirma haver divergência entre esses achados e a causa da morte registrada em documento civil e pede investigação sobre o nexo entre os achados, a cirurgia e o pós-operatório.

A representação também solicita uma perícia médico-legal independente para esclarecer a causa definitiva e imediata da morte e avaliar se havia relação entre as condições clínicas anteriores, o procedimento cirúrgico e as complicações respiratórias apresentadas no pós-operatório.

No dia do enterro, Djiane disse que o médico a encontrou e comentou sobre "devolver" parte do dinheiro que teria recebido da cirurgia.

Durante a piora de Andreia, a irmã tentou contato com os médicos por meio do grupo que possuía com a equipe profissional, mas, segundo ela, ninguém a respondeu. Somente após a mulher apresentar um quadro de parada cardiorrespiratória em assistolia, que uma enfermeira e uma médica plantonista interviram.

Foram realizadas manobras de reanimação, porém Andreia não apresentou melhora e morreu.

Cerca de uma hora após a paciente morrer, o médico-cirurgião, responsável pelos procedimentos, chegou ao hospital.

No dia do enterro, Djiane disse que o médico a encontrou e comentou de "devolver" parte do dinheiro que teria recebido da cirurgia.

Buscas por respostas

A representação jurídica da família procurou o Ministério Público de Goiás para pedir a instauração de um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) e a preservação urgente de provas. O documento afirma que o objetivo é apurar, entre outros pontos, possível violação do dever de cuidado, eventual omissão no atendimento e possível nexo causal entre a assistência médico-hospitalar e a morte.

"Eu preciso fazer Justiça", relatou Djiane sobre buscar autoridades para investigar o caso da irmã.

A defesa da família de Andreia defende que, após mais de oito horas de uma cirurgia plástica combinada invasiva, deveria ser avaliada a necessidade de internação em UTI. A representação questiona ainda o fato de a paciente ter sido encaminhada para um quarto comum e afirma que o hospital não teria oferecido suporte de terapia intensiva no pós-operatório imediato.

A peça apresentada ao MP também enquadra os fatos, em tese, como possível homicídio culposo majorado pela inobservância de regra técnica de profissão. O próprio documento ressalta, porém, que a definição do nexo causal depende de perícia médico-legal independente e que não há elementos, até o momento, para afirmar a existência de dolo eventual por parte dos profissionais.

Gostou? Compartilhe