Entenda por que cientistas apelidaram fragmentos de pepinos do mar de zumbis

Publicado em 09/06/2026, às 23h38
Laboratório Mercier
Laboratório Mercier

Por Galileu

Pesquisadores da Universidade Memorial, no Canadá, descobriram que fragmentos de tecido do pepino-do-mar Psolus fabricii podem sobreviver e se regenerar por mais de três anos fora do organismo, desafiando a noção de que tecidos multicelulares complexos não conseguem viver fora de um corpo. Essa descoberta pode ter implicações significativas para a biologia e medicina regenerativa.

Os fragmentos mantiveram atividade metabólica e divisão celular em um ambiente natural, onde normalmente se esperaria a decomposição rápida, sugerindo que esses tecidos absorvem nutrientes diretamente da água do mar. A pesquisa foi motivada pela observação inicial de que alguns fragmentos não se degradaram após semanas.

Os cientistas agora consideram esses tecidos como 'tecidos zumbis', pois funcionam como unidades biológicas independentes, mas não se reproduzem. A pesquisa continua para entender as implicações evolutivas e práticas dessa descoberta, que pode reduzir a necessidade de sacrificar animais para estudos biomédicos.

Resumo gerado por IA

Tudo começou com um fragmento de tecido que deveria ter desaparecido em poucos dias. Após um experimento de laboratório, pesquisadores da Universidade Memorial, no Canadá, deixaram um pequeno pedaço de pepino-do-mar em um tanque com água do mar corrente. O esperado era que o tecido se degradassse rapidamente. Em vez disso, ele continuou vivo. Semanas viraram meses, e os meses se transformaram em anos.

A observação deu origem a um estudo publicado na revista Science Advances, que descreve o que os autores consideram ser o primeiro caso conhecido de tecido multicelular complexo capaz de sobreviver e se regenerar por anos fora do organismo original em condições naturais. A pesquisa foi liderada por Sara Jobson, doutoranda do Departamento de Ciências Oceânicas da Universidade Memorial, e teve como foco o pepino-do-mar Psolus fabricii, espécie encontrada nas águas frias do Atlântico Norte.

Quando fragmentos dos pés ambulacrários e tentáculos do animal foram removidos e mantidos em água do mar não esterilizada, as amostras cicatrizaram rapidamente. Elas reorganizaram suas estruturas internas e permaneceram metabolicamente ativas por mais de três anos.

"Estamos vendo algo que não havia sido documentado antes nesse tipo de ambiente", afirmou Jobson, em comunicado. "Sempre soubemos que os pepinos-do-mar têm uma capacidade de regeneração notável, mas a suposição era de que qualquer tecido desprendido simplesmente morreria."

A descoberta desafia uma das premissas mais básicas da biologia, a de que tecidos complexos não conseguem sobreviver por muito tempo após serem separados de um organismo. Em geral, mesmo culturas celulares mantidas em laboratório exigem condições cuidadosamente controladas para permanecer viáveis.

Nesse caso, os fragmentos sobreviveram em um ambiente repleto de microrganismos, onde normalmente se esperaria a rápida decomposição do material biológico. Segundo os pesquisadores, as amostras não apenas permaneceram vivas, como continuaram apresentando divisão celular, atividade imunológica e sinais de metabolismo ativo. Sem boca ou sistema digestório, os tecidos parecem absorver nutrientes diretamente da água do mar e possivelmente reciclar recursos internos para sustentar suas funções.

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"Eles desafiam nossas definições usuais, não estão claramente vivos no sentido tradicional, mas também não estão mortos", disse Jobson.

A equipe passou a se referir informalmente aos fragmentos como "tecidos zumbis", uma expressão que faz referência ao estado biológico incomum observado. Os tecidos não se desenvolvem em novos indivíduos nem apresentam capacidade reprodutiva, mas continuam funcionando como unidades biológicas independentes.

A descoberta foi resultado de anos de observação. Inicialmente, os cientistas notaram que alguns fragmentos removidos não haviam se degradado após semanas. Intrigados, decidiram acompanhar o material por mais tempo. O comportamento persistiu e acabou se tornando o foco de uma investigação formal.

Ao longo de mais de três anos, os pesquisadores registraram crescimento, reorganização estrutural e manutenção da atividade biológica. Mesmo no final do estudo, não foram observados sinais evidentes de envelhecimento ou declínio funcional.

"Nossas descobertas geram muitas outras perguntas", afirmou Jobson. "Por que esses pequenos fragmentos de tecido manteriam a capacidade de se curar e sobreviver sem qualquer propósito reprodutivo? Qual é o fator evolutivo que permite que isso aconteça?"

Para verificar se o fenômeno era comum entre equinodermos, grupo que inclui estrelas-do-mar e ouriços-do-mar, os cientistas realizaram experimentos semelhantes com outras espécies. Os resultados foram diferentes: nesses casos, os tecidos se degradaram em semanas ou meses, sugerindo que a capacidade observada pode ser uma característica singular de Psolus fabricii.

Além de levantar questões fundamentais sobre os limites entre vida e morte, a descoberta pode ter implicações práticas para a medicina regenerativa e a engenharia de tecidos. Há décadas, cientistas buscam formas de manter tecidos vivos fora do corpo para aplicações biomédicas. Atualmente, a maioria dos sistemas depende de condições artificiais altamente controladas.

Os tecidos do pepino-do-mar, por outro lado, conseguiram preservar sua organização multicelular e suas funções biológicas em um ambiente natural. Segundo os autores, esses "explantes vivos" podem se tornar modelos experimentais importantes para pesquisas futuras, além de reduzir a necessidade de sacrificar animais para obtenção de material biológico.

"Ainda não entendemos que vantagem evolutiva poderia explicar esse tipo de persistência", disse Jobson. "Pelo que vimos até agora, não há indicação de que esses tecidos estejam se aproximando de um ponto final."

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