Polícia

Exclusivo: suspeito de tentar extorquir alagoano conversa ao vivo com reportagem; ouça

João Victor Souza | 17/02/21 - 11h21 - Atualizado em 17/02/21 - 12h45
Ilustração

Uma ligação telefônica com tentativa de extorsão foi registrada com exclusividade pela Rádio Pajuçara FM Maceió na manhã desta quarta, 17. O caso envolve falsas acusações de pedofilia contra um alagoano e o golpe seria praticado por um grupo criminoso que já está sendo investigado no Rio Grande do Sul. O mesmo golpe já teve registro em Alagoas em novembro do ano passado. 

Durante o programa Pajuçara na Hora de hoje, o repórter Hélio Góes entrevistou a vítima, identificada como Marcos Vinícius, que estava na Central de Flagrantes, no Farol, para registrar Boletim de Ocorrência contra o golpista. O homem explicou como havia sido a abordagem dando o detalhe de que, no último contato, o suspeito se apresentou como delegado do município de Canela, no RS.

O criminoso, sem saber que estava no ar, fez uma ligação telefônica para Marcos. Com a devida autorização, Hélio Góes atendeu ao vivo ao telefonema se passando pela vítima e conversou por alguns minutos com o suspeito. O golpista pediu dinheiro para que as acusações contra o alagoano fossem retiradas.

Veja abaixo a primeira parte do diálogo:

Hélio Góes: Alô, bom dia!

Golpista: Alô [...] É o delegado Alex. Eu conversei aqui com o pai da menor e ele quer resolver isso da melhor maneira possível. Ele não quer te expor...

Hélio Góes: Doutor, como é que eu faço para mandar esse dinheiro para o senhor, para eliminar esse assunto de uma vez por todas?

Golpista: Eu vou entrar em contato com o seu Luiz [falso pai], e vou pedir uma conta para ele, para o senhor depositar e resolver isso de uma vez por todas.

Hélio Góes: Essa pessoa que o senhor está falando que eu conversei, essa menina, ela está bem?

Golpista: Ela está bem, mas... Bem ela não está, porque na idade dela isso não é normal, correto? Inclusive ela vai ser internada... para onde vão as crianças abusadas, violentadas nas redes sociais... Elas sofrem psicologicamente, correto?

Hélio Góes: Como o senhor conseguiu me localizar?

Golpista: Eu localizei o senhor... Pela ocorrência... Da família... De vir para a nossa DP. Nós pegamos, colocamos um cabo no telefone da menor, e pesquisamos tudo, investigamos todo o ocorrido. Realmente o senhor cometeu um crime.

Hélio Góes: Eu posso ser preso por isso, Doutor?

Golpista: É um crime de pedofilia, a partir do momento que o senhor armazenar e enviar fotos para uma menor, o senhor está cometendo um crime de pedofilia. Artigo 241 do Código Penal da Lei Brasileira.

Hélio Góes: Eu pagando esse valor, estou liberado de tudo, doutor?

Golpista: O senhor vai estar liberado. Nós vamos resolver isso da melhor maneira possível, como eu disse ao senhor. O pai da menor não quer expor a menina e você não vai ser exposto.

Hélio Góes: Dá para o senhor informar como eu devo fazer esse depósito, pois por coincidência, a minha residência é em frente a uma agência de um banco. Dá para o senhor me informar de que forma posso passar esse valor agora?

Golpista: Eu vou te enviar a conta da família, e aí o senhor deposita o dinheiro na conta [...] Eu vou te enviar por Whatsapp.

Após a ligação, o homem enviou a imagem, pelo aplicativo, de um cartão de crédito com a conta da Caixa Econômica Federal no nome de Darlene Dorneles Borges. Minutos depois, ele retornou o contato e voltou a falar ao vivo com a reportagem da Rádio Pajuçara FM

Leia a continuação conversa:

Golpista: Eu te mandei a conta.

Hélio Góes: Essa agência é em Canela?

Golpista: Sim.

Hélio Góes: O senhor está em casa ou na delegacia?

Golpista: Estou na delegacia.

Hélio Góes: A minha esposa está tentando fazer um TED, mas não está conseguindo. O senhor tem como fornecer o PIX da conta para ser mais rápido?

Golpista: O PIX da conta? Eu tenho que entrar em contato com o pai da menor.

Hélio Góes: Eu vou fazer aqui um TED ou um DOC, quando for mais tarde, o senhor pode acessar para ver se caiu na conta. Tá certo?

Golpista: Assim que o senhor depositar, me mande o comprovante [...] Daqui a quanto tempo o senhor vai colocar na conta?

Hélio Góes: A internet está horrível, eu vou botar às 14h. Eu faço já essa transferência.

Golpista: O senhor falou para mim que ia colocar agora o dinheiro, aí agora está falando que só vai colocar 14h. Que horas você vai colocar o dinheiro?

Hélio Góes: Às 15h, por aí. Vai estar na conta.

Golpista: Assim que o senhor realizar a transferência, me mande o comprovante [...] Estou aguardando.

Marcos Vinícius não conseguiu registrar o Boletim de Ocorrência na Central de Flagrantes, no Farol, nesta manhã, e foi orientado pelos agentes de plantão para relatar o caso na delegacia de Fernão Velho. 

Os materiais recolhidos pela vítima, como áudios, fotos e prints de mensagens, devem ser entregues às autoridades alagoanas. O diálogo registrado ao vivo pela rádio também deve ser inserido no inquérito para investigar o caso.

Ouça a reportagem na íntegra:


Fases do golpe

O modo de operação do suposto grupo é basicamente o mesmo: o golpista entra em contato com a vítima como uma mulher, por aplicativo de mensagem, e tenta seduzí-la. Logo depois, a "mulher" diz que é menor de idade e uma pessoa, na maioria das vezes se apresentando como pai dela, aterroriza a vítima, com ameaças de denunciá-lo para a polícia.

Em sequência, o homem se passa por delegado e afirma que a vítima tem que depositar uma quantia em dinheiro para solucionar a situação. Ele acrescenta que a família pede um acordo para não expor a menina, e caso tenha a negativa da vítima, um boletim seria registrado na delegacia e poderia ocorrer a prisão.

A suspeita é de que o esquema envolve um presidiário de Porto Alegre, que está recluso desde 2018. Mais pessoas teriam relação com o crime e já estariam sendo identificadas pelas autoridades gaúchas.

Crimes contra alagoanos

Até novembro de 2020, três pessoas que moram em Alagoas haviam procurado a polícia para relatar o crime. Dezenas de casos semelhantes também foram registrados no Sul do país.

De acordo com o delegado Robervaldo Davino, à época, o criminoso estava recluso num presídio de Porto Alegre e inicialmente se passa por uma mulher para tentar seduzir a vítima por meio de aplicativo de mensagens.

Após ganhar a confiança dela, o presidiário envia fotos do corpo de mulher para o homem, sem mostrar o rosto. Logo depois, o golpista se identifica como menor de idade e, nesse momento, simula que o pai da jovem pegou o celular e começa a tentar extorquir o homem.

Davino confirmou que tanto ele quanto as outras duas pessoas que tiveram contato com o bandido não chegaram a ser extorquidas.