O elenco do Festival Drag Dinner Alagoas celebra a diversidade e a arte drag no estado, especialmente em Maceió, berço de tantos talentos da cena local. Parte dos artistas também expressa em seus trabalhos trajetórias marcadas pela identidade, pelo encantamento e por memórias da infância, transformando os reflexos do que viveram — e do repertório cultural que adquiriram ao longo do percurso — em empoderamento e ato de resistência.
Para João Igor Macena, de 32 anos, que dá vida à drag Elza Evangelista, a arte drag é uma ferramenta de discussão social e política, especialmente voltada para o fortalecimento da identidade negra. Segundo ele, uma das principais referências para a construção da personagem foi sua mãe, além da figura de Vera Verão, personagem interpretada por Jorge Lafond.
“Minha mãe era locutora e artista, então eu adorava vê-la se maquiar, usar aquelas roupas brilhosas e se preparar para trabalhar. Isso sempre me inspirou. Hoje também reconheço uma grande referência na figura de Vera Verão. Quando eu era criança, não gostava dessa associação, porque era um dos apelidos que recebíamos quando éramos crianças afeminadas. Mas, ao crescer, conhecer a história de Jorge Lafond e entender o grande artista que ele foi, ressignifiquei esse lugar”, contou João Igor.
Inspirada também na cantora Elza Soares, sua personagem busca valorizar referências afrofuturistas e promover reflexões sobre representatividade. No festival, ele apresentará uma homenagem ao álbum A Mulher do Fim do Mundo, defendendo a ideia de que a arte e a resistência permanecem mesmo diante das adversidades.
Linguagem drag
Já Allan Covausky, que interpreta a drag Alycia Ryos, conta que sua relação com a arte drag nasceu da admiração por artistas locais e se consolidou após sua primeira montagem para um bloco de Carnaval, entre os anos de 2010 e 2012.
Para ele, ser drag é um ato de resistência, cura e ocupação de espaços, inclusive no ambiente acadêmico, onde desenvolve pesquisas relacionadas à linguagem drag.
“Como ator e professor de teatro, a arte drag se tornou uma das minhas áreas de pesquisa e também uma importante forma de expressão artística”, disse o artista, que revelou que seu show no festival terá muita nostalgia, humor e personalidade.
Arte que cura
Por sua vez, Jackson Douglas Oliveira, de 33 anos, dá vida à drag Pérola Queen há 12 anos e relembra sua trajetória ligada ao teatro, aos projetos sociais e à interpretação de personagens antes de ingressar na arte drag. Inspirada principalmente em sua mãe e em ícones da televisão brasileira, como Xuxa e Angélica, sua personagem tem como marca o humor, as cores vibrantes e a estética caricata.
Segundo Jackson, tudo começou quando ele fez parte de uma companhia de teatro, onde algumas artistas interpretavam uma personagem em frente a lojas no Centro de Maceió.
“Fiquei muito interessado. Na verdade, eu já desenvolvia projetos sociais e sempre atuava na parte artística, interpretando personagens como Papai Noel, o palhaço e tantos outros”, relatou.
Depois, ele foi convidado para trabalhar na frente de uma loja como drag e acabou se apaixonando pela atividade. A partir daí, Jackson passou a trabalhar com Patty Maionese, Pantella Butterfly, Rebecca Big Mac, Gina Kynnors e Lavínia Burtner. “Também foi nesse período que eu e Lalacra Nox começamos juntas, exatamente no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo local. Desde então, seguimos fazendo esse furacão acontecer.”
No festival, o artista apresentará um espetáculo inspirado em A Pequena Sereia, em uma versão cômica e irreverente. “A ansiedade está a mil, mas sei que será um show extraordinário. Espero que a casa esteja lotada e que o público esteja preparado.”
Assim como os demais artistas, Jackson vê a arte drag como um espaço de resistência e acredita no poder transformador da arte. “Eu amo fazer arte drag. Para mim, estar montado, além de ser um ato de resistência, exige muita força. A arte é tudo para mim. A arte cura”, concluiu.
Festival Drag Dinner Alagoas
O Festival Drag Dinner Alagoas acontece neste domingo (31), a partir das 15h, no Rex Bar, localizado no bairro do Jaraguá, em Maceió. Os ingressos podem ser adquiridos por meio da plataforma on-line Outgo ou na entrada do evento, mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível. Os donativos serão destinados a instituições de caridade.
Também está à venda o copo colecionável do festival, que pode ser adquirido pela internet ou no dia do evento.
Ao comprar o ingresso e o copo, além de doar o alimento, o público contribui para a continuidade do festival, fortalece a cena drag e ajuda pessoas em situação de vulnerabilidade.
A segunda edição do Festival Drag Dinner Alagoas é realizada e produzida por Fernando Cassimiro, com apoio e parceria da vereadora Teca Nelma, da Secretaria de Estado da Cidadania e da Pessoa com Deficiência (Secdef) e Secretaria de Estado dos Direitos Humanos de Alagoas (Sedh), Tags Produções, New Case, Inbox Estúdio Criativo, Rex Jazz Bar, Footuri, Caatinga Rocks, Estúdio Cajé e Jamerson Soares Assessoria.
Mais informações: @dragdinneralagoas (Instagram)