Jornalista Ricardo Corrêa:
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“A história é famosa e lembrada com frequência. Na véspera da disputa eleitoral travada em 15 de novembro de 1985, o então senador Fernando Henrique Cardoso sentava-se na cadeira de prefeito de São Paulo, a pedido de fotógrafos, para uma foto. Ele não estava eleito, mas era favorito nas pesquisas. Perdeu e Jânio Quadros, o eleito, foi à forra, desinfetando a cadeira no dia seguinte em exibição de vingança.
Flávio Bolsonaro não sentou na cadeira do Palácio do Planalto, que continua ocupada por Lula, candidato à reeleição. Mas age como se já eleito fosse, assim como seus aliados. Eles circulam por aí já negociando a distribuição de ministérios, articulando as eleições no Congresso e buscando pontes e acordos com o Supremo Tribunal Federal (STF). O candidato já faz até convites para a posse, como em vídeo ao presidente da Colômbia.
Flávio tem tanta certeza de que já ganhou que permite-se até arriscar-se em declarações de popularidade duvidosa com o eleitor de centro, decisivo no pleito. Avisa que mudará a Constituição, critica a discussão sobre o fim da escala 6x1 e a proibição das bets. Parece certo de que tem vantagem suficiente para ser mais ele do que foi durante a campanha.
Do outro lado, os aliados de Lula estão atônitos, enquanto o presidente tenta mostrar-se otimista e confiante. Mas a série de reuniões para debater os rumos da campanha, fazer uma caça às bruxas e mudar a comunicação deixam claro que a tensão é total. O baque de terminar atrás já no primeiro turno, mesmo com alguma divisão de votos à direita, foi grande. A ponto de a militância se indignar com a própria sociedade.
Há sentido no desespero da campanha petista. São hoje pouco mais de duas semanas para virar o jogo. Em menos de 20 dias, será preciso que os governistas consigam o que não obtiveram em quase 4 anos de governo: oferecer uma imagem positiva da atual gestão ou ao menos convencer parcelas significativas da sociedade de que Lula é um mal menor. Mas há exagero no salto alto de Flávio e seus companheiros.
Não é tarefa fácil para Lula virar. Não pela diferença de 2,2 mihões de votos que precisa tirar, que é bem menor do que o desconto obtido por Jair Bolsonaro em 2022 contra o próprio Lula, por exemplo. Mas pelo perfil do eleitor que restou para ser conquistado, e que votou em nomes que, agora, em boa parte, apoiam Flávio.
Todas as pesquisas mostravam que a maior parte dos votos em Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema tenderiam a migrar mais para Flávio no segundo turno. Mas ainda há uma pergunta sem resposta: se Flávio cresceu tanto em cima deles na reta final, quantos desses propensos eleitores de Flávio no segundo turno já não migraram. Dos que sobraram, será que Flávio tem mesmo maioria ou parcela importante pode migrar para Lula?
É bom lembrar que, em 2022, da mesma forma, Simone Tebet, a terceira colocada, decidiu apoiar Lula. E Ciro Gomes, o quarto, tinha eleitorado muito mais vinculado à esquerda. E mesmo assim, Jair Bolsonaro reduziu de 6 milhões para 2,1 milhões a vantagem de Lula no segundo turno. Lula saiu do primeiro turno com mais de cinco pontos de vantagem e terminou menos de dois na frente. Como isso se deu?
Além dos votos que restaram nos demais candidatos e que, até a última hora, teimaram em não ir para ele ou Flávio, Lula tem uma batalha para enfrentar com a abstenção. Sobretudo de mulheres e pessoas mais velhas. Por regra, as ausências aumentam no segundo turno, quando eleições a governos estaduais já estão definidas. Mas, em meio à polarização, em 2022, mais de 500 mil pessoas que deixaram de ir no primeiro turno apareceram para votar no segundo.
Um terceiro ponto ao qual Lula pode se apegar é a mobilização de seu eleitor no segundo turno. Até pelo desespero de estar atrás nas pesquisas, há uma nítida mobilização maior dos lulistas na busca por convencer outros eleitores, levar parentes que não votaram às urnas e fazer um enfrentamento que a campanha, por si só, não consegue fazer. Isso não pode ser desprezado.
Flávio hoje é favorito, como Lula foi durante boa parte da campanha. Mas, atualmente, as coisas mudam muito rápido e o governo ainda tem uma máquina capenga nas mãos. Se as primeiras pesquisas, que saem nesta quinta, mostrarem uma disputa parelha, ou vantagem pequena, a campanha de Lula vai se inflamar e a de Flávio terá que despertar de um transe de que já venceu uma disputa que será acirrada até o fim.”
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