Alimentação, hábitos e emoções podem interferir na preferência por comidas calóricas antes de dormir
É comum ouvir pessoas relatarem que, ao final do dia, surge uma vontade quase incontrolável de comer um doce, seja chocolate, sobremesa ou qualquer alimento açucarado. Mais do que um simples hábito, esse comportamento está ligado a fatores que envolvem desde a rotina alimentar até o funcionamento hormonal e emocional do organismo. Na prática, a chamada “fome noturna” costuma refletir como o dia foi conduzido.
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Segundo a Dra. Alana Rocha, médica e professora da pós-graduação em Endocrinologia da Afya Vitória, o corpo funciona em ciclos e espera regularidade alimentar. “Quando há longos intervalos sem comer, refeições apressadas ou desequilibradas, o organismo tende a compensar à noite, aumentando o apetite e a preferência por opções mais calóricas e de rápida absorção”, explica. Esse padrão é ainda mais comum em rotinas estressantes e jornadas prolongadas.
A privação de sono e o cansaço acumulado também interferem nesse processo. “A leptina, hormônio ligado à saciedade, quando desregulada, pode favorecer quadros como a síndrome do comer noturno”, destaca. Além disso, alterações naturais do período, como a queda do cortisol e o aumento da melatonina, influenciam o apetite. “A exposição à luz azul de celulares, computadores e lâmpadas de LED interfere na produção de melatonina, prejudica o sono e pode contribuir para o aumento da fome à noite”, acrescenta a médica.
Mas não é só o corpo que explica a fome noturna. As emoções também têm papel central. De acordo com a Dra. Fernanda Miranda, médica e professora da pós-graduação em Psiquiatria da Afya Itaperuna, o período noturno pode aumentar a vulnerabilidade emocional. “Ao fim do dia, há fadiga mental, redução do autocontrole e menos distrações externas, o que intensifica sentimentos como ansiedade e estresse”, explica.
Esse cenário também envolve mudanças cognitivas, como menor capacidade de regular pensamentos e maior tendência à impulsividade. Dessa forma, os doces assumem uma forma rápida de conforto. “Alimentos ricos em açúcar e gordura ativam circuitos de recompensa no cérebro, gerando prazer imediato, mas de curta duração”, afirma. Esse mecanismo ajuda a explicar o uso frequente das chamadas comfort foods como estratégia de alívio emocional.
Com o tempo, essa associação se fortalece e o alimento passa a ser vinculado ao relaxamento e pode se tornar um hábito automático, acionado por fatores como horário ou estado emocional, mesmo sem fome física. Trata-se de um padrão aprendido, no qual comer funciona tanto como fonte de prazer quanto como forma de aliviar emoções desconfortáveis, uma recompensa imediata, mas nem sempre saudável.

Do ponto de vista nutricional, a organização das refeições ao longo do dia é determinante. Segundo a Dra. Marcela Reges, médica e professora de Nutrologia da Afya Goiânia, longos períodos em jejum favorecem a fome intensa à noite.
“Quando a pessoa passa muitas horas sem se alimentar, o corpo entra em alerta energético, com aumento da grelina [hormônio da fome] e maior busca por alimentos calóricos”, explica. Ela reforça que isso não é apenas falta de controle, mas uma resposta do organismo tentando compensar o que faltou durante o dia. Por isso, a preferência por doces aumenta por oferecer energia rápida e sensação imediata de prazer, especialmente diante do cansaço.
Controlar a fome noturna exige atenção tanto à alimentação quanto aos hábitos da rotina. Pequenas mudanças ao longo do dia podem ajudar a reduzir a vontade de comer doces antes de dormir. Para isso, as especialistas sugerem:
Por Beatriz Felicio
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