Brasil

Idec encontra agrotóxicos em ultraprocessados de origem animal comuns na mesa do brasileiro

Época Negócios | 29/07/22 - 07h20
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O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) divulgou nesta quinta-feira (28) resultados de testes sobre a presença de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados comuns na mesa do brasileiro. Segundo o instituto, foram encontrados agrotóxicos em 58% dos produtos analisados: de 24 ultraprocessados derivados de carnes e leite, 14 apresentaram resíduos de agrotóxicos. 

Os produtos nos quais foram encontrados mais resíduos de agrotóxicos são o empanado de frango (nugget) Seara, com 5 agrotóxicos; o requeijão Vigor, com 4 agrotóxicos; e empatados no terceiro lugar estão o requeijão Itambé e o empanado de frango (nugget) Perdigão, ambos com 3 agrotóxicos (veja abaixo a lista completa).

Os resultados fazem parte do segundo volume de testes do "Tem Veneno Nesse Pacote", lançado em 2021 pelo Idec, que agora avalia ultraprocessados de origem animal. O primeiro volume detectou resíduos de agrotóxicos em bebidas, biscoitos e bolachas. O Instituto afirma que enviou notificações para todas as empresas responsáveis pelos produtos nos quais foram encontrados agrotóxicos.

"Estudos anteriores e inclusive o programa de monitoramento da Anvisa identificaram agrotóxicos em frutas, legumes e verduras in natura, o que pode induzir o consumidor a pensar que esses alimentos são menos seguros do que os ultraprocessados. Nossas pesquisas vêm para expor essa lacuna. Precisamos cobrar do governo o monitoramento e a ampla divulgação dos resultados das testagens, além da expansão das análises para incluir os ultraprocessados", afirma Carlota Aquino, diretora executiva do Idec.

A Seara, marca do grupo JBS, informou em nota que "forneceu ao Idec, em março de 2022, respostas técnicas detalhadas sobre os itens supostamente encontrados em seus produtos e lamenta que esses esclarecimentos não tenham sido contemplados no relatório publicado". Também disse que "todos os produtos avaliados respeitam os parâmetros para itens alimentares regulamentados pela Anvisa".

A Vigor afirma em nota que "realiza controles de qualidade com os mais altos padrões encontrados no mercado e, de acordo com o estabelecido na legislação pertinente, controla e examina seus insumos, neste caso, o leite. Sobre o estudo em questão, a empresa informa que não teve acesso a informações importantes para que pudesse, na ocasião, analisar e rastrear o lote do produto citado".

A BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, respondeu que "seus produtos são devidamente fiscalizados por órgãos competentes, como a Anvisa e o MAPA, que utilizam padrões internacionais de pesquisa para detecção de eventuais resíduos de defensivos agrícolas, eventualmente utilizados pelos produtores de insumos na ração animal". A companhia afirmou também que "retornou o contato do Idec respondendo a todos os questionamentos levantados pelo instituto".

Época NEGÓCIOS entrou em contato com o Grupo Lactalis, responsável pela Itambé, e com a Cooperativa Central Oeste Catarinense Aurora, dona da Aurora, mas as empresas não responderam aos pedidos de comentários até a publicação desta reportagem.

A pesquisa completa pode ser conferida no site do Idec.

Os 14 produtos em que foram encontrados resíduos

Requeijão Vigor: detectados resíduos de 2 agrotóxicos (cipermetrina e fipronil), 1 resíduo de ingrediente farmacêutico ativo (IFA) (fluazurona) + metabólitos de fipronil e sulfona

Requeijão Itambé: detectados resíduos de 2 agrotóxicos (cipermetrina e clorpirifós) e 1 resíduo de ingrediente farmacêutico ativo (IFA) (fluazurona)

Linguiça suína calabresa Seara: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Mortadela Perdigão: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Mortadela Seara: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato)

Salsicha Sadia: detectado resíduo de 1 agrotóxico (glufosinato)

Salsicha Perdigão: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Salsicha Aurora: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Hambúrguer de carne bovina Sadia: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Hambúrguer de carne bovina Perdigão: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Hamburguér de carne bovina Seara: detectados resíduos de 1 agrotóxico (glifosato e seu metabólito AMPA)

Empanado de frango (nuggets) Sadia: detectados resíduos de 1 agrotóxico (pirimifós metílico) e 1 ingrediente potencializador do efeito dos agrotóxicos (butóxido de piperonila)

Empanado de frango (nuggets) Perdigão: detectados resíduos de 2 agrotóxicos (pirimifós metílico e cialotrina lambda) e 1 ingrediente potencializador do efeito dos agrotóxicos (butóxido de piperonila)

Empanado de frango (nuggets) Seara: detectados resíduos de 5 agrotóxicos (bifentrina, cialotrina lambda, glufosinato, pirimifós metílico e glifosato e seu metabólito AMPA)

Posicionamento das empresas

Seara (Grupo JBS):

"A Seara forneceu ao Idec, em março de 2022, respostas técnicas detalhadas sobre os itens supostamente encontrados em seus produtos e lamenta que esses esclarecimentos não tenham sido contemplados no relatório publicado. Todos os produtos avaliados respeitam os parâmetros para itens alimentares regulamentados pela ANVISA. 

A empresa mantém vigilância ativa de controle de matérias-primas de origem animal, vegetal e mineral, além de laboratório próprio dedicado a pesquisas de resíduos e contaminantes. Reforçamos o compromisso com a qualidade dos nossos produtos Seara, que é reconhecida mundialmente.

As unidades têm processos de controle rigorosos e, além de submetidas a inspeções públicas, são auditadas por clientes dos mercados interno e externo".

Sadia e Perdigão (Grupo BRF):

"A BRF esclarece que seus produtos são devidamente fiscalizados por órgãos competentes, como a Anvisa e o MAPA, que utilizam padrões internacionais de pesquisa para detecção de eventuais resíduos de defensivos agrícolas, eventualmente utilizados pelos produtores de insumos na ração animal.

A Companhia ressalta que aplica internamente rigorosos padrões de qualidade que atendem à regulamentação da própria Anvisa e do MAPA e são reconhecidos por diversos organismos de controle. A Companhia informa, também, que retornou o contato do IDEC respondendo a todos os questionamentos levantados pelo instituto".

Vigor:

"A Vigor realiza controles de qualidade com os mais altos padrões encontrados no mercado e, de acordo com o estabelecido na legislação pertinente, controla e examina seus insumos, neste caso, o leite. Sobre o estudo em questão, a empresa informa que não teve acesso a informações importantes para que pudesse, na ocasião, analisar e rastrear o lote do produto citado, tais como data de fabricação e/ou validade do produto, laudo técnico, laboratório onde foi realizada a análise, data de realização do exame e método específico utilizado.

A companhia reforça que realiza constantemente programas de controle interno em todas as suas unidades fabris e postos de captação de leite, bem como o monitoramento através de laboratórios credenciados na rede brasileira de qualidade do Leite-RBQL, não tendo verificado a presença de inseticidas, acaricidas e agrotóxicos em seus produtos.

Além disso, o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), por meio de coletas do programa nacional, controla constantemente a presença dessas substâncias, estando a Vigor em plena conformidade. A empresa reforça mais uma vez que preza pela saúde e o bem-estar de seus consumidores e tem como prioridade a Segurança dos Alimentos, bem como a garantia da qualidade de seus produtos em todas as etapas da cadeia de produção".

Grupo Lactalis (Itambé) e Cooperativa Central Oeste Catarinense Aurora (Aurora) ainda não se manifestaram.