Lula e Flávio Bolsonaro disputam votos de 48,7 milhões de ausentes e eleitores de terceira via

Publicado em 24/10/2026, às 13h33
Lula e Flávio Bolsonaro - Foto: Agência Brasil
Lula e Flávio Bolsonaro - Foto: Agência Brasil

Por Folhapress

A eleição presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se aproxima do fim, com pesquisas indicando um empate técnico e uma intensa disputa por 48,7 milhões de eleitores que não votaram nos dois candidatos no primeiro turno.

Lula enfrenta o desafio de mobilizar eleitores ausentes, enquanto Flávio busca garantir votos de candidatos derrotados, com ambos os lados utilizando estratégias digitais e segmentadas para atrair diferentes grupos demográficos.

As campanhas estão focadas em reverter a abstenção, especialmente em estados-chave como Minas Gerais, onde a mobilização dos eleitores pode ser decisiva, enquanto ataques mútuos visam aumentar a rejeição do adversário e conquistar votos perdidos.

Resumo gerado por IA
A disputa pela Presidência chega ao fim neste domingo (25) com Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) enfrentando aquela que talvez seja a eleição mais acirrada da história do país. Com as últimas pesquisas de intenção de voto sinalizando empate técnico, a briga no entreturnos se voltou principalmente à conquista dos 48,7 milhões de eleitores que optaram por um caminho alternativo: seja o dos candidatos da terceira via, dos brancos e nulos ou o da abstenção.
A conta considera os 9,3 milhões que optaram pelos concorrentes derrotados no primeiro turno; 3,6 milhões que anularam o voto; 2,3 milhões que votaram em branco e o recorde de 33,4 milhões de ausentes.
Do lado petista, Lula diz disputar as eleições pela última vez e tem a difícil tarefa de convencer o eleitor ausente a comparecer às urnas. A abstenção do primeiro turno pesou mais para ele do que para o rival, segundo análise do cientista político Antônio Lavareda, e tirou dele cerca de 8 pontos; do senador, 5.
Já Flávio Bolsonaro tenta assegurar a migração dos votos dos presidenciáveis derrotados, a maioria deles alinhada à direita. Ao mesmo tempo, a campanha adversária, turbinada nas redes sociais nessa reta final, tenta aumentar a rejeição ao bolsonarismo.
No cabo de guerra pelo eleitor despolarizado, Flávio puxou mais forte no primeiro momento. Ele saiu como o mais votado no dia 4 de outubro com a antecipação do chamado voto útil e, na sequência, foi endossado por Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que receberam quase 70% dos votos que não foram para Lula ou Flávio (cerca de 6,3 milhões).
Renan Santos (Missão), escolha de 2,6 milhões de eleitores, não apoiou nenhum dos finalistas. Nas semanas seguintes, a disputa se equilibrou em meio às mobilizações nas ruas e nas redes, com o "Exército do Lula". O atual presidente tenta um feito inédito: desde 1989, quando o país voltou a ter eleições diretas e estreou o mecanismo de segundo turno, nunca houve uma reviravolta na corrida presidencial entre uma rodada e outra.
O cenário, contudo, seria outro se a adesão ao presidente estivesse similar à de 2022. Entre este primeiro turno e aquele, Lula perdeu 3,4 milhões de votos, que o teriam colocado à frente de Flávio na etapa inicial —a diferença entre os dois foi de cerca de 2,2 milhões. A campanha digital petista, liderada pelo deputado André Janones (Rede-MG), tentou reverter o quadro. As chamadas "missões" passadas pelo parlamentar fizeram o presidente disparar no IPD (Índice de Popularidade Digital) da Quaest em um primeiro momento, ultrapassando Flávio. Na quinta-feira (22), a diferença se estreitou.
Segundo Felipe Nunes, diretor da consultoria, o esforço digital pode impactar as abstenções.
"O que faz alguém ir votar é o nível de interesse na eleição e o quanto essa pessoa está preocupada com o resultado, o quanto ela percebe que o voto dela é decisivo ou não. Há sinais de que Lula está conseguindo mobilizar eleitores no segundo turno e possivelmente aumentar a presença nas urnas. Flávio, que já tem uma base engajada há mais tempo, está estável", diz.
As campanhas apostaram em estratégias segmentadas por gênero. As mulheres responderam por 51% do total de abstenções: foram 16,9 milhões, contra 16,5 milhões entre os homens. Entre as eleitoras de 21 a 44 anos, mais de 7 milhões não compareceram.
Lula aproveitou os debates presidenciais para apostar nessa fatia, que reúne mulheres em idade reprodutiva e em plena idade produtiva no mercado de trabalho.
Ele perguntou ao rival o porquê de ele ter sido o único deputado estadual a votar contra a ampliação da licença-maternidade das servidoras públicas do Rio de Janeiro, em 2009. Em outras peças de campanha, associa o fim da escala 6x1 às trabalhadoras em múltiplas jornadas e liga Flávio a retrocessos nos direitos femininos.
O senador, por outro lado, é mais popular entre os homens e mira esse eleitorado com pautas de segurança pública. A ampliação do porte de armas, a redução da maioridade penal e a classificação de facções como narcoterroristas encontram maior adesão entre o público masculino. Em abstenções, foram 8,2 milhões ausentes na faixa dos 21 aos 44 anos, fatia que vota mais em Flávio Bolsonaro, segundo pesquisas Datafolha e Quaest.
Acima de 70 anos, 5,1 milhões de mulheres e 3,3 milhões de homens faltaram. De olho nesse público, os presidenciáveis falaram sobre aposentadoria —Flávio tentando colar as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a Lula, e o petista acusando o rival de estudar um "tesouraço" na seguridade social e em programas como o Farmácia Popular.
Por região, o presidente tem no Nordeste um caminho para conseguir virar: 8 milhões de pessoas não votaram, 1,8 milhão optaram pela terceira via e 1,7 milhão votaram em branco ou nulo. Lula liderou nos nove estados com 63,77% dos votos válidos, ante 30,85% do rival. Nas demais regiões do país, o senador terminou à frente —e, algumas por pouco, como no Norte, em outras com maior distância, caso do Sul.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais e também líderes em abstenções, são um desafio para ambas as campanhas. Flávio superou o petista nos três, mas a manutenção dessa liderança não é certa. Como as disputas pelos governos desses estados já foram resolvidas no primeiro turno, o índice de abstenção pode mudar.
Minas Gerais, o "estado pêndulo", esteve no foco de ambas as campanhas no segundo turno; 3,7 milhões de mineiros não foram votar e outro 1 milhão deles optaram pela terceira via.
Ao longo da campanha de segundo turno, Lula foi a Juiz de Fora, a única das dez maiores cidades mineiras onde ficou à frente do rival, e depois seguiu para Ipatinga —onde Flávio teve vantagem de 29 pontos. Flávio esteve em Capelinha, no nordeste mineiro, uma das poucas cidades do Vale do Jequitinhonha onde venceu o presidente. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) atuou como um articulador do senador em seu estado natal.
Além de disputar a escolha de quem anulou, votou em branco, optou pela terceira via ou se absteve, ambas as campanhas também centraram fogo em tentar virar o voto, elevando ataques para aumentar a rejeição do rival (no caso de Lula, por exemplo, com discurso de que Flávio tiraria direitos dos mais pobres).

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