Priscilla Lima, uma brasileira residente na Espanha, vivenciou uma situação inusitada durante sua gravidez ao perceber a produção de leite em mamas acessórias, um fenômeno que a médica já havia previsto. Essa condição, que afeta de 2% a 6% da população, gerou desconforto físico e estético ao longo dos anos.
Desde a adolescência, Priscilla lidava com dor e inchaço nas axilas, que se intensificaram durante a gestação, levando-a a buscar um diagnóstico. Após anos de incerteza, um mastologista confirmou que se tratava de mamas acessórias, uma condição congênita que pode causar incômodos variados.
Recentemente, Priscilla realizou uma cirurgia para remover as mamas acessórias, optando por um procedimento menos invasivo do que o inicialmente sugerido. Agora em recuperação, ela aguarda ansiosamente a nova fase de sua vida sem esse 'estorvo', refletindo sobre o impacto positivo da cirurgia em sua autoestima.
A jornalista Priscilla Lima, 45, brasileira que mora na Espanha, viveu uma situação inusitada durante a primeira gravidez: leite começou a sair pelas axilas. Mas, ela já esperava que poderia acontecer, pois sabia que tinha mamas acessórias — tecidos mamários que se desenvolvem fora da região habitual dos seios. Durante a gestação, esse tecido aumentou de tamanho e também passou a produzir leite.
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"Eu não assustei, pelo contrário. Eu ri. Todo mundo ficava chocado", diz, em entrevista à CRESCER.
Priscilla já sofria com um incômodo embaixo do braço desde os 15 anos. "Notei uma 'espinha interna' embaixo do meu braço. Tentava espremer e não saia nada, claro. Fui em vários médicos e cada um falava uma coisa. Fiz ultrassom, mamografia e era sempre 'não maligno' e 'deixa pra lá'. Só que doía muito", lembra.
A dor sempre se intensificava quando estava menstruada. A princípio era uma "bolota" do lado esquerdo no seio. Anos mais tarde, apareceu uma do lado direito também. "Sempre dolorida. Às vezes, doía mexer o braço. Mais tarde, fui entender que a dor vinha com as alterações hormonais no ciclo menstrual", conta.
Com o tempo, as "bolotas" foram crescendo, o que atrapalhava seu dia a dia. "Na parte estética também era ruim, porque inchava e ficava uma bola na blusa. No verão, era quase impossível usar blusinha de alcinha", recorda.
'Pensava que era uma bizarrice total'
A resposta só veio anos depois. "Fui numa consulta com mastologista da Unicamp e ele me disse com muita segurança que se tratava de uma mama acessória", afirma. "Ele me disse que, como outros animais, a mulher poderia nascer com mais de dois seios e eu fui sorteada", brinca.
Quando recebeu o diagnóstico, ficou abalada. "Pensava que era uma bizarrice total. Anomalia. Estranheza, nem sei mais o que. Nunca tive vergonha de contar para as pessoas, mas por muitos anos achei que era uma condição rara", destaca.
Priscilla quis remover as mamas acessórias desde o início. "Sempre achei que um dia ia sair naturalmente, como isso não aconteceu, quando tinha uns 30 anos procurei um cirurgião para tirar. Eu acho que, na época, não era uma coisa muito comum, porque a médica meio que não sabia o que fazer", conta.
"Ela disse que teria que abrir, tirar toda mama acessória e só depois de aberto ela ia saber o tamanho da mama. Nesse caso, eu teria que fazer outra plástica para colocar o silicone para igualar as mamas", diz.
Isso significaria duas cirurgias e dois meses de recuperação. Na época, ela trabalhava na TV e não conseguiria se ausentar do emprego por tanto tempo. "Sem chance disso acontecer", acrescenta. Por isso, continuou com as mamas acessórias.
'Todo mundo ficava chocado'
No entanto, quando engravidou, aos 33, ficou muito incomodada, pois as mamas acessórias cresceram bastante. "Quando eu estava com 8 ou 9 meses de gestação, começou a vazar leite da mama. Eu notei meu sutiã molhado embaixo do braço. Um dia, segurando a mama, vi esguichar leite", recorda.
Priscilla já sabia que isso poderia acontecer. "O médico da Unicamp havia me dito lá atrás, mas eu nem lembrava mais. Eu não assustei, pelo contrário. Eu ri. Todo mundo ficava chocado", afirma.
Depois que a filha nasceu, a produção de leite aumentou bastante, inclusive na mama acessória esquerda. Na direita, nunca saiu leite. Mesmo assim, as duas cresceram muito e ficaram caídas. Além do desconforto, a questão estética também passou a incomodar Priscilla. Então, ela voltou à saga de encontrar um médico para fazer a remoção.
"Um dia encontrei no YouTube uma cirurgia de retirada de mama acessória e para a minha surpresa era algo super simples. Um corte da axila e a retirada (queimando). Nada de retirar o seio como a cirurgiã havia me dito antes. Outra surpresa foi que nesse vídeo tinha muitos comentários de mulheres, todas falando que tinha mama acessória - deixei de me sentir uma anomalia. E mais, algumas tinham feito a cirurgia pelo SUS", destaca.
'Eu ainda não consigo saber como vai ser a vida sem esse 'estorvo'. Mas não vejo a hora'
Priscilla começou a buscar por médicas para fazer a cirurgia, até que encontrou Déborah Vazi Ribeiro, uma cirurgiã plástica de Varginha, Minas Gerais, que tinha experiência com o procedimento. A médica sugeriu fazer a retirada da mama acessória junto com uma mamoplastia - cirurgia plástica para reconstruir ou remodelar as mamas.
Então, ela começou a organizar a logística para vir ao Brasil, já que mora na Espanha. "Só não tentei pelo SUS porque disseram que demora uns 2 anos e, como não moro no Brasil, não tenho como vir correndo assim que for chamada", explica.
A cirurgia foi realizada no início de julho e foi um sucesso. "Do lado direito, em que a mama é menor, optamos por fazer só lipoaspiração. A médica acredita que só a lipo ali seria suficiente para retirar as glândulas. Já no caso do lado esquerdo optamos por fazer o corte. Ele fica entre a axila e o seio, ainda estou de curativo, então, não vi como ficou", conta.
Agora, uma semana após o procedimento, Priscilla segue se recuperando. "Eu ainda não consigo saber como vai ser a vida sem esse 'estorvo'. Estou cheia de curativos. Mas não vejo a hora", finaliza.
O que são mamas acessórias?
"As mamas acessórias, também chamadas de mamas ectópicas, são tecidos mamários que se desenvolvem fora da localização habitual das mamas. Elas surgem durante o desenvolvimento embrionário, quando parte da chamada 'linha mamária' não regride completamente", explica a cirurgiã plástica Déborah Vazi Ribeiro.
Segundo ela, a região mais frequentemente acometida é a axila, mas esse tecido pode aparecer em qualquer ponto ao longo da linha mamária, que vai das axilas até a região da virilha.
As mamas acessórias surgem devido à uma alteração no desenvolvimento embrionário. "Trata-se de uma condição congênita, ou seja, a pessoa já nasce com essa predisposição. Muitas vezes, o tecido permanece pequeno e passa despercebido durante a infância, tornando-se mais evidente apenas na puberdade, na gestação ou na amamentação, devido à influência hormonal. Não há uma relação comprovada com hábitos de vida", afirma a médica.
Apesar de ser pouco conhecida, a condição é mais comum do que se imagina. "Estima-se que esteja presente em aproximadamente 2% a 6% da população, embora muitas pessoas não recebam o diagnóstico porque apresentam apenas pequenos volumes de tecido ou confundem a alteração com gordura localizada na axila. Provavelmente existe uma subnotificação dos casos", afirma. Inclusive, pode também ocorrer em homens, mas é menos comum, segundo a médica.
Os impactos variam bastante. "Algumas mulheres apresentam apenas um pequeno volume, sem qualquer sintoma. Outras podem sentir dor, sensibilidade, inchaço e aumento do tecido durante o período menstrual, gestação ou amamentação. Além do desconforto físico, é muito comum haver incômodo estético, dificuldade para usar determinadas roupas e constrangimento com o aspecto da região, fatores que podem afetar a autoestima e a qualidade de vida", diz Déborah Vazi Ribeiro.
A cirurgiã plástica orienta que é importante buscar avaliação médica sempre que houver um aumento persistente de volume na axila ou em outra região ao longo da linha mamária, dor recorrente, nódulos ou alterações que gerem dúvida.
"O ideal é consultar um um cirurgião plástico ou mastologista. A avaliação clínica, associada a exames de imagem quando necessários, permite confirmar o diagnóstico e descartar outras doenças", esclarece.
Quando é necessário fazer a cirurgia de retirada das mamas acessórias?
"A cirurgia é indicada quando a mama acessória provoca sintomas, como dor e desconforto, limita atividades do dia a dia, apresenta crescimento importante ou causa incômodo estético significativo. Também pode ser recomendada quando existe dúvida diagnóstica ou alterações suspeitas. A indicação é sempre individualizada, considerando os sintomas, o exame físico e as expectativas da paciente", diz a médica.
O tratamento é planejado de acordo com as características de cada paciente. "Quando há apenas excesso de gordura, a lipoaspiração pode ser suficiente. Nos casos em que existe tecido glandular ou excesso de pele, geralmente é necessária a retirada cirúrgica desse tecido, muitas vezes associada à lipoaspiração para melhorar o contorno da região. O objetivo é remover o volume de forma segura, preservando as estruturas nobres da axila e proporcionando um resultado funcional e estético", finaliza.
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