Mais de 40 mil imigrantes cruzaram a fronteira de Ceuta em um curto período, resultando na morte de pelo menos 19 pessoas durante a travessia entre Marrocos e o território espanhol, o que representa quase metade da população local.
O aumento repentino no número de imigrantes é atribuído a uma combinação de fatores, incluindo uma recente decisão do Supremo Tribunal da Espanha que dificulta a devolução imediata de imigrantes que chegam por via marítima.
O governo espanhol está respondendo à crise com o envio do primeiro-ministro Pedro Sánchez à região e a implementação de operações policiais para controlar a situação, enquanto muitos imigrantes estão retornando ao Marrocos devido a maus-tratos e superlotação na cidade.
Mais de 40 mil imigrantes entraram em Ceuta entre ontem e hoje, afirmaram agências de notícias e jornais espanhóis, citando estimativas iniciais das forças de segurança pública. Ao menos 19 pessoas morreram nessa travessia entre Marrocos e o território espanhol que fica na África.
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O que aconteceu
O número equivale a quase metade da população de Ceuta, onde moram 83.600 pessoas. As cifras são maiores do que as divulgadas oficialmente pelo governo na manhã de ontem, que estimavam a chegada de entre 2.000 e 3.000 pessoas.
O Departamento de Segurança Nacional da Espanha confirmou que 49 mil pessoas cruzaram a fronteira, mas a publicação foi apagada em seguida, segundo a agência Reuters. A agência informou que os dados divulgados nesta manhã pelo departamento citavam um levantamento do Ministério do Interior do país. O governo não explicou por que os dados foram apagados.
Ao longo da tarde e à noite, após o registro de vídeos que mostram os imigrantes entrando no território pelo mar, mais pessoas continuaram a chegar na região. Muitos dormiram em praças e nesta manhã a movimentação de pessoas nas ruas de Ceuta era intensa.
Os dados preliminares apontam para o maior número de imigrantes entrando em Ceuta ao mesmo tempo desde maio de 2021. Naquela ocasião, 10 mil pessoas conseguiram burlar os controles de fronteira. De janeiro a julho do ano passado, 2.826 pessoas entraram no território autônomo de forma semelhante, pelo mar ou burlando as fronteiras terrestres.
Na manhã de hoje, os primeiros barcos levando imigrantes de volta ao Marrocos partiram de Ceuta, segundo o "El Pais". O jornal relatou um número "considerável" de marroquinos que decidiram voltar por conta própria por sofrerem maus tratos de moradores, que jogam pedras e os ameaçam com armas, ou por "ter gente demais" na cidade.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez está a caminho da cidade. O centro de Ceuta foi isolado e uma operação foi montada pela Polícia Nacional para retirar os imigrantes da área de chegada do político.
Entenda a crise
Milhares de imigrantes entraram na cidade espanhola de Ceuta a partir de Marrocos, ambos no norte da África, ontem. As autoridades já monitoravam um número crescente de cruzamentos na fronteira, mas o ápice aconteceu quando centenas deles, ao mesmo tempo, chegaram ao território espanhol.
Imagens mostraram os imigrantes nadando do lado marroquino, usando boias infláveis e outros dispositivos de flutuação. Um porta-voz da Guarda Civil afirmou mais cedo que os imigrantes estavam "entrando em massa pelo mar" por meio do quebra-mar de Tarajal, e que a polícia estava sobrecarregada. Outros registros mostraram alguns dos migrantes gritando "Viva a Espanha" ao entrarem no território.
Por que há tantos pessoas tentando entrar em Ceuta de uma vez
Ainda não há uma resposta clara a essa pergunta, embora alguns acontecimentos recentes possam ter contribuído. No início de julho, o Supremo Tribunal da Espanha decidiu que imigrantes que chegam ao território espanhol por via marítima não podem ser devolvidos imediatamente por meio da fronteira da mesma forma que aqueles interceptados em uma passagem terrestre.
Os territórios de Ceuta e Melilla são considerados espanhóis, mas ficam no continente africano e fazem fronteira com o Marrocos. Eles podem ser alcançados pelo mar —embora isso signifique, na prática, contornar uma passagem fronteiriça terrestre, e não atravessar o Estreito de Gibraltar ou o Mar Mediterrâneo. Os dois territórios são as únicas fronteiras terrestres da Europa com a África.
Outro fator que atraiu atenção internacional foi a oferta do governo espanhol de anistia e permissões de residência para imigrantes que consigam demonstrar que já estavam no país sem autorização legal. No entanto, essa medida aplica-se apenas às pessoas que podem provar que já se encontravam na Espanha quando a regra entrou em vigor. Portanto, ela não melhora as chances de permanência para aqueles que entram atualmente por vias irregulares.
Pressão na fronteira e críticas a Marrocos
Sindicato da Polícia Nacional da Espanha (Jupol) acusou as autoridades marroquinas de não agirem para conter as saídas em direção ao território espanhol. Em comunicado, a entidade falou em "passividade absoluta por parte das autoridades marroquinas" e disse que a situação acaba recaindo sobre a Polícia Nacional.
Em outro trecho do texto, o sindicato afirmou que a repetição do cenário desgasta o trabalho das forças espanholas. "Enquanto a Espanha mobiliza todos os seus recursos para atender esta crise, o Marrocos permanece impassível diante de uma situação que se repete periodicamente e que termina recaindo exclusivamente sobre a Polícia Nacional", afirmou o Jupol.
Também houve uma concentração de milhares de jovens marroquinos na região de Castillejos, do lado marroquino da fronteira. Segundo a EFE, grupos chegaram a pé, de moto e de carro e avançaram em direção ao perímetro, com famílias, mulheres e crianças entre os presentes.
Parte dos jovens tentou cruzar a cerca em um momento em que não havia policiamento no local. "Vamos para a cerca, não pelo mar, para a fronteira. Inshalla (tomara que a gente consiga)", gritou um dos jovens, de acordo com o relato.
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