Um caderno de composição de Mozart, contendo lições ministradas a uma aluna em 1778, foi descoberto na Biblioteca Nacional da França, destacando a importância de sua estadia em Paris e suas atividades como professor.
O manuscrito, que inclui exercícios e peças para flauta e harpa, foi autenticado por especialistas e revela a relação entre Mozart e a harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, considerada uma aluna com pouca aptidão musical.
As obras do caderno foram apresentadas recentemente em um concerto na Biblioteca Nacional, marcando a estreia mundial de composições esquecidas de Mozart, um evento celebrado pela Orquestra Filarmônica da Radio France.
Um caderno de composição contendo lições que Wolfgang Amadeus Mozart ministrou a uma aluna em 1778, durante sua estadia em Paris, foi descoberto pela Biblioteca Nacional da França. A novidade foi divulgada nesta segunda-feira (22) pela instituição.
LEIA TAMBÉM
O manuscrito, até então desconhecido, é composto por 44 páginas e contém exercícios que Mozart passava para a harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes (1759-1795), filha do duque de Guînes. A descoberta ocorreu por acaso, em 2 de fevereiro, durante uma análise corriqueira de um pesquisador do Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França.
“Na opinião dos especialistas, esta é uma das descobertas mais importantes das últimas décadas, por dois motivos. Primeiro, lança luz sobre a última estadia de Mozart em Paris e, segundo, revela as atividades cotidianas de Mozart como jovem professor em diálogo com sua aluna", avalia o presidente da biblioteca, Gilles Pécout, em comunicado.
Achado inédito
François-Pierre Goy, curador responsável pelas coleções anteriores a 1800 do Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França, examinava um caderno de música anônimo e sem título do final do século 18. Para sua surpresa, reconheceu uma das caligrafias como sendo a de Mozart. Para confirmar o achado, pediu ajuda de sua colega musicóloga Laurence Decobert, curadora da exposição de 2017 intitulada "Mozart, uma Paixão Francesa".
Em abril, o manuscrito foi autenticado por Armin Brinzing, diretor da Bibliotheca Mozartiana no Mozarteum de Salzburgo, na Áustria. Ao que tudo indica, os exercícios de composição e as sete peças para flauta e harpa presentes no caderno eram ministrados para a filha do renomado flautista Adrien-Louis de Bonnières de Souastre. Ele acreditava que a jovem era "um gênio" e gostaria que ela aprendesse a compor grandes sonatas.
O duque de Guînes foi embaixador de Londres, de 1770 a 1776, período o qual adquiriu uma flauta rara, capaz de tocar o Dó grave (naquela época em Paris, as flautas só conseguiam alcançar até o Ré grave). Esse instrumento, além de tocar o "Concerto para Flauta e Harpa KV 299", encomendado pelo nobre em 1778, também servia para as composições que Mozart registrou no caderno recém-descoberto.
Aluna pouco talentosa
Mozart descreve os exercícios do documento em uma carta ao pai, datada de 14 de maio de 1778, na qual lamenta a falta de invenção musical de sua aluna. Ela mesma admitia sua pouca aptidão, embora tenha deixado alguns exercícios escritos à mão.
As contribuições de Mademoiselle de Guînes de misturam às de Mozart no manuscrito. Seis das peças para flauta e harpa estão completas e partem de ideias propostas pelo próprio professor. O último exercício, porém, permanece incompleto e as seis páginas finais estão em branco.
O manuscrito apresenta os mesmos carimbos de uma cópia francesa do Concerto para Flauta e Harpa do mesmo período, que passou despercebida por muito tempo e só foi trazida à atenção de especialistas em 2020. Esses dois documentos atestam a existência dos "dois pacotes de música" confiscados da residência do duque de Guînes, na Rue de Varenne, em 4 de maio de 1794, que foram incorporados ao acervo da Biblioteca Nacional da França no ano seguinte.
As aulas foram suspensas quando Mademoiselle de Guînes se casou, em 26 de julho. Mas as obras do manuscrito voltaram à vida, durante uma apresentação musical gravada pela Rádio França e interpretada pela primeira vez neste domingo (21) na Salle Ovale, da sede da Biblioteca Nacional da França em Richelieu, por dois músicos da Orquestra Filarmônica da Radio France.
“É uma honra excepcional para qualquer conjunto musical trazer de volta à vida uma obra esquecida de Mozart", declarou Sibyle Veil, Presidente e Diretora Executiva da Orquestra Filarmônica da Radio France. "O fato de esta estreia mundial ter sido confiada à Filarmônica é uma prova da excelência de seus músicos e de seu compromisso com a transmissão de nosso patrimônio musical".
Confira um trecho tocado do manuscrito no vídeo abaixo:
LEIA MAIS
+Lidas