Rara placa romana gravada com maldição é encontrada na Alemanha

Publicado em 22/06/2026, às 23h33
Elke Fuchs, Instituto de Papirologia, Universidade de Heidelberg
Elke Fuchs, Instituto de Papirologia, Universidade de Heidelberg

Por Galileu

Uma placa de chumbo do século 2 d.C. descoberta em Heerlen, Países Baixos, revela como crenças e práticas mágicas circulavam no Império Romano, apresentando uma inscrição em grego que invoca divindades egípcias, o que é incomum para a região da Germânia Inferior.

A tábua, encontrada em um assentamento militar romano, é uma defixio, um tipo de maldição que utilizava feitiços para prejudicar adversários, e contém elementos que indicam a influência das tradições mágicas egípcias, contrastando com a predominância do latim em outras tábuas da região.

Após a análise, o artefato será exibido no Museu de Heerlen, com a expectativa de que sua divulgação estimule novas pesquisas sobre a diversidade cultural e as interações religiosas no Império Romano.

Resumo gerado por IA

Uma pequena placa de chumbo descoberta em Heerlen, nos Países Baixos, está ajudando pesquisadores a compreender melhor como crenças, práticas mágicas e tradições culturais circulavam pelo Império Romano. Datada do século 2 d.C., a peça contém uma rara inscrição em grego antigo que invoca divindades e demônios em estilo egípcio, uma combinação incomum para a antiga província romana da Germânia Inferior.

O artefato foi encontrado durante escavações arqueológicas em Coriovallum, um antigo assentamento militar romano localizado onde hoje fica a cidade de Heerlen. A tábua, que mede cerca de 9,3 por 4,8 centímetros, estava enterrada em uma vala sob a praça da prefeitura, prática comum para objetos destinados a estabelecer contato com forças sobrenaturais.

A inscrição foi decifrada por pesquisadores do Instituto de Papirologia da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Bastante desgastado pela ação do tempo, o texto exigiu o uso de uma técnica conhecida como "imagem por transformação de reflectância" (RTI), que combina diversas fotografias feitas sob diferentes condições de iluminação para destacar detalhes quase invisíveis na superfície do objeto.

A análise revelou três grupos distintos de caracteres e confirmou que se trata de uma antiga tábua de maldição, conhecida pelos romanos como defixio e pelos gregos como katadesmos. Esses objetos eram geralmente confeccionados em chumbo, material associado à ideia de "ligação" ou aprisionamento mágico. Neles, eram gravados feitiços destinados a prejudicar adversários em disputas judiciais, rivalidades amorosas, conflitos pessoais ou competições esportivas.

Segundo Rodney Ast, diretor acadêmico do Instituto de Papirologia da Universidade de Heidelberg, o que torna a descoberta particularmente relevante é o fato de a inscrição ter sido escrita em grego e apresentar elementos típicos das tradições mágicas do Egito Romano. A maioria das tábuas de maldição encontradas no norte da Europa, por outro lado, costuma ser escrita em latim.

Além da invocação de divindades e entidades sobrenaturais de inspiração egípcia, a peça contém três símbolos mágicos conhecidos como characteres. De acordo com os pesquisadores, esses sinais provavelmente tinham a função de transmitir a mensagem da maldição aos poderes invocados.

Após esses símbolos aparecem os nomes de quatro pessoas escravizadas: dois homens com nomes latinos e duas mulheres com nomes gregos. No entanto, o estado fragmentário da inscrição impede uma interpretação definitiva sobre quem seria o alvo do feitiço.

"A tábua servia como uma maldição contra esses quatro escravos ou como uma maldição em nome deles contra uma pessoa não identificada", explica Ast, em comunicado.

A composição desse grupo também chamou a atenção dos especialistas. Para Julia Lougovaya, pesquisadora do Instituto de Papirologia, não se pode descartar a possibilidade de que uma das mulheres mencionadas tenha sido a autora da inscrição.

"Não se pode descartar a possibilidade de que uma das duas mulheres seja a autora da inscrição e tenha trazido consigo do Egito Romano a suposta capacidade de se comunicar com poderes divinos por meio de tais maldições", diz a pesquisadora.

A hipótese reforça a ideia de que pessoas, crenças e práticas religiosas circulavam intensamente pelo Império Romano. No Egito da Antiguidade, a magia desempenhava um papel importante na vida cotidiana e religiosa. Algumas práticas relacionadas à proteção e à cura eram amplamente aceitas, enquanto outras, voltadas para interesses pessoais ou para causar danos a terceiros, costumavam ser realizadas de forma discreta.

"Nos primeiros séculos da era cristã, as tradições do Oriente Próximo, egípcias, judaicas e, por vezes, até cristãs, fundiram-se e espalharam-se cada vez mais por todo o Império Romano da época, um desenvolvimento que a descoberta de Heerlen destaca de forma impressionante", afirma Joachim Quack, diretor do Instituto de Egiptologia da Universidade de Heidelberg.

Para os arqueólogos, o valor da peça vai além do conteúdo da maldição. Encontrada na fronteira norte do Império Romano, ela reúne elementos gregos, egípcios e romanos em um único objeto, oferecendo um raro testemunho da diversidade cultural que caracterizava o mundo antigo.

Após a análise dos pesquisadores, o artefato deverá ser exibido no Museu de Heerlen e sua inscrição será disponibilizada ao público, o que pode motivar futuras pesquisas.

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