Um estudo da Fiocruz revela que metade das jovens brasileiras a partir dos 18 anos enfrenta dupla ou tripla jornada de trabalho, acumulando atividades remuneradas, domésticas e de estudo, o que impacta sua saúde e oportunidades profissionais.
A pesquisa indica que 90% das mulheres jovens realizam atividades de cuidado, com mulheres negras dedicando o dobro do tempo em comparação aos homens, contribuindo para que 33% das jovens negras não estejam trabalhando ou estudando.
As medidas para abordar essa sobrecarga incluem discussões sobre a percepção social da juventude e a luta por melhores condições de trabalho, como o fim da jornada 6x1, que afeta diretamente a saúde física e mental dos jovens.
O acúmulo de trabalho remunerado, doméstico e de estudos começa cedo na vida das brasileiras. De acordo com um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família, a partir dos 18 anos, metade das jovens vive dupla ou tripla jornada, acumulando ao menos duas dessas atividades. O estudo é baseado em microdados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Anual de 2022 feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
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Laís Wendel Abramo, secretária nacional da Política de Cuidados e Família, órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, define o cuidado como as atividades da vida cotidiana. "Cuidar e organizar a casa, fazer comida, lavar roupa, cuidar de um bebê, cuidar de uma pessoa idosa que não consegue mais se alimentar sozinha, tomar banho sozinha, se movimentar pela casa", ela diz. "É um trabalho que durante muito tempo permaneceu invisível."
É grande o percentual de jovens, homens ou mulheres, que realizam esse tipo de atividade: 82,5%. Entre as mulheres o número sobe a 90%. A distribuição desigual das horas dedicadas ao trabalho doméstico e de cuidado chama a atenção. Mulheres negras dedicam ao cuidado o dobro do tempo que os homens, sejam brancos ou negros.
É um cenário que contribui para o fato de 33% das jovens negras não estarem trabalhando nem estudando. Laís afirma que essas horas dedicadas ao trabalho doméstico e de cuidado podem ser barreiras para o estudo, para o trabalho remunerado e para o lazer e a cultura. "Uma em cada três mulheres que não estão trabalhando respondem que não estão procurando emprego porque estão cuidando da casa, dos filhos ou de outros parentes."
Segundo André Sobrinho, coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, as mulheres jovens estão inseridas num universo cultural que as responsabiliza também pelo cuidado doméstico. É notável a disparidade de tempo dedicado ao cuidado entre homens e mulheres. Segundo a pesquisa, a média de horas semanais que mulheres jovens dedicam ao trabalho doméstico ou de cuidado sofre um acréscimo de 10 horas na vida adulta em relação às horas gastas na adolescência. Já para os homens esse acréscimo é de três horas.
O acúmulo de jornadas entre as mulheres é um padrão em todos os segmentos da juventude. Na faixa etária de 15 a 17 anos, 78,4% estudam e fazem trabalhos domésticos ou de cuidados. São 8,1% as que somam trabalho remunerado a essa dupla jornada.
Dos 18 aos 24 anos, cai para 28,7% o percentual das que estudam e realizam trabalhos domésticos ou de cuidado, mas sobe o percentual das que acumulam três jornadas: 13,1%. Dos 25 aos 29 anos, mais da metade (57,4%) têm trabalho remunerado e de cuidados ou doméstico. A tripla jornada volta a cair para 9,7%, agora com apenas 14% dedicadas aos estudos somados ao cuidado.
São dados que desafiam a ideia de que a juventude está desocupada. Mais de 9 milhões de brasileiros foram enquadrados como "nem-nem", aqueles que não têm trabalho remunerado nem estudam. Segundo o estudo da Fiocruz e da secretaria, levando em consideração o trabalho de cuidado e doméstico não remunerado, apenas 2% das mulheres estão sem fazer nenhuma dessas atividades.
A percepção social da juventude como uma fase de energia, vitalidade e resistência é um desafio para o debate em torno da sobrecarga dessa faixa etária. Segundo Sobrinho, há uma "glamorização do corre, da correria" na sociedade. "A gente vê entregadores de aplicativo que passam 12 horas com uma bolsa de cinco, às vezes oito quilos nas costas e a gente não estranha, porque sempre há a percepção de que o corpo jovem é o corpo que aguenta."
O acúmulo de jornadas, e mesmo as jornadas exageradas, têm impactos diretos na saúde física e mental. "A juventude está cansada. Não é à toa a luta pelo fim da escala 6x1, que é muito impulsionada por jovens que ocupam postos em supermercados, em farmácias, no comércio e no serviço", diz Sobrinho.
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