Tiago Pitthan, de 49 anos, organizou um velório em vida para celebrar sua trajetória após ser diagnosticado com câncer gástrico em estágio avançado, optando por uma festa com música e amigos em vez de um evento tradicional de despedida.
O diagnóstico veio após meses de sintomas não identificados, culminando em uma endoscopia que revelou um tumor maligno, levando Tiago a iniciar quimioterapia e a se preparar para uma cirurgia que acabou não sendo viável devido à metástase.
Com a ajuda de amigos e conhecidos, Tiago planejou o evento, que contará com apresentações musicais e atividades interativas, buscando transformar um momento de dor em celebração e reflexão sobre a vida e a morte.
Os convidados chegam ao som de bossa-nova. Clássico, cara de lounge, início de festa, mas não só: é também o estilo que Tiago Pitthan aprendeu a ouvir com o pai ainda criança. Em seguida, a programação segue com samba, roda de verdade; gente em pé, pandeiro, surdo, cavaco, tamborim, cuíca e tantã.
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O DJ então assume a trilha e enfileira brasilidades diversas, de todas as décadas, enquanto o próprio protagonista da festa se ajeita com a banda para performar uma música. Ele, na guitarra, instrumento que insistiu em aprender a tocar quando metástases de um câncer de estômago se espalharam pelo seu corpo.
A noite segue adentro com rock and roll ‘de todo mundo’. Bandas de amigos, de desconhecidos, de quem quiser chegar.
O que os convidados vão celebrar, no dia 30 de maio, no espaço da Cervejaria Canalhas, em Campo Grande, não é um aniversário, nem um show, nem uma despedida qualquer.
É o velório de Tiago Martins Pitthan, de 49 anos. Ele está vivo.
O corpo avisou antes
No Réveillon de 2023 para 2024, Tiago estava em Bonito com um grupo de amigos. A cidade, no Mato Grosso do Sul, é conhecida pelos rios de água transparente, pelas cachoeiras e pelo silêncio que não existe em Campo Grande, onde ele mora.
Na ceia, tentou comer e não conseguiu. Na primeira garfada, a sensação foi imediata —o estômago cheio antes de começar. Forçou um pouco mais e vomitou. Atribuiu ao excesso dos dias anteriores, viagem, bebida, e voltou para casa, mas o problema continuou.
Ele treinava para hipertrofia, mas estava perdendo peso.
Foram meses de médicos até chegar a um gastroenterologista. A endoscopia, em março de 2024, identificou um adenocarcinoma gástrico —tumor maligno que se forma na mucosa do estômago e responde por mais de 90% dos cânceres gástricos.
“A descoberta do câncer foi um alívio”, ele não ironiza. Depois de meses, o que tinha ganhou nome, ufa. Iniciou as sessões protocolares de quimioterapia e agendou a gastrectomia: retiraria o estômago, o intestino assumiria a função, a vida seguiria.
A cirurgia foi marcada para maio. Quando os médicos abriram, encontraram a metástase. Dois focos no intestino, comprometimento do peritônio e início de invasão pulmonar. A gastrectomia não foi feita. Em cânceres gástricos com disseminação peritoneal, a cirurgia curativa deixa de ser viável —não há mais como retirar o tumor por cirurgia.
“Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo.”
Por meses, o câncer foi, nas palavras dele, um inimigo abstrato, invisível. Sabia que tinha. Fazia quimioterapia. Mas continuava trabalhando, pedalando, treinando. Pesava 88, 89 quilos. Saía de casa, ia à academia, mantinha o cotidiano.
Mudou em novembro de 2025. Os pulmões reduziram a capacidade de repente. Tiago parou de conseguir comer com regularidade. Em dois ou três meses, perdeu 22 quilos —chegou a 67. Ficou fraco, sem fôlego, impossibilitado de praticar qualquer esporte.
Desenvolveu neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, síndrome chamada pé caído: o nervo fibular é afetado pela toxicidade dos quimioterápicos, o pé perde mobilidade dorsal, e a marcha vira um arrasto. Ele passou a andar mancando; precisou adotar bengala, acessório que, diz, lhe caiu muito bem. Achou que pedia uma boina.
Foi então que resolveu marcar o próprio velório.
A ideia não surgiu do nada. Em agosto de 2024, com o diagnóstico feito e a metástase já confirmada, Tiago perdeu o pai. A família fez o velório —ele pessoalmente não é fã do ritual, acha que prolonga o sofrimento, mas a mãe quis e ele não foi contra.
O velório, diz, foi bonito: amigos reunidos, histórias sendo contadas, gente se divertindo. Para Tiago, no entanto, faltou o pai —o próprio homenageado—, que saberia mais histórias do que qualquer um.
“Naquele momento, decidi: não vou faltar no meu.”
O espaço é o antigo galpão da Canalhas, cervejaria local que mudou de endereço e o cedeu para a festa. A data se ajeitou ao calendário do irmão, que mora em Portugal.
Os dois antigos sócios de uma produtora de eventos que Tiago teve anos atrás —ele é turismólogo antes de ser advogado— estão organizando tudo: palco, som, bandas, estrutura. Ele acompanha, quer que seja perfeito, mas passa o operacional para eles. Com meses de antecedência, dá para fazer uma produção tranquila.
Não quer só os chegados. Quer conhecidos, quem o conhece de um “oi, tudo bem?” e quer estar presente. Postou no Instagram, sem assessoria, sem nada, e o que veio de volta ele não esperava: bandas oferecendo equipamento, desconhecidos pedindo para participar, relatos de gente que diz ter reconfigurado a própria forma de encarar a vida depois de ler sobre o velório. Também recebeu hate. Estima que seja 1% das reações.
Além da música, haverá um flash mob e um aquarelista pintando um quadro da festa em tempo real. Tiago quer muito esse quadro.
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