'Não vou faltar no meu': homem com câncer terminal organiza festa para o próprio velório

Publicado em 30/04/2026, às 09h17
Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Por g1

Tiago Pitthan, de 49 anos, organizou um velório em vida para celebrar sua trajetória após ser diagnosticado com câncer gástrico em estágio avançado, optando por uma festa com música e amigos em vez de um evento tradicional de despedida.

O diagnóstico veio após meses de sintomas não identificados, culminando em uma endoscopia que revelou um tumor maligno, levando Tiago a iniciar quimioterapia e a se preparar para uma cirurgia que acabou não sendo viável devido à metástase.

Com a ajuda de amigos e conhecidos, Tiago planejou o evento, que contará com apresentações musicais e atividades interativas, buscando transformar um momento de dor em celebração e reflexão sobre a vida e a morte.

Resumo gerado por IA

Os convidados chegam ao som de bossa-nova. Clássico, cara de lounge, início de festa, mas não só: é também o estilo que Tiago Pitthan aprendeu a ouvir com o pai ainda criança. Em seguida, a programação segue com samba, roda de verdade; gente em pé, pandeiro, surdo, cavaco, tamborim, cuíca e tantã.

O DJ então assume a trilha e enfileira brasilidades diversas, de todas as décadas, enquanto o próprio protagonista da festa se ajeita com a banda para performar uma música. Ele, na guitarra, instrumento que insistiu em aprender a tocar quando metástases de um câncer de estômago se espalharam pelo seu corpo.

A noite segue adentro com rock and roll ‘de todo mundo’. Bandas de amigos, de desconhecidos, de quem quiser chegar.

O que os convidados vão celebrar, no dia 30 de maio, no espaço da Cervejaria Canalhas, em Campo Grande, não é um aniversário, nem um show, nem uma despedida qualquer.

É o velório de Tiago Martins Pitthan, de 49 anos. Ele está vivo.

O corpo avisou antes

No Réveillon de 2023 para 2024, Tiago estava em Bonito com um grupo de amigos. A cidade, no Mato Grosso do Sul, é conhecida pelos rios de água transparente, pelas cachoeiras e pelo silêncio que não existe em Campo Grande, onde ele mora.

Na ceia, tentou comer e não conseguiu. Na primeira garfada, a sensação foi imediata —o estômago cheio antes de começar. Forçou um pouco mais e vomitou. Atribuiu ao excesso dos dias anteriores, viagem, bebida, e voltou para casa, mas o problema continuou.

Ele treinava para hipertrofia, mas estava perdendo peso.

Foram meses de médicos até chegar a um gastroenterologista. A endoscopia, em março de 2024, identificou um adenocarcinoma gástrico —tumor maligno que se forma na mucosa do estômago e responde por mais de 90% dos cânceres gástricos.

“A descoberta do câncer foi um alívio”, ele não ironiza. Depois de meses, o que tinha ganhou nome, ufa. Iniciou as sessões protocolares de quimioterapia e agendou a gastrectomia: retiraria o estômago, o intestino assumiria a função, a vida seguiria.

A cirurgia foi marcada para maio. Quando os médicos abriram, encontraram a metástase. Dois focos no intestino, comprometimento do peritônio e início de invasão pulmonar. A gastrectomia não foi feita. Em cânceres gástricos com disseminação peritoneal, a cirurgia curativa deixa de ser viável —não há mais como retirar o tumor por cirurgia.

“Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo.”

Por meses, o câncer foi, nas palavras dele, um inimigo abstrato, invisível. Sabia que tinha. Fazia quimioterapia. Mas continuava trabalhando, pedalando, treinando. Pesava 88, 89 quilos. Saía de casa, ia à academia, mantinha o cotidiano.

Mudou em novembro de 2025. Os pulmões reduziram a capacidade de repente. Tiago parou de conseguir comer com regularidade. Em dois ou três meses, perdeu 22 quilos —chegou a 67. Ficou fraco, sem fôlego, impossibilitado de praticar qualquer esporte.

Desenvolveu neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, síndrome chamada pé caído: o nervo fibular é afetado pela toxicidade dos quimioterápicos, o pé perde mobilidade dorsal, e a marcha vira um arrasto. Ele passou a andar mancando; precisou adotar bengala, acessório que, diz, lhe caiu muito bem. Achou que pedia uma boina.

Foi então que resolveu marcar o próprio velório.

A ideia não surgiu do nada. Em agosto de 2024, com o diagnóstico feito e a metástase já confirmada, Tiago perdeu o pai. A família fez o velório —ele pessoalmente não é fã do ritual, acha que prolonga o sofrimento, mas a mãe quis e ele não foi contra.

O velório, diz, foi bonito: amigos reunidos, histórias sendo contadas, gente se divertindo. Para Tiago, no entanto, faltou o pai —o próprio homenageado—, que saberia mais histórias do que qualquer um.

“Naquele momento, decidi: não vou faltar no meu.”

O espaço é o antigo galpão da Canalhas, cervejaria local que mudou de endereço e o cedeu para a festa. A data se ajeitou ao calendário do irmão, que mora em Portugal.

Os dois antigos sócios de uma produtora de eventos que Tiago teve anos atrás —ele é turismólogo antes de ser advogado— estão organizando tudo: palco, som, bandas, estrutura. Ele acompanha, quer que seja perfeito, mas passa o operacional para eles. Com meses de antecedência, dá para fazer uma produção tranquila.

Não quer só os chegados. Quer conhecidos, quem o conhece de um “oi, tudo bem?” e quer estar presente. Postou no Instagram, sem assessoria, sem nada, e o que veio de volta ele não esperava: bandas oferecendo equipamento, desconhecidos pedindo para participar, relatos de gente que diz ter reconfigurado a própria forma de encarar a vida depois de ler sobre o velório. Também recebeu hate. Estima que seja 1% das reações.

Além da música, haverá um flash mob e um aquarelista pintando um quadro da festa em tempo real. Tiago quer muito esse quadro.

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